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Há muitos hotéis na Praça do Marquês de Pombal, em Lisboa, e num deles está escondido o assassino de Issam Sartawi. Foi aqui que um taxista de Albufeira deixou o principal suspeito do homicídio cometido há apenas algumas horas e que foi notícia no mundo inteiro. Dois polícias são enviados ao Hotel Fénix, um dos únicos com entrada direta pela praça. Sem um retrato exato do homem que procuram, sabem apenas que têm de encontrar um jovem moreno, de aspecto árabe e cabelo preto. Na recepção, o funcionário de serviço não tem dúvidas. Só há um hóspede com essas características no hotel. Um marroquino que está no quarto 507. O recepcionista leva os dois agentes ao quarto. Não há resposta. O empregado abre a porta. Não está ninguém. Não é um problema. Ainda lá está a bagagem, o que significa que mais cedo ou mais tarde, o hóspede vai acabar por voltar. Podem esperar o tempo que for preciso. Mas afinal, vai ser tudo muito mais rápido. Um outro empregado vem dar o aviso. O homem que procuram está sentado no bar do hotel. As autoridades portuguesas podem ter falhado ao não conseguir evitar o assassinato de Issam Sartawi, mas a reação da polícia foi imediata. Em pouco mais de cinco horas, o paradeiro do suspeito foi descoberto. E num sítio improvável. Um hotel no centro de Lisboa, a 250 km de distância do local do crime. O que não significa que o caso esteja resolvido. Muito em breve, a polícia vai perceber que aquele homem não é quem diz ser. "1983: Portugal à Queima Roupa" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos podcast plus do Observador. É narrada por mim, Vitória Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Episódio dois: o terrorista do quarto 507.
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Os agentes correm para o bar do Hotel Fénix. Sozinho, sentado ao balcão, está exatamente o homem que procuravam. Moreno, de origem árabe, cabelo preto e magro. Não pode ter mais do que 30 anos. Pedem que os acompanhe até ao quarto para que o possam revistar. O homem aceita sem resistir. No 507, encontram um saco preto em napa e o que descrevem como uma pasta tipo James Bond, onde há várias notas em dinheiro português, mas também norte-americano e iraquiano. Entre a roupa que apreendem, um artigo salta à vista. Um blusão em pele de antílope. O mesmo tipo de casaco que, de acordo com uma das testemunhas em Albufeira, o atirador estaria a usar quando fugiu do Hotel Monte Choro. O taxista que o transportou para Lisboa identifica-o sem qualquer hesitação. As autoridades não têm de procurar mais. Só pode ser este o assassino de Issam Sartawi. Mas há ainda muitas dúvidas. O homem tem um passaporte emitido em Casablanca e uma carta de condução, ambas com o mesmo nome, Youssef Alawad. Só que o relatório dos dois agentes que o prenderam deixa uma nota importante. O dinheiro que encontraram parece ser falso e os documentos de identificação do suspeito, também. O que provoca uma dúvida: afinal, quem é aquele homem que acabaram de levar, sem grandes preocupações de segurança, para o comando da PSP em Lisboa? Poucas horas depois, as autoridades portuguesas são surpreendidas. Percebem que o homem que prenderam não é apenas um assassino. É um perigoso terrorista internacional. Naquela mesma noite, a organização Abu Nidal reivindica o atentado em Montechoro. É uma facção radical dentro do movimento de libertação da Palestina. O comunicado diz que o grupo terrorista decretou a morte de Sartawi, por ele ter feito uma tentativa de diálogo com Israel e o Ocidente, recorda Tessa Szyszkowitz, autora da biografia de Sartawi. Poucas horas depois do assassinato de Issam Sartawi, eles fizeram uma declaração em Damasco. Estavam sentados e disseram: "O Comitê Revolucionário da Fatah, o FRC, tem o prazer de anunciar às massas árabes, ao povo palestiniano, dentro e fora da Palestina, aos militantes e ao povo livre em todo mundo, que a pena de morte contra o criminoso traidor Sartawi, que era um agente da Mossad, da CIA e dos serviços secretos britânicos, foi executada com sucesso". Foi isso que eles anunciaram. Comitê Revolucionário da Fatah. É apenas um dos muitos nomes pelo qual é conhecido o grupo fundado por Abu Nidal, um dos homens mais temidos no Médio Oriente na segunda metade do século XX. Sabri Khalil Al-Banna, o nome verdadeiro, nasceu em Jafa, na Palestina, e foi lá que acabou por se radicalizar, explica o jornalista Miguel Almeida Fernandes.
