Locarno tem um programa aliciante em 2025 e pelo menos um punhado de cineastas em competição para seguir com atenção máxima, autores por inteiro que já nada têm a provar. O caso de Radu Jude é particular porque o endiabrado cineasta romeno detesta repetir-se. Ele costuma dizer que Andy Warhol encorajou-o a permitir-se ser um cineasta mal comportado. Do seu novo Dracula, que cruza aquele mito com a inteligência artificial, não se espera menos do que um filme de sketches, corrosivo, contra tudo e contra todos. Uma máquina de guerra.
Foi muito notada a presença a concurso do franco-tunisino Abdellatif Kechiche com Mektoub, My Love: Canto Due, filme que conclui uma trilogia, sucedendo a Mektoub, My Love: Canto Uno, 2017, e a Mektoub, My Love: Intermezzo, que nunca mais voltou a ser exibido desde Cannes 2019. Vencedor de uma Palma de Ouro (A Vida de Adèle) e habituado a outros palcos, Kechiche chega ao festival em busca de uma reparação: que este Canto Due traga em Locarno uma porta de saída para o cineasta após década difícil a nível profissional e privado. Ao assunto se voltará noutra crónica.
With Hasan in Gaza, de Kamal Aljafari, é o novo trabalho do cineasta palestiniano já homenageado em Portugal pelo IndieLisboa. Mare’s Nest, de Ben Rivers, uma viagem poética pelas ansiedades da infância. O cinema singular do georgiano Aleksandre Koberidze será testado no novo Dry Leaf depois da surpresa de O Que Vemos Quando Olhamos Para o Céu?, por cá estreado em 2021. Do suíço Fabrice Aragno (chama-se Le lac o novo trabalho do ex-assistente de Jean-Luc Godard) à “repescagem” da nova obra da também japonesa Naomi Kawase, Yakushima’s Illusion (com Vicky Krieps no elenco), entrada na competição tardiamente anunciada pelo festival, passando por Tales of the Wounded Land, do iraquiano Abbas Fahdel, desenha-se em Locarno um programa promissor.
▲ Alison Brie e Dave Franco em “Together – Juntos”, de Michael Shanks
A estes se juntam Two Seasons, Two Strangers, do também japonês Shô Miyake; God Will Not Help, da croata Hana Jušić; Donkey Days, da neerlandesa Rosanne Pel; Le Bambine, das italianas Valentina e Nicole Bertani; Desire Lines, do sérvio Dane Komljen, Phantoms of July, do alemão Julian Radlmaier; Solomamma, da norueguesa Janicke Askevold; Sorella di Clausura, da sérvia Ivana Mladenovic; e White Snail, da dupla austríaca Elsa Kremser e Levin Peter.
A franco-portuguesa Maureen Fazendeiro representará Portugal na competição pelo Leopardo de Ouro com As Estações, rodado no Alentejo. Já Nova’78, documentário co-assinado por Rodrigo Areias e Aaron Brookner a partir de footage inédito com William S. Burroughs, será exibido fora de concurso.
Mas Locarno está bem longe de se ficar pela fortaleza de um cinema de autor que começa a deixar de reconhecer-se nas exigências e nos ditâmes de gosto de Cannes e Veneza. Radu Jude, de resto, é um bom exemplo disso: no último FID Marseille — que fez a mais completa retrospectiva da sua obra até à data — o romeno admitiu que, desta vez, não submeteu sequer Dracula ao juízo dos comités de selecção de Cannes (que antes recusaram obras suas), preferindo aguardar por uma selecção para a competição de Locarno. Recorde-se que Jude, em Fevereiro, recebeu em Berlim um prémio de Melhor Argumento pelo seu filme anterior, Kontinental ’25, um tratado de escárnio que toca em questões que estão na ordem do dia tanto na Roménia como na generalidade dos países europeus: o nacionalismo, a imigração, a escalada da extrema-direita, em particular na Europa de Leste ex-comunista.
▲ “A Diary for Timothy” (1945), de Humphrey Jennings
Assim, nos primeiros serões de cinema da Piazza Grande, Locarno exibirá The Birthday Party (quinta-feira), co-produção europeia realizada pelo espanhol Miguel Ángel Jiménez, com Willem Dafoe na cabeça do cartaz, na pele de um magnata grego da marinha mercante inspirado em Onassis. Na sexta-feira, também em estreia mundial, passará The Dead Of Winter, policial filmado pelo irlandês Brian Kirk no Minnesota, com Emma Thompson a liderar o elenco (a britânica receberá um prémio de homenagem). E no sábado, a Piazza receberá Together – Juntos, o body horror de Michael Shanks que acaba de estrear-se nos Estados Unidos, com distribuição da Neon (teve a estreia mundial em Sundance), e protagonizado por Dave Franco e Alison Brie, que, na realidade, são marido e mulher. Stephen King veio recentemente a público tecer elogios ao filme nas redes sociais. Em Portugal, estreia-se dentro de dias, a 14 deste mês. Todos eles são filmes atractivos para um público generalista. O filme de abertura deste ano é franco-armeniano, Le Pays d’Arto, de Tamara Stepanyan. É a história de uma mulher que chega à Arménia para legalizar a morte do marido, daquela origem, descobrindo que este lhe mentiu: combateu na guerra, roubou outra identidade e é considerado um desertor.
Locarno 2025 vai ser também um festival de homenagens: a Jackie Chan, que receberá o Leopardo de Ouro à Carreira; a Alexander Payne, que receberá um Leopardo de Honra e falará da sua obra antes de partir, no fim do mês, para o Festival de Veneza, onde presidirá ao júri. Além disso, Locarno será este ano britânica acima de tudo, pela grande retrospectiva ao cinema do pós-guerra que este ano foi preparada: Great Expectations: British Postwar Cinema (1945-1960). Não é seguramente por acaso que o programa começa com A Diary for Timothy (1945), de Humphrey Jennings, que guarda intacta toda a sua força. É um filme de esperança no futuro após a catástrofe da guerra. A partir daí segue-se um rol de obras de cineastas de inegável importância como Michael Powell e Emeric Pressburger, Carol Reed, Alexander Mackendrick, David Lean ou J. Lee Thompson, todos eles habituados a um cinema de estúdio, filmes de artistas menos conhecidos como Seth Holt ou Lance Comfort, sem esquecer o papel significativo que as mulheres desempenharam naquele período, em filmes realizados por Muriel Box, Wendy Toye, Margaret Tait e Jill Craigie.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia