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É uma operação demasiado importante para falhar. O plano é perfeito. Conta com um aliado previsível: a incompetência das autoridades portuguesas. O assassino entra calmamente no átrio do hotel. O blusão castanho contrasta com os homens engravatados que o rodeiam. É o esconderijo ideal pra arma de calibre 9 mm que leva num dos bolsos. Em Albufeira, estão reunidas algumas das pessoas mais importantes da política mundial. Mas só uma delas interessa ao assassino misterioso que espera no hall de entrada. Só precisa de paciência. Mais cedo ou mais tarde, o homem vai ter de aparecer. 10 de abril de 1983. São 9h05. O assassino aguarda junto ao bar da recepção do hotel. Olha várias vezes à volta. Quer ter a certeza de que não está a ser observado. E quer garantir que identificou o alvo assim que ele chegar. Poucos minutos depois, vê um homem entrar pela porta principal. Não há dúvida. É ele. Vem acompanhado por um assessor. Para no meio do átrio do hotel e começa uma conversa com dois políticos estrangeiros. Mas isso não é necessariamente um problema. Se tiver de ser, haverá danos colaterais. O atirador avança devagar pra não levantar qualquer suspeita. O homem está de costas e a menos de cinco metros. É o momento pra atacar. O assassino dispara quatro vezes. O alvo cai no chão. Agora é preciso sair dali. Apesar da confusão que se instala, escapa a passo lento pelas portas principais, tão facilmente como entrou. Só falta despistar os polícias que estão na rampa de acesso ao hotel. Tinha acabado de cumprir a missão. Matar, em Portugal, um dos homens mais importantes do Médio Oriente. Este seria apenas o primeiro ataque. Três meses depois, Portugal vai ser surpreendido por um segundo atentado cometido por outro grupo terrorista internacional, agora em Lisboa. E dessa vez, o número de mortes vai ser ainda maior. 1983 é o ano em que o país, que estava habituado a ver o terrorismo ao longe, no estrangeiro e através da televisão, vai acompanhar ao vivo e literalmente à porta de casa, tiroteios, operações de resgate, explosões e perseguições policiais. Como a caça ao homem, montada este domingo de manhã, que só há de acabar largas horas mais tarde. E a centenas de quilômetros de Albufeira. "1983: Portugal à Queima Roupa" é uma série pra ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Vitória Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Episódio um: um corpo no lobby do hotel.

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Sábado à noite. Daqui a umas horas vai haver uma execução sumária no Hotel Monte Choro, em Albufeira. Mas para já, o momento é de descontração. Chegou ao fim mais um dia de trabalhos do Congresso da Internacional Socialista. Estão cá Willy Brandt, antigo chanceler alemão e atual presidente da organização, o primeiro-ministro espanhol Felipe González e o líder do governo sueco, Olof Palme, que daqui a menos de três anos também vai ser alvo de um atentado e morto a tiro. E claro, está também o anfitrião, Mário Soares, secretário-geral do PS.

O Mário Soares era conhecido internacionalmente e na Europa era uma grande figura da liberdade e da democracia.

António Campos é fundador do partido e braço direito de Mário Soares.

A relação com o Brandt, com o Schmidt, com o Palme, com essas personalidades, todos eles admiravam o Mário Soares. Ele tinha influência em muitos países.

Nos corredores e salas do hotel, passeiam-se várias figuras importantes da família socialista mundial. Aproveitam esta última noite para beber um copo e relaxar. Mas há um homem com outros planos. É apenas um convidado, um observador neste congresso, e nem sequer está prevista qualquer intervenção. Mas uma noite informal também serve para fazer política. Chama-se Issam Sartawi e representa a Organização para a Libertação da Palestina. É um dos homens mais próximos de Yasser Arafat, líder histórico da OLP. É o primeiro palestiniano a ser recebido num destes eventos e aproveita a presença da representação israelita para negociar, explica Ramiro Santos, jornalista que na altura estava no Algarve a fazer a cobertura do encontro da Internacional Socialista para a Antena um.