O Abu Nidal era uma rutura radical da OLP. Era um homem que nasceu na Palestina, filho duma família abastada e quando, a seguir à guerra, se resolveu dar a Israel uma série de terrenos, a casa dele foi ocupada e ele perdeu a propriedade e a casa. E isso explica o radicalismo dele. Ele depois entrou nos quadros da OLP e depois, por volta de um ano antes ou dois, afastou-se da Arafat porque não o considerava suficientemente duro contra o Ocidente.
Abu Nidal significa pai da luta, e foi adotado pelo líder terrorista como nome de guerra, tanto para ele próprio, como pra fação que ele passou a liderar nos anos 70. Era um mote de vingança contra o inimigo sionista. Por motivos políticos, Issam Sartawi era um alvo a abater. Não era admissível ver um membro da OLP sugerir publicamente o reconhecimento do Estado de Israel. Mas o afastamento em relação a Sartawi já era antigo, garante Tessa Szyszkowitz.
Os dois conheciam-se muito bem, como é óbvio. Sartawi, a mulher de Issam, a viúva, contou-me como as famílias eram grandes amigas quando viviam em Bagdá no início dos anos 70. No final dos anos 60, já se conheciam bem, mas Abu Nidal endureceu e Issam Sartawi tornou-se mais brando. Por isso, a certa altura, separaram-se e deixaram de se falar.
Abu Nidal tornou-se líder de um grupo de mercenários. A organização recruta jovens nascidos ou criados nos campos de refugiados na Palestina e no Líbano, e promete-lhes uma vida melhor, em troca de lealdade incondicional. O líder aponta o alvo e os membros atiram. Desta vez, o alvo foi Issam Sartawi. Para o antigo ministro da Administração Interna, Ângelo Correia, a morte do dirigente palestiniano é um símbolo da tensão entre radicais e moderados, que marca o conflito israelo-palestiniano.
Quando acontece a aproximação entre moderados de um lado e do outro, pra estabelecerem qualquer acordo de paz, surgem imediatamente os radicais, também de um lado e do outro, porque esperem. A questão que se pode colocar aqui é: foram os radicais da área árabe que atuaram para matar Sartawi, que era o moderado. Quando há uma tensão entre duas áreas e as pessoas mais moderadas que têm sentimentos de possibilidade de articulação entre uns e outros, começam a negociar, os mais radicais de ambos os lados acabam com isso. Abu Nidal acabou com a capacidade e possibilidade da OLP ter uma negociação possível com o mundo judaico.
Um sinal da eficácia da mensagem de Abu Nidal é a primeira consequência direta do atentado. Até este dia, Yasser Arafat tem estado em negociações com o rei Hussein da Jordânia pra tentar que o país se torne um mediador nas conversas com Israel. Horas depois da morte de Sartawi, o líder da OLP é informado que a Jordânia já não está interessada no acordo. O New York Times escreve que Arafat recebeu a notícia com alívio. Todos percebem que é cada vez mais perigoso falar em paz. Segunda-feira, dia 11/04/1983. O suspeito da morte de Sartawi está detido em Lisboa. Ainda não falou, mas agora a polícia sabe que está na presença de um terrorista internacional. Um dia depois do atentado, é ouvido pela primeira vez por um inspetor da Polícia Judiciária, com a ajuda de um intérprete. Explica que chegou a Portugal de autocarro, vindo de Madrid, por causa da greve de comboios, e garante que está no país pra fazer turismo, mas não marcou nenhum hotel. À chegada a Lisboa, escolheu o Hotel Fénix quando passou por ele na rua. Jura que não esteve em Albufeira, mas sim em Faro, onde chegou no sábado e de onde voltou no domingo. O inspetor quer saber o que o levou a fazer uma viagem tão repentina. A resposta é caricata. Alaouade diz que procurava um clima mais ameno. Gosta muito de nadar e em Lisboa estava frio. Estudou o mapa e escolheu Faro pela localização junto ao mar. Diz que não se lembra do nome do hotel em que ficou no Algarve e que nem chegou a conhecer a cidade ou a nadar. Passou a noite a ver televisão no quarto. Explica que achava que Faro era uma grande cidade, mas um funcionário do hotel disse-lhe que não. Por isso decidiu regressar a Lisboa na manhã seguinte. O inspetor desconfia da passagem relâmpago do suspeito pelo Algarve e da mudança no meio do transporte. Até aí, tinha se deslocado sempre de autocarro, mas pra voltar pra Lisboa, apanha um táxi, uma alternativa bastante mais cara. Durante o interrogatório, Alaouade garante também que não se apercebeu de qualquer acontecimento importante ocorrido no país nos últimos dias, até porque não fala português. Conta que é comerciante, vende e compra eletrodomésticos em vários países. Ultimamente, tem trabalhado no Kuwait, pra onde quer voltar assim que as autoridades o libertem. As explicações não convencem o inspetor. No relatório, descreve Alaouade como uma pessoa extremamente invulgar. E não falta muito pra confirmar que tudo o que este homem está a dizer é mentira. O telegrama vem classificado como muito urgente. Chega à mesa do diretor adjunto do combate ao banditismo da PJ e foi escrito à mão pelo responsável nacional da Interpol. As suspeitas confirmam-se. Não existe nenhum Youssef Alaouade. O passaporte é falso. A entidade e a morada fornecidas pelo homem são puramente fantasiosas. Praticamente ao mesmo tempo, chega um relatório de análise aos documentos entregues pelo detido, feito pela Embaixada de Marrocos. O passaporte não só é falso, como apresenta irregularidades óbvias pra qualquer autoridade. Primeiro, porque é marroquino. O nome Youssef escreve-se Youssef. O local de nascimento aparece como a cidade de Fas, denominação inglesa pra cidade de Fez. Se o passaporte fosse autêntico, estaria escrito em francês ou árabe. E a profissão, negociante, não está traduzida da maneira certa. Além disso, o passaporte tem um visto pra entrada no Iraque, o que não é necessário pra cidadãos marroquinos. Notam-se também carimbos falsos e o preço registrado pra emissão do passaporte está desatualizado. O trabalho de falsificação parece digno de um amador, mas as autoridades concluem que o homem faz parte de uma organização terrorista, muito provavelmente o grupo Abu Nidal, que já tinha reivindicado o atentado. E as provas que incriminam o suspeito não param de chegar. Nos exames médicos que faz na sede da PJ, são detectadas feridas recentes na perna direita, coincidentes com a queda do assassino na fuga do Hotel Monte Choro. A justificação de Alaouade não convence o inspetor. Diz que escorregou quando passeava por Lisboa. São também feitos exames à roupa que tinha guardada no quarto de hotel. Um dos pares de calças tem manchas de sangue e pequenos rasgões, próprios de uma queda. Falta-lhes descobrir aquela que poderia ser a prova decisiva do crime. Revistam-no, procuram nas malas e varrem todos os cantos do quarto, mas não conseguem encontrar a arma usada pelo assassino. Se a pistola não está em Lisboa, o assassino pode tê-la deixado no Algarve durante a fuga. São feitas várias buscas à volta do Hotel Monte Choro. Sem sucesso, recorda o jornalista Ramiro Sanos, que ficou em Albufeira a acompanhar a investigação.
A arma, ninguém sabia dela A polícia esvaziou um lago que havia no meio do jardim por onde ele tinha escapado, não encontrou a arma.
Tal como Ramiro Santos, vários outros jornalistas passam a deslocar-se todos os dias à zona do hotel para acompanharem o caso. E também eles decidem procurar a arma.
Os jornalistas, armados em detetives, começaram também a fazer as suas investigações e ao fundo do jardim encontramos primeiro uma haste de uns óculos e uma lente de uns óculos. Eu digo assim: "Alto lá, que isto aqui há qualquer coisa". E andámos assim uns dias.
O par de óculos partido é apresentado na imprensa como um grande desenvolvimento do caso, uma possível pista do caminho seguido pelo assassino durante a fuga. Os jornais falam também na descoberta de um bigode postiça usado, mas o pormenor nunca chega a ser mencionado em qualquer relatório, nem por nenhuma testemunha. Já pouca gente acredita que a arma possa vir a ser encontrada. Mas é nesta altura que o jornalista Ramiro Santos faz uma descoberta crucial.
Andámos um, dois dias ali curvados sobre a relva, sobre as sebes, que aquilo havia uma sebe, havia uma passagem entre a sebe e um posto elétrico, e quando eu me levantei, puxo um tronco de uma sebe a seca e quando puxo, a sebe cedeu e verifico que há uma arma escondida por baixo dessa sebe, embrulhada no tal pano de cozinha azul, lembro-me perfeitamente, molhado.
