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Maureen Fazendeiro e Rodrigo Areias em Locarno

Este artigo tem mais de 1 ano

A longa-metragem “As Estações” concorre pelo Leopardo de Ouro ao lado de Abdellatif Kechiche, Radu Jude, Ben Rivers e Alexandre Koberidze, já o documentário “Nova'78” será exibido fora de concurso.

A Piazza Grande de Locarno
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▲A Piazza Grande de Locarno

Locarno Film Festival / Ti-Press

▲A Piazza Grande de Locarno

Locarno Film Festival / Ti-Press

Do cantão suíço do Ticino chegam novamente óptimas notícias para o cinema português: As Estações, nova longa-metragem da cineasta luso-francesa Maureen Fazendeiro, representará o nosso país no concurso pelo Leopardo de Ouro de Locarno 2025, confirmou o festival helvético na manhã desta terça-feira, em Zurique. A 78.ª edição, que contará com Rithy Panh na presidência do júri, irá decorrer entre 6 e 16 de agosto.

Descrito como “uma reflexão poética sobre a história de Portugal” por Giona A. Nazzaro, director artístico de Locarno, As Estações, rodado no Alentejo, combina depoimentos de trabalhadores rurais e notas de campo de um casal de arqueólogos, imagens de arquivo amador e desenhos científicos, lendas, poemas e canções, “numa viagem pela história real e inventada de uma região de Portugal, o Alentejo, e dos povos que ali viveram”, conta o comunicado que chegou à imprensa. A produção é da O Som e a Fúria.

▲ “As Estações”, de Maureen Fazendeiro

As Estações é um “filme de arqueologia”, assim o descreve a cineasta, “escava a paisagem, as vozes e os gestos dos habitantes do Alentejo para encontrar os vestígios de uma história comum, feita de guerras e revoluções, medo e resistência, permanência e metamorfoses.” É o segundo trabalho de Maureen Fazendeiro a ver a luz do dia este ano, depois da estreia mundial, em março, da curta-metragem Les habitants, no Cinéma du Réel. O filme anterior de Maureen, coassinado com Miguel Gomes, foi Diários de Otsoga (2021). Antes deste, a cineasta realizou a média-metragem de documentário Motu Maeva (2014) e a curta Sol Negro (2019).

As Estações concorre igualmente ao Pardo Verde, um novo prémio, de cariz ecológico, lançado este ano pelo festival e que distinguirá (com uns generosos 20 mil francos) a melhor das “visões ligadas a uma nova concepção da humanidade no planeta Terra.”

Maureen Fazendeiro terá augusta companhia na competição do festival suíço. Salta à vista a presença no concurso do franco-tunisino Abdellatif Kechiche com Mektoub, My Love: Canto Due, escolha de programação delicada dada a controvérsia que se abateu nos últimos anos sobre o cineasta e a conduta do seu trabalho. Este Canto Due, há muito aguardado, conclui uma trilogia, sucedendo a Mektoub, My Love: Canto Uno (2017) e a Mektoub, My Love: Intermezzo, filme maldito para Kechiche: estreado em Cannes 2019, com 3h30 de duração, nunca mais foi exibido desde então (não chegou sequer ao circuito comercial em França) em virtude de um processo legal complexo, a propósito de uma cena particular de sexo explícito. Além disso, a companhia de produção do cineasta foi declarada insolvente. Tudo isto levou a que a estreia de Canto Due, que se julga ter sido rodado igualmente em 2019, fosse adiada até ao surpreendente anúncio desta manhã.

Também no concurso está Radu Jude com uma versão radical de um mito caro aos romenos: Dracula promete ser outro filme desbussolado, uma comédia louca que recorre, entre outras coisas, a imagens geradas pela inteligência artificial.

▲ Maureen Fazendeiro: “É um filme de arqueologia, escava a paisagem, as vozes e os gestos dos habitantes do Alentejo para encontrar os vestígios de uma história comum”

Marianne Andrea Borowiec

Mare’s Nest, do britânico Ben Rivers, Tales of the Wounded Land, que prolonga o olhar do iraquiano Abbas Fahdel sobre o sul do Líbano iniciado anteriormente, e With Hasan in Gaza, de Kamal Aljafari, cineasta palestiniano já homenageado em Portugal pelo IndieLisboa e pela Cinemateca Portuguesa, estão também na corrida ao Leopardo de Ouro, assim como o suíço Fabrice Aragno (chama-se Le lac o novo trabalho do ex-assistente de Jean-Luc Godard), o japonês Sho Miyake (Two Seasons, Two Strangers) e o georgiano Alexandre Koberidze, que realizou Dry Leaf, um filme que, segundo Nazzaro, está “entre Antonioni e Otar Iosselliani”.

Há quatro anos, Koberidze espantou Berlim com um filme romântico, enfeitiçado pelo tempo, em estado de graça, O Que Vemos Quando Olhamos Para o Céu?. À época, o realizador georgiano citou o cinema de Miguel Gomes como uma das suas fontes de inspiração e o português, que também gostou do que viu do primeiro, devolveu-lhe a saudação. Pois bem: encontrar-se-ão este ano em Locarno num diálogo que, a confirmar-se, será aberto ao público.