Houve contactos, Issam Sartawi aproveitou o acontecimento, porque era no fundo um grande palco onde estavam presentes muitas personalidades políticas, incluindo chefes de Estado e de governo. E houve contactos de bastidores entre Issam Sartawi e a sua comitiva com representantes israelitas, incluindo a embaixadora de Israel em Lisboa. O que falaram não seria propriamente coisas de somenos importância, julgo eu, porque ele vinha com a missão de lançar pontes de aproximação a Israel, no sentido de encontrar um caminho e uma solução pacífica para o conflito israelo-palestiniano.

Por esta altura, Issam Sartawi é uma das poucas vozes a defender o diálogo com o lado israelita. De origem árabe, nasceu em Acre, no norte de Israel, mas passou a maior parte da vida no Iraque. Rapidamente ganhou a confiança de Yasser Arafat e tornou-se uma das figuras mais respeitadas a nível mundial, sobretudo por ser uma figura conciliadora. Mas a postura moderada também traz perigos. E vários problemas internos. As vitórias militares israelitas no início da década de 80 obrigaram o próprio Arafat a afastar-se de Sartawi, para não ser visto como um líder fraco. Por isso, quando chega a Monte Choro, em abril de 1983, o representante da OLP não tem ninguém que o proteja.

Quando o Issam Sartawi veio a Portugal para esta última conferência, ele, por exemplo, voou de Paris para Lisboa e ao lado dele, no dia 6 de abril, estava a jornalista israelita Tamar Golan. Quando chegaram a Lisboa, ela não acreditou no que via. Issam Sartawi estava completamente sozinho, não tinha guarda-costas, ninguém lhe mandou proteção, ninguém lhe mandou um carro.

A austríaca Tessa Szyszkowitz é a autora do livro "O Combatente da Paz", a única biografia publicada de Issam Sartawi. Como jornalista, foi também correspondente no Médio Oriente. Explica que Sartawi agia como um soldado secreto para a causa palestiniana nas negociações com Israel.

What we had agreed upon that peace, real peace, far away of terrorism, of wars.

Para Yasser Arafat, a situação era ideal. Podia reclamar vitória se as conversas tivessem sucesso, ou negar envolvimento face às críticas dos setores mais radicais dentro da OLP. É por isso que neste congresso, qualquer negociação tem de acontecer nos bastidores. Para além da pressão dos palestinianos, há vários líderes ocidentais que não estão confortáveis com a presença de Sartawi na Internacional Socialista. Essa é a razão que leva a reunião a acontecer no Algarve, justifica o então jornalista Miguel Almeida Fernandes Enviado do semanário Expresso para cobrir o evento.

Este Congresso da Internacional Socialista era para ser realizado na Austrália, e não em Portugal. Por que não se realizou na Austrália? Porque o primeiro-ministro, então australiano trabalhista, opunha-se a que o Sartawi ou qualquer membro da OLP se sentasse nesse congresso. Então Mário Soares, que tinha feito meses antes um périplo liderando uma comitiva da Internacional Socialista pelo Médio Oriente, achou por bem convidar o assessor do Arafat para estar presente em Portugal.

Basta! Pão e liberdade! Vamos a todos, pão e liberdade!

Solidariedade na saúde, na segurança social e na habitação. Quatro: defender os direitos de quem trabalha.

A reunião da Internacional Socialista acontece numa altura em que o país atravessa a campanha eleitoral para as legislativas de 1983, depois da demissão do Primeiro-Ministro Francisco Pinto Balsemão. Para Mário Soares, secretário-geral do PS, são semanas decisivas para voltar ao cargo que abandonou em 1978, mas também para se afirmar no plano internacional. A questão palestiniana é um dos temas do congresso, mas não o principal, garante o jornalista Ramiro Santos.

Para além da questão palestiniana, que foi o assunto que trouxe Issam Sartawi ao congresso como representante da OLP e homem de confiança do seu líder Yasser Arafat, o tema de maior destaque e central em discussão, que esteve em discussão durante esses três dias, era o assunto de instalação dos mísseis balísticos Pershing 2 americanos na Europa para fazer face à ameaça dos SS-20 de Moscovo apontados para a Europa.

Em 1983, Ramiro Santos está praticamente em início de carreira. Nascido no Alentejo, viveu grande parte da infância e adolescência em África. Voltou a Portugal para trabalhar como jornalista no pós 25 de Abril. A Antena 1 contratou-o como repórter regional para o Algarve. E com o país focado na campanha eleitoral, foi a ele que calhou cobrir o encontro da Internacional Socialista.