Nas mãos, Ramiro Santos segura a arma perdida e um segundo carregador, que estava cheio. Está embrulhada num pano molhado, com o objetivo de apagar as impressões digitais e o número de série está raspado. O grupo de jornalistas apressa-se a mostrar a descoberta a um inspetor da PJ, que estava no interior do hotel.
Eu chamei e disse: "Doutor, encontramos a arma".
A pistola é encontrada três dias depois do crime e por jornalistas. Inicialmente, o inspetor da PJ sente que algo não bate certo. Escreve uma informação de serviço dirigida ao diretor adjunto da judiciária, em que garante não querer levantar suspeitas, mas confessa ter algumas dúvidas em relação ao aparecimento da arma. Explica que já desde o primeiro dia a zona tinha sido várias vezes revistada sem qualquer descoberta. O inspetor estranha, por um lado, que um assassino treinado se tenha desfeito da pistola de maneira tão displicente e, por outro, que um homem em fuga tenha tido tempo para embrulhar a arma num pano molhado. E há ainda um pormenor importante: acha muito improvável que tanto tempo depois do crime, e numa zona seca, o pano continuasse encharcado. As dúvidas ficam registadas, mas a arma segue para laboratório para ser submetida a testes de balística. É uma Makarov de 9 milímetros, uma pistola semiautomática de fabrico polaco, à qual faltam quatro balas no carregador. No dia do atentado, a polícia recolheu precisamente quatro cápsulas do chão do hall de entrada do Hotel Monte Choro. Se ainda restassem dúvidas, um último exame trata de as resolver de vez. Há correspondência. Foi esta a arma usada para assassinar Issam Sartawi. Facto provado: Youssef Al-Awadi não é quem diz ser, embora não se tenha conseguido ainda apurar a verdadeira identidade dele. E todos os indícios até agora apontam para que tenha estado envolvido na morte de Issam Sartawi. Cerca de uma semana depois do assassinato, o suspeito volta a ser interrogado. E desta vez muda de estratégia. Admite tudo. Confessa que é o assassino. Confirma que foi ele quem planeou e executou o atentado a mando da organização Abu Nidal. Explica que no último congresso deste grupo em que esteve presente, Sartawi foi decretado traidor da causa palestiniana. Por isso, estava apenas a executar a sentença, tal como lhe tinha sido ordenado pelos superiores. Conta que se instalou no Hotel Aldeia no sábado, dia 9, e que nessa noite esteve no Hotel Monte Choro, a menos de um quilômetro de distância, para fazer o reconhecimento do local do crime e do trajeto de regresso. Diz que na manhã de domingo voltou ao hotel e esperou junto ao bar, na recepção, que o alvo aparecesse. Quando chegou o momento, alvejou Issam Sartawi e o secretário dele. Mas garante que só queria matar o primeiro. Acrescenta ainda que, na fuga, até teve a oportunidade de disparar sobre dois ou três polícias que o tentaram deter. Só não o fez, porque não tem nada contra os portugueses. Confirma o trajeto da fuga, a forma como escondeu a arma e a viagem de táxi até Lisboa. O jornalista Ramires Santos considera que a confissão era inevitável e descreve um homem preparado.
Ele tinha feito o reconhecimento do percurso e sabia perfeitamente onde ia esconder a arma. Aquilo não foi inocente, tanto que tinha lá o pano molhado. O pano molhado já tinha ficado lá. Foi estudado, ele fez o reconhecimento do trajeto, ele planeou, ele foi lá verificar o ambiente no hotel, sabendo onde é que encontraria o Issam Sartawi, o seu alvo a abater. Ele fez esse estudo nos dias anteriores.
