Mal acabado de chegar a Locarno, já o escriba se descobria à mesa com Willem Dafoe. Foi capricho de datas e de horários de chegada, o norte-americano veio ao Ticino tratar da promoção de um filme um tanto bisonho — mas que em nada o envergonha — The Birthday Party, realiza o espanhol Miguel Ángel Jiménez. Não nos perguntem quem é Jiménez, não é cineasta que se tenha no radar. Provavelmente, nem isso tem grande importância. Contudo, todos lhe devem estar gratos por ter escolhido Dafoe para o papel. Que o diga o Festival de Locarno.
Dafoe, que dispensa apresentações, não nasceu para fazer de rico nos ecrãs. Não é a sua praia (nem a sua origem). Ainda assim, não se safou nada mal quando Yorgos Lanthimos lhe pediu para encarnar aquele empresário sádico e maníaco do primeiro episódio de Pobres Criaturas, que ficou muito longe de ser um bom filme. Se se pensar bem, Dafoe até tem no currículo um ou outro rico e poderoso, mas pelos dedos de uma mão se contam. E nenhum foi seguramente tão abastado como Markos Timoleon, um magnata grego do campo da marinha mercante que se prepara para dar uma festa extravagante na sua ilha privada em homenagem à filha, que cumpre 25 anos. É um homem amargo, magoado pela perda de um filho, incapaz de aceitar que há no mundo quem não queira submeter-se à sua vontade. À sua maneira, outra “pobre criatura”, mas com um certo charme.
▲ Dafoe em Locarno: “Dramaticamente, os ricos não prestam para grande coisa”
Samuel Golay
Como é que se envolveu nesta “festa de anos”?
Essa é de resposta fácil. Atuei num filme chamado Inside [2023] produzido pelo grego Giorgos Karnavas, que eu acho um óptimo profissional, um tipo que dá tudo o que tem para resolver problemas. O realizador de Inside também é grego, já agora: Vasilis Katsoupis. E o filme exigiu muito de mim no papel principal. Foi durante a rodagem que Giorgos me falou do romance que deu origem a The Birthday Party, também escrito por um grego, Panos Karnezis. Com o tempo ele começou a pensar em mim para o papel e falou-me então de Miguel Ángel Jiménez, um realizador low profile que ninguém conhece. Mas eu vi um filme dele que me agradou, chamado Chaika. Esta combinação de improbabilidades, acrescida de uma rodagem na Grécia [em Corfu], país que me agrada, fez-me aceitar o projecto.
Dir-se-ia que não era papel para si.
É verdade, estas histórias de família com as suas dinâmicas psicológicas e os seus jogos de poder não são aquilo que mais gosto no cinema. E este tipo de personagens não é o meu prato favorito. Não vivo naquele mundo. Sou um homem privilegiado, atenção, não lhe vou dizer que venho da classe operária. Mas não me relaciono com aquele estatuto social. Sinto-me repelido por ele, até. Cresci de forma simples, muito classe média. Ou abaixo dela. Quando me mudei do Wisconsin para Nova Iorque e comecei a trabalhar no teatro, no Wooster Group [companhia de teatro avant-garde da qual ele é co-fundador], não tinha quase nada.
A maior parte da gente rica é muito pobre porque só pensa em dinheiro. Dramaticamente, os ricos não prestam para grande coisa. Pouco se aproveita deles. Mas esta personagem presta. A ideia de reunir numa atmosfera festiva todos aqueles que dependem dele e obedecem ao seu poder é uma coisa que vem muito do sabor do nosso tempo, embora o filme se passe nos anos 70.
Mais do que triste, esta história é amarga e ressentida, e a sua personagem um vilão vulnerável.
Ele usa a esperteza e o dinheiro como uma capa, para se esconder, mas no fundo é um homem com medo. O que é trágico nele é o facto de julgar que está sempre a fazer as coisas certas. Ele ama a filha, mas tem que dominá-la em simultâneo, e de uma forma muito negativa. Aos olhos dele, faz o que julga que deve ser feito.