Perante as personalidades que ali estavam, aquilo para nós era a reportagem da nossa vida, de um jornalista que estava praticamente em início de carreira. Eu tinha 10 anos de profissão. Portanto, senti uma emoção extremamente forte, porque tínhamos consciência que aquilo que estávamos a reportar era um assunto de projeção internacional e que iria marcar as nossas vidas enquanto profissionais.

E de facto, a vida de Ramiro Santos ficou marcada pelo que aconteceu no Algarve, mas não da forma que esperava. Dentro de pouco tempo, o jornalista vai estar com uma arma na mão. Ninguém diria que estavam ali alguns dos nomes mais importantes da política mundial. Neste fim de semana, quem entra no hotel e passa uns minutos no átrio ou percorre os corredores, pode nem sequer reparar nisso. Tirando os crachás e o número mais elevado de pessoas que passeiam de roupa formal, pouco está diferente. Ao todo, estão cerca de 600 turistas alojados no hotel. E há um aspeto que salta à vista: a falta de acompanhamento de segurança dos congressistas mais relevantes. O então ministro da Administração Interna, Ângelo Correia, assume que foi um erro grave.

Não houve uma visão dinâmica, não houve uma visão de onde vieram as pessoas que iam para essa reunião. O sistema de proteção pessoal, por exemplo, hoje em dia, para algumas personalidades, nesse caso, se naquela altura aplicado, a PSP tem um corpo especial de defesa das altas individualidades. Naquela altura não havia nada disso. Ouça, era o puro e total amadorismo.

A PSP ainda não tem nenhum tipo de policiamento especial pensado para este tipo de evento. A segurança é feita apenas por agentes que não foram treinados para aquelas situações. As estimativas da imprensa da altura apontam para a presença de 120 polícias no hotel, entre o exterior e o interior. Cada delegação pode escolher trazer segurança pessoal, mas nem todos o fazem. O que leva a situações insólitas, como lembra Ramiro Santos.

De tal maneira a segurança era permissiva, chamemos-lhe assim, que eu próprio subi e desci várias vezes com líderes como Willy Brandt no elevador. Eles próprios cruzavam-se diariamente e frequentemente com turistas em fato de banho, que vinham da praia ou que iam para a praia, subiam no elevador com eles. Portanto, logo por aí se pode

Ver que não havia praticamente segurança nenhuma. Só não houve outros atentados com outros líderes de maior projeção mundial, porque não calhou.

Nas viagens que fazia ao estrangeiro, Issam Sartawi dispensava várias vezes a segurança pessoal. Andava apenas acompanhado do secretário, e isso chegava-lhe. A OLP não destacou nenhum guarda-costas para o proteger e a Organização da Internacional Socialista também não pediu ao Estado português o reforço da segurança à volta dele. Era um mero observador do congresso. O antigo ministro Ângelo Correia lamenta a decisão.

Os observadores são sempre menos importantes que os membros formais da organização. Para nós tiveram todos igual tratamento. Sobretudo, não houve uma atenção especial sobre Sartawi. Houve uma atenção igual à que se deram aos outros, não específica. E se calhar, nessa altura, o que era requerido era uma atenção específica.