Alaouade revela que é palestiniano e não marroquino. Assume ainda que o nome com que se tem apresentado é falso, mas recusa revelar a verdadeira identidade. E apresenta o motivo. Não quer que as notícias do que fez cheguem aos ouvidos da mãe. Depois da confissão, aceita continuar a colaborar. Está disponível pra fazer a reconstituição do crime. Acontece um mês depois, com uma larga comitiva. Estão presentes várias testemunhas do atentado, dois agentes da PSP e alguns funcionários do hotel. A acompanhar a equipa de investigação da Judiciária, está um juiz, um procurador e até um representante da Embaixada de Marrocos. Mesmo sendo já certo que o suspeito falsificou o passaporte. Alaouade tem ao lado o advogado e o intérprete pra poder comunicar. Ao longo da tarde, é o próprio suspeito quem guia o grupo. Mostra o canto do hotel onde esperou a chegada de Sartawi e indica exatamente o ponto da nuca em que o alvejou. A reconstituição funciona como um teatro. Alaouade tem uma arma falsa e faz dele próprio. Dois agentes da PSP desempenham o papel das vítimas, Issam Sartawi e o secretário. Lá fora, o suspeito identifica o sítio da rampa do hotel onde escorregou, mas garante que caiu de propósito pra baralhar quem o perseguia. Leva o grupo pelo caminho da fuga, já longe do hotel, e confirma o local exato onde escondeu a arma. Uns metros ao lado, explica que partiu os óculos de sol que levava e se desfez deles. Corresponde às hastes que foram encontradas pelos jornalistas. Acaba também por revelar um esconderijo onde parou pra fumar um cigarro e onde se escondeu durante cerca de meia hora pra despistar os dois agentes que o perseguiam. No fim, praticamente todas as testemunhas consideram que a reconstituição foi fiel ao que aconteceu no dia do assassinato. Mas algumas encontram diferenças e não ficam convencidas. Acham que Alaouade continua a mentir. Pode estar a esconder alguma coisa ou proteger alguém. Alaouade garante que agiu sozinho, mas assume uma atitude provocatória. Diz que se tivesse tido ajuda, nunca o admitiria. As autoridades portuguesas procuram sinais de um possível cúmplice. O gabinete do Ministério da Administração Interna francesa avisa que três cidadãos árabes embarcaram num voo de Paris pra Lisboa, no fim de semana do assassinato, e regressaram à França algumas horas depois da morte de Sartawi. Ao mesmo tempo, o grupo Abu Nidal revela à France Presse que os comandos que executaram o dirigente da OLP deixaram o país logo a seguir ao ataque. Uma coisa fica evidente: é muito fácil entrar e sair de Portugal sem ser detectado. E neste momento, já há outro grupo terrorista internacional a preparar um atentado ainda maior. 26 de julho de 1983. Um Ford Escort branco percorre a Avenida das Descobertas, no Restelo, em Lisboa Nesta rua, praticamente todas as casas pertencem a representações diplomáticas. o carro para em frente à embaixada da Turquia. O condutor sai e caminha em direção à entrada do edifício. Um dos guardas repara que o homem leva a mão direita dentro do casaco e desconfia. Pede-lhe que mostre o que leva escondido, mas ele não obedece. Diz apenas que vem visar o passaporte. A seguir, quando o guarda lhe pede para mostrar o documento, não responde. Dá meia-volta, sempre com a mão no interior do casaco. Regressa ao carro e desaparece. O guarda estranha a situação e avisa os superiores, mas ninguém lhe dá especial atenção. Pedem-lhe apenas que fique alerta nos dias seguintes. Dentro de menos de 24 horas, aquele homem vai estar de volta. E não virá sozinho. Fará parte de um grupo paramilitar que vai tomar de assalto a embaixada, com armas de guerra, explosivos. Será o segundo atentado de terroristas estrangeiros em Portugal, em apenas três meses. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio.
Eu levanto pra fugir, pra altar a entrada que ele tem na embaixada, e o mesmo elemento que me dá a primeira rajada, levanta-se. Levanta-se não, ele olha pra mim, vê me a correr e faz um outro disparo onde me acerta com mais quatro tiros. Quando eu fico de cócoras, nessa mesma entrada que eu era pra ir fugir, vem um outro com uma ponta arma à cabeça, onde eu não peço nada, levanto o braço, peço clemência, interiormente, pra não me matar. Vá lá.
Implorar pela vida é a única coisa que lhe resta.
Eu pensei, eu nesse preciso momento mentalizei que ia morrer. Interiormente mentalizei-me. Quando vejo o indivíduo com a arma apontada em direção a mim, eu disse: "Vou morrer".
"1983: Portugal à Queima Roupa" é uma série pra ouvir em seis episódios, que faz parte dos podcast plus do Observador. É narrada por mim, Vitória Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. O guião e as entrevistas são do Vasco Maldonado Correia. A sonoplastia e o desenho de som são de Pedro Oliveira. O design gráfico é do Miguel Ferraz Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube. Podcast plus do Observador. É mais do que um podcast. Os podcast plus do Observador têm o apoio da Kia.