O concurso de Locarno, composto por 17 obras em estreia mundial, completa-se com God Will Not Help, da croata Hana Jušić; Donkey Days, da neerlandesa Rosanne Pel; Le Bambine, das italianas Valentina e Nicole Bertani; Desire Lines, do sérvio Dane Komljen, Phantoms of July, do alemão Julian Radlmaier; Solomamma, da norueguesa Janicke Askevold; Sorella di Clausura, da sérvia Ivana Mladenovic; e White Snail, da dupla austríaca Elsa Kremser e Levin Peter.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 8.º e último episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui, o quinto aqui, o sexto aqui e o sétimo aqui]

“Nova’78”: Rodrigo Areias fez um filme a partir de footage inédito com William S. Burroughs

A outra longa-metragem portuguesa de Locarno, Nova’78, co-assinada por Rodrigo Areias e o americano-britânico Aaron Brookner, é um documentário que utiliza em exclusivo imagens e sons em torno da Nova Convention que aconteceu em Nova Iorque, em 1978, para celebrar a obra (e o então regresso a Manhattan) de William S. Burroughs. Howard Brookner (tio de Aaron), autor, entre outros, do mítico Burroughs: The Movie (1982), acumulou imenso material de arquivo do escritor dada a proximidade que tinha dele. Incluindo o que aconteceu nos 3 dias que a Nova Convention durou, entre 30 de Novembro e 2 de Dezembro de 1978, um ensemble de palestras, concertos e performances à volta de Burroughs e do estado do mundo de então.

▲ William S. Burroughs em “Nova'78”, de Rodrigo Areias e Aaron Brookner

Foi um acontecimento raro, resultado da reunião de esforços de uma constelação extraordinária de artistas onde estavam John Giorno, Patti Smith, Philip Glass, Frank Zappa, Ed Sanders, John Cage, Anne Waldman, Laurie Anderson, Allen Ginsberg, entre outros. Rodrigo Areias foi convidado pelos detentores deste espólio fabuloso a realizar um filme (que julgou conveniente co-assinar com Aaron), só a partir de arquivos, “que são uma coisa muito punk, tudo filmado em 16mm, com o Jim Jarmusch a bater umas claquetes, era o responsável pela gravação de som”, contou Areias via telefone ao Observador. ““Parte deste material, imagens e sons do Burroughs com o filho, por exemplo, nunca foram vistos, foram sincronizados pela primeira vez por nós em Guimarães. Resisti à tentação de entrevistar uma série de pessoas que ainda estão vivas. Por muito boas que essas entrevistas fossem, iriam diminuir a intensidade que os arquivos têm.”

Nas sessões ao ar livre da Piazza Grande, Locarno reserva alguns trunfos para as dez mil almas que ali ocorrem todas as noites. É o caso de The Birthday Party, de Miguel Ángel Jiménez, com Willem Dafoe no papel principal, The Dead of Winter, de Brian Kirk, com Emma Thompson ou do italiano Testa o croce? (exibido em Cannes), da dupla Alessio Rigo de Righi e Matteo Zoppis, incursão pelo western com um inolvidável John C. Reilly na pele de Buffalo Bill. Além disso, Locarno repesca para a Piazza Grande três dos filmes mais badalados de Cannes: a Palma de Ouro Un simple accident, de Jafar Panahi, La petite dernière, de Hafsia Herzi e Sentimental Value, do norueguês Joachim Trier.

▲ Rodrigo Areias: “Resisti à tentação de entrevistar uma série de pessoas que ainda estão vivas. Por muito boas que essas entrevistas fossem, iriam dimuir a intensidade que os arquivos têm”

Dando continuidade a uma linha de programação que tem sabido homenagear talentos do cinema tão óbvios que já ninguém é capaz de se lembrar deles, Locarno entrega este ano um Leopardo de Ouro à carreira à super-estrela asiática Jackie Chan, intérprete, produtor, argumentista, duplo e, também, recorde-se, cineasta de inúmeros thrillers e comédias com kung-fu, tanto na Ásia como em Hollywood. É ele o autor de clássicos como O Incorruptível (1985) e O Guerreiro de Deus (1986). Giona A. Nazarro, diretor artístico do festival, sublinhou que é ele o Buster Keaton dos nossos tempos.

Ator-prodígio habituado às câmaras desde os 9 anos de idade, a grande vedeta de Hong Kong, de 71 anos, está no cinema desde o início da década de 60. Após o desaparecimento de Bruce Lee, foi o maior ativo do Orange Sky Golden Harvest, o lendário estúdio de cinema de Hong Kong, nos anos 70 e 80 e, na década seguinte, o grande herói de ação do cinema asiático, a sua estrela mais bem remunerada, também a figura carismática que, no grande ecrã, mais aproximou o continente asiático do Ocidente.

▲ Jackie Chan receberá um Leopardo de Ouro à Carreira

Alexander Payne será igualmente agraciado com um Leopardo de Honra à carreira e participará num encontro com o público em torno da sua obra, da qual fazem parte filmes como About Schmidt (2002), Sideways (2004), Nebraska (2013) ou o mais recente (e notável) Os Excluídos (2023). É muito provável que Payne permaneça uma boa parte deste verão na Europa, sem regressar aos Estados Unidos: pouco depois da conclusão de Locarno, a partir de 27 de Agosto, apresentar-se-á no Lido, em Veneza, já que preside ao júri do festival italiano.

A retrospetiva de Locarno 2025 (que também é célebre pela qualidade e abundância dos seus ciclos paralelos) é dedicada ao cinema britânico do pós-guerra. O ciclo Great Expectations: British Postwar Cinema (1945-1960) exibirá 40 longas-metragens, em parte restauradas, no igualmente mítico Cinema Rex da cidade suíça.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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