Sem guarda-costas por escolha própria e sem segurança individual por escolha da organização do evento, num hotel de portas abertas onde qualquer um podia entrar. Estavam reunidas todas as condições pra um assassinato a sangue frio. Domingo, 10 de abril de 1983. São 08h30 da manhã. Depois de uma noite de convívio e de um jantar animado em Albufeira, Issam Sartawi toma o pequeno-almoço com o secretário, no Hotel Balaia, onde estão alojados, a cerca de 10 minutos de carro do congresso. Chegam ao Hotel Monte Choro e param no lobby de entrada, quando encontram delegados da Tanzânia e do Chipre. Mas a conversa não dura muito tempo. Sartawi está de costas pro atirador, quando uma bala o atinge na cabeça. Cai imediatamente no chão. No total, ouvem-se quatro tiros. O secretário é atingido numa perna e arrasta-se até Sartawi. Durante cinco minutos, é o único que se aproxima dele. Fica ali, sozinho, agarrado ao corpo. A confusão instala-se na sala. A rapidez dos disparos deixa todas as testemunhas em choque. É a oportunidade perfeita pra fuga do assassino. Tão facilmente como entrou, o atirador sai a passo pela porta principal do hotel. Sabe que o porteiro está de baixa há cinco dias. E sem porteiro, a entrada principal do edifício fica sempre aberta. Lá fora está montado desde sexta-feira, um dispositivo de segurança da PSP, mas também há polícias dentro do hotel. Dois agentes reparam que um homem sai da sala logo a seguir aos disparos. Vão atrás dele. O assassino percebe que está a ser percebido. Não queria acelerar o passo pra não chamar mais a atenção, mas deixa de ter hipótese. Começa a correr de arma na mão. Os polícias disparam, um deles atira sete vezes, mas nunca acerta no alvo. O homem continua em fuga, conta o jornalista Ramiro Santos. Mais alguns metros e vai estar fora do cordão policial. Até que de repente...

No final da rampa de acesso ao hotel, escorregou e caiu aos pés de um polícia, que não sabia o que se tinha passado. Levantou-se, atravessou a rua, atravessou o jardim ao fundo, por aí fora.

Ainda é seguido pela polícia durante mais de 200 metros. Mas acaba por conseguir desaparecer. Entretanto, começam a chegar ao hotel jornalistas alertados pelos disparos. Na altura, Miguel Almeida Fernandes trabalhava no Expresso.

Eu estava numa residência a 20 metros do hotel. Estava vestido pra ir assistir ao início dos trabalhos do congresso. Quando ouvi os disparos, saí imediatamente e dirigi-me pro átrio do hotel, onde vi e fiquei espectado com o homem ali morto. Alguns congressistas à volta, alguma polícia à volta.

Quando Ramiro Santos chegou ao átrio do hotel, o corpo ainda estava no local.

Quando chegamos lá é que encontramos o corpo já estendido no chão, ensanguentado. Estava o aparato policial, naturalmente, já havia um bastidor à volta do corpo. O corpo coberto também. Notava-se uma poça de sangue no chão, diversas marcas de bala no chão e nas paredes do hotel.

O secretário do dirigente da OLP, baleado numa perna, já tinha sido levado pro hospital, mas foi sob protesto. Queria ficar com Sartawi Depois do choque inicial, a polícia começa finalmente a reagir e a organizar-se. Primeiro são chamados reforços, depois a zona é evacuada e logo a seguir começam a ser ouvidas as primeiras testemunhas. À hora do crime estava muita gente no lobby do hotel. Não deveria ser difícil, no mínimo, chegar a uma descrição física do assassino. Pelo menos, é isso que pensa o inspetor da Polícia Judiciária enviado ao local. Mas quando começar a interrogar as testemunhas, a história vai complicar-se. Vão contar-lhe cinco versões muito diferentes. Portugal ainda está a dar os primeiros passos no desenvolvimento de novas tecnologias para identificar suspeitos. O famoso retrato robô, como hoje o conhecemos, ainda não existe e a maioria dos esboços são feitos com lápis de carvão e uma folha de papel. Só com muita precisão é possível chegar a uma descrição credível do fugitivo. O primeiro a ser ouvido pela polícia é um agente da PSP, presente no hotel para fazer a segurança da delegação turca. Esteve no hall de entrada minutos antes do homicídio. Explica que identificou um homem encostado a um dos pilares do átrio, à conversa com um outro indivíduo. Fixou a cara dos dois porque olharam várias vezes, de forma suspeita, para uma das congressistas que ali estava. Garante que um deles trazia um blusão castanho em pele de antílope e calças cinzento escuro. Esse é um pormenor que bate certo com o testemunho de um dos agentes que perseguiu o assassino. Diz que o homem se destacou na multidão por não estar de fato e gravata. Fala num rapaz magro e moreno, de cabelo preto, entre os 20 e os 25 anos e com pouca barba. Mas a seguir começam as contradições. Uma congressista alemã descreve o assassino como um homem árabe, sem barba, a rondar os 35 anos e vestido com um fato cinzento. Já no hospital, o secretário de Sartawi assume que não conseguiu ver a cara do atirador, mas diz ter uma certeza: o homem estava de fato completo de cor escura. Um turista que estava dentro de um carro em frente ao hotel confirma ter visto um homem magro, em fuga, de arma na mão, a escorregar no fim da rampa no exterior. E garante: esse homem usava roupa desportiva, mas não se lembra se o fugitivo continuou com a arma quando se levantou. O que provoca mais uma dúvida: onde ficou a pistola? Depois de ouvir todas as testemunhas, o inspetor da PJ sabe que o suspeito é um rapaz novo, ou é um homem de 35 anos. Tem pouca barba ou não tem barba nenhuma. Vestia um fato cinzento ou um blusão castanho em pele de antílope. Um fato completo de cor escura ou roupa desportiva. Perante tantas versões diferentes, a polícia só tem certeza em relação a três características: o atirador é um homem moreno, relativamente jovem e de cabelo preto. Mas há outro problema que baralha ainda mais a investigação. Algumas testemunhas garantem que viram dois homens suspeitos no hall de entrada, e não apenas um. Teria o assassino um cúmplice?