Tinha alguma figura em mente a servir de inspiração?
Há aspectos que o autor do filme parece ter roubado claramente da vida de Onassis, como a morte do seu único filho num acidente. Mas durante o filme nunca falámos dele. Foi mais uma referência ao nível de comportamentos de uma certa época que uma influência para a personagem.
▲ O actor em “The Birthday Party”, em estreia esta quinta-feira, na Piazza Grande
Por amor a uma italiana [a realizadora e atriz Giada Colagrande], trocou há 20 anos Nova Iorque por Roma. Já se sente europeu?
O que sinto é que cada vez mais vivo fora da indústria do cinema americano e que isso me torna mais disponível para este tipo de filmes como The Birthday Party. Nem toda a gente sabe que eu comecei no teatro. Ainda faço teatro, aliás. Fui nomeado diretor artístico do departamento de teatro da Biennale de Veneza para as edições deste ano e do próximo. Aqui em Locarno ninguém me fala disso, por exemplo. São dois mundos separados.
É vizinho de Abel Ferrara em Itália, já fizeram vários filmes juntos, mas não ultimamente. O que se passa?
Tenho estado muito ocupado e o Abel é impaciente, tem que fazer as coisas ao seu ritmo, nem sempre é fácil acompanhá-lo. Sabe que ele escreveu um livro sobre a sua vida? Vai sair nos Estados Unidos este Outubro.
Na última vez que falámos, elogiou muito o trabalho e a criatividade de Yorgos Lanthimos. Ele tem um filme pronto para Veneza, Bugonia, mas você não entra neste. Por algum motivo?
Ah, mas segui-o de perto, ele pôs-me a par da história. E simplesmente não há ali nada que eu possa fazer. Às vezes vejo filmes de pessoas que admiro e fico a cismar, “bolas, porque é que ele nem sequer me ligou…” Não foi este o caso. Você verá: não há lugar para mim em Bugonia.
E no entanto vai estar em Veneza com dois outros filmes. Que me pode dizer sobre The Souffleur, do argentino Gastón Solnicki, fotografado pelo português Rui Poças?
Conheci Gastón num período em que vivi em Buenos Aires mas só voltámos a ver-nos graças ao retiro Oxbelly, um encontro de artistas, sem fins lucrativos, promovido na Costa Navarino pelo produtor grego Christos V. Konstantakopoulos. Ele tem um resort de família naquela zona e convida gente criativa para trocar ideias. O Paul Thomas Anderson e a Jane Campion já passaram por lá. Quando lá fui, estive no mesmo grupo de mentores do Gastón, foi então que ele me falou da história de um empresário americano que gere há 30 anos o mesmo hotel de Viena, célebre pela receita do seu soufflé. Nisto, ele descobre que o edifício do hotel vai ser vendido e demolido. E tenta inverter essa situação. É uma história muito ligada a Viena.
O outro filme que terei em Veneza chama-se Late Fame, vem de uma novela escrita por Arthur Schnitzler que só foi descoberta muito recentemente, há cerca de dez anos, num monte de papéis. A história original passa-se também em Viena – há coincidências assim – embora o filme a tenha transposto para Nova Iorque. O que é engraçado é que eu próprio quis, a uma certa altura, realizar esta história. Mais tarde encontro Kent Jones [crítico, programador e realizador nova-iorquino], que me diz ter adquirido os direitos da história. E sem nada saber do meu desejo, ele convida-me para fazer o papel principal. Outra coincidência extraordinária! Tal como The Souffleur, também é um filme pequeno, e muito especial. Acho que capta certas atmosferas que estão a ser hoje muito sentidas em Nova Iorque.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
[Um jovem polícia é surpreendido ao terceiro dia de trabalho: a embaixada da Turquia está sob ataque terrorista. E a primeira vítima é ele. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o terceiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E ouça o primeiro episódio aqui e o segundo aqui]