O assassino estava dentro do hotel, disparou, Sartawi caiu logo morto. O seu companheiro foi ferido numa perna.

Passam poucas horas desde a morte de Sartawi e Mário Soares convoca uma conferência de imprensa para dar explicações. Afinal, foi o líder do PS a sugerir que o congresso fosse realizado em Portugal. Garante que ele próprio fez todas as diligências pra que a segurança das personalidades presentes fosse garantida.

Onde é que ele foi atingido?

Na cabeça, sim. O governo de Francisco Pinto Balsemão defende-se. Roberto Carneiro, secretário de Estado da Administração Regional e Local, diz que só foi dada segurança especial aos nomes que foram indicados pela Organização da Internacional Socialista. E o nome de Issam Sartawi não estava na lista de pessoas a proteger. Em comunicado, o PS contra-ataca e lembra que não cabe ao partido substituir-se ao Executivo na segurança do país. O dia de Mário Soares está a ser atribulado. Informa o Presidente da República Ramalho Eanes e o Primeiro-Ministro sobre o que aconteceu. E também passa pelo hospital pra visitar Anwar Eche, o secretário de Issam Sartawi Agora é a altura de escrever a Yasser Arafat, que conhece bem e tinha visitado várias vezes, uma delas num bunker em Beirute. Na mensagem enviada ao líder da OLP, Mário Soares lamenta o cobarde assassinato de Sartawi e sublinha que o PS vai estar sempre do lado dos moderados. Por essa altura, Arafat já tinha sido informado do homicídio. A jornalista Tessa Szyszkowitz recorda que em 1983, a relação com o conselheiro enviado ao Algarve já não era a melhor, mas ficou muito abalada.

Contaram-me que quando Issam Sartawi foi morto, Arafat chorou. Eles foram seguramente muito próximos em determinadas alturas. Issam Sartawi era um homem carismático e Yasser Arafat, até certo ponto, também. Não conheci Sartawi de todo e Arafat conheci apenas um pouco como jornalista, mas é certo que mantinham uma relação muito próxima e que a luta pela libertação do povo deles os uniu.

Arafat recebe a notícia durante uma visita ao Iémen e aponta imediatamente os culpados: os serviços de informações israelitas. Em conversa informal com a polícia, a seguir ao interrogatório, o secretário Anwar Eche insiste nessa tese. A morte de Sartawi era do interesse da Mossad. E acrescenta ainda que, no passado, todos os homicídios de figuras importantes da OLP estiveram relacionados com Israel. Mas depois levanta outra hipótese completamente diferente. Talvez o assassino pertença a um grupo radical dentro da própria Organização para a Libertação da Palestina. Afinal, os esforços de Sartawi para se aproximar de Israel sempre foram mal recebidos internamente. Para muitos, aquela morte simboliza o falhanço das tentativas de conciliação entre os dois lados do conflito. Shimon Peres, líder do Partido Trabalhista Israelita, chega mesmo a dizer à imprensa que a bala do assassino abateu o espírito da moderação. Cada minuto sem pistas é um minuto perdido. O Primeiro-Ministro português ordena o encerramento imediato das fronteiras. O governo pede especial atenção à tentativa de saída do país de pessoas de origem árabe. Todas as autoridades estão alerta. Até a GNR de Alvalade do Sado, na zona de Santiago do Cacém. É meio-dia, duas horas e meia depois do assassinato. Um carro patrulha passa por um táxi na estrada. Lá dentro, no lugar do passageiro, segue um homem moreno, de cabelo preto, que corresponde à descrição física do suspeito do homicídio de Issam Sartawi, mas o táxi não é mandado parar. Cerca de uma hora mais tarde, o carro volta a ser visto por outra patrulha, agora perto do Montijo. Mais uma vez, os guardas reparam no passageiro, mas mais uma vez não fazem sinal ao taxista para parar. Em vez disso, procuram o telefone e transmitem o alerta à GNR de Setúbal. O suspeito do homicídio foi avistado a caminho de Lisboa. A informação é imediatamente transmitida para todo o lado. É preciso encontrar um táxi marca Opel, matrícula FU7315. O táxi é finalmente encontrado na Ponte da Marateca, em Setúbal, quando estava a voltar ao Algarve. O motorista é levado para Lisboa para ser ouvido na sede da Direção Central de Combate ao Banditismo. Só há um problema: o suspeito já não estava dentro do carro. É a primeira grande pista para chegar ao assassino. Tudo o que o taxista diz bate certo com a investigação. Explica aos agentes da Judiciária que costuma trabalhar na zona de Albufeira e que foi de lá que veio esta manhã. Por volta das 10h15, recebeu um pedido de serviço para o hotel da aldeia, que fica a cerca de 1 km do hotel Monte Choro. A pé, o trajeto demora menos de 20 minutos. Foi já no lobby do hotel que a recepcionista o apresentou a um homem árabe que queria ir para Lisboa. Levava apenas uma mala tipo James Bond e um pequeno saco. Durante a viagem tiveram tempo para conversar. O passageiro misterioso falava mal inglês, mas contou-lhe que era cidadão britânico. Depois de arrancarem, disse que preferia ouvir música em vez de rádio. Ao longo do caminho, ele próprio foi escolhendo e pondo as cassetes do taxista a tocar E assim garantiu também que o motorista não ouvia uma única notícia sobre o homem que tinha assassinado Issam Sartawi naquela manhã em Albufeira e estava em fuga. A meio da viagem, param nas bombas de gasolina da aldeia de Palheiros, perto de Ourique. O taxista bebe café e um conhaque. O passageiro, café e um Compal. E no fim, é ele quem paga a conta. À chegada a Lisboa, o estrangeiro volta a puxar da carteira. O preço tinha sido combinado ainda no Algarve. Entrega duas notas de cinco contos ao taxista, que lhe devolve mil escudos de troco. Despedem-se na Avenida da Liberdade, mais ou menos em frente ao Teatro Tivoli. E depois, segue a pé. No Marquês de Pombal, há uma série de hotéis. O objetivo do suposto cidadão inglês seria instalar-se num deles. Em qual é que o taxista já não sabe dizer. Para os agentes da PJ, não é um problema. Já é um avanço enorme na investigação. Seja em que edifício for, está identificada a zona para onde fugiu o principal suspeito de assassinar Issam Sartawi. E deste hotel, o homem não vai conseguir escapar. Mas essa é uma história pro próximo episódio. No próximo episódio: o par de óculos partido é apresentado na imprensa como um grande desenvolvimento do caso, uma possível pista do caminho seguido pelo assassino durante a fuga. Os jornais falam também na descoberta de um bigode postiço usado, mas o pormenor nunca chega a ser mencionado em qualquer relatório, nem por nenhuma testemunha. Já pouca gente acredita que a arma possa vir a ser encontrada. Mas é nesta altura que o jornalista Ramiro Santos faz uma descoberta crucial. "1983: Portugal à Queima Roupa" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Vitória Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. O guião e as entrevistas são de Vasco Maldonado Correia. A sonoplastia e o desenho de som são de Pedro Oliveira. O design gráfico é de Miguel Ferraz o Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.

Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.