Depois de uma estreia nada auspiciosa no Festival de Toronto do ano passado, e apesar da sua longa e prestigiada carreira e da sólida reputação de que goza em Hollywood, Ron Howard não conseguiu encontrar distribuidor para o seu novo filme, Éden, tendo finalmente decidido financiar ele mesmo a sua difusão comercial. Howard é um exímio e versátil contador da histórias, vencedor de Óscares, autor de muitos dos grandes sucessos de bilheteira e de público das últimas décadas, e um dos últimos representantes da tradição do cinema industrial de entretenimento e qualidade nos EUA, aplaudido por público e crítica. O facto de Éden, uma produção independente, ter encontrado tantas dificuldades para se estrear, diz muito sobre o estado das coisas na indústria cinematográfica americana.
Numa paisagem dominada pelos filmes de super-heróis com orçamentos astronómicos e carregados de efeitos digitais, por blockbusters com corpos de gigante e cabeças atrofiadas, franchises ao pontapé e bambochatas woke, Éden é um título completamente desemparelhado, com o seu quê de anacrónico, aquilo a que dantes se chamava um “filme de tese”, e que ao mesmo tempo quer também ser um espectáculo. E qual é a tese de Éden? Que até num ambiente (dito) paradisíaco os valores civilizacionais podem colapsar e o homem mostrar a sua verdadeira (e muito feia) identidade, mesmo apesar dos seus protestos em contrário.
[Veja o “trailer” de “Éden”:]
A fita baseia-se em acontecimentos reais que se deram numa inóspita ilha do arquipélago das Galápagos entre as duas guerras mundiais, chamada Floreana, que já originaram um documentário, em 2014, e foram contados em livro, com versões contraditórias, por duas das pessoas neles envolvidas. Jude Law interpreta Friedrich Ritter, um médico alemão tornado filósofo, homem pessimista e amargo, que se abrigou naquela ilha com a sua discípula e amante, Dore Strauch (Vanessa Kirby), no início dos anos 30, para fugirem ao “fascismo” e à falência política, económica e moral da humanidade, e viverem parcimoniosamente da terra e sem confortos modernos.
[Veja uma entrevista com Ron Howard:]
Em 1932, apareceu a família Wittner, composta por Heinz (Daniel Brühl), um idealista inspirado pelos escritos de Ritter, a sua mulher, Margret (Sydney Sweeney) e um filho jovem. Ao contrário do que pensavam, são recebidos com hostilidade por aquele e pela amante, que esperam que as ingratas condições de vida na ilha os afugentem rapidamente. Mas isso não sucede e os Wittner adaptam-se bem a Floreana e até conseguem construir uma casa. Esta precária e espartana microsociedade utópica é completada com a chegada de uma pretensa aristocrata austríaca, a baronesa Eloise (Ana de Armas), acompanhada por um engenheiro e um guarda-costas, e que diz ir construir um hotel de luxo na ilha.
Bonita, insinuante, manipuladora e prepotente, a baronesa é dada a abusar da paciência e da prestabilidade dos outros habitantes da ilha (e, se necessário, a roubar a pouca comida que eles têm armazenada). E depressa começa a contender com os nervos deles, em especial os do Dr. Ritter, impedido de escrever o seu livro em paz e cada vez mais incomodado com os caprichos, os abusos, a vacuidade e a arrogância da baronesa, que procura dividir os seus vizinhos e arranjar aliados entre eles — no caso, o casal Wittner. E se antes dela aparecer o dia-a-dia já era duro em Floreana, agora vai ficar cada vez menos suportável.
[Veja uma conversa com o realizador e os atores:]
Rodado na Austrália, Éden tem algumas qualidades, sendo a primeira essa personalidade “anacrónica”, a intenção de Ron Howard de querer pôr as pessoas a refletir sem deixar de entreter, o que o faz remar contra a maré da produção cinematográfica atual de Hollywood, e a que se junta o superior nível e a consistência do elenco. Mas tem também vários problemas, o maior dos quais a sua previsibilidade (mal a baronesa chega à ilha, adivinhamos logo que ela vai ser a causa da destruição daquela frágil experiência social, e vemos à distância por que lado e como isso vai acontecer), logo seguida da superficialidade demonstrativa do enredo (o estereótipo do homem enquanto animal superior falhado e nocivo ao seu semelhante, mesmo que instalado num “paraíso”) e das personagens.
[Veja uma sequência do filme:]
O Dr. Ritter é um niilista de quintal aluado e que escreve manifestos sub-nietzscheanos, a sua amante pouco mais faz do que figura de corpo presente, os laboriosos Wittner fornecem o contraponto de bom senso e “normalidade”, e a baronesa Eloise é a típica vamp enfeitiçadora e malfazeja (aquela longa boquilha não engana ninguém…), não deixando lá muito para fazer aos atores que os habitam. Embora Law se esforce para tirar o máximo de bílis e de contradição intelectual e ética ao seu Dr. Ritter, e Ana de Armas tente ocultar a caricatura que é a aristocrata. Só Sydney Sweeney impressiona em Margret, a mais ajuizada e resistente do lote, e que protagoniza uma crua e bruta sequência de parto natural sem anestesia nem assistência, sob a ameaça de um punhado de cães selvagens e famintos (Sweeney não tem apenas genes e jeans, também tem talento).
Reminiscente de muitas narrativas ficcionais e reais de sobrevivência, voluntária ou involuntária, em ilhas distantes e paradisíacas ou inabitáveis e, timidamente, de livros como O Deus das Moscas, de William Golding (este sim, o artigo genuíno), e das suas versões para cinema, Éden é um filme singular e corajoso pela posição que assume, contrária às tendências da produção cinematográfica e aos gostos do grande público hoje dominantes. Mas que acaba por ser vítima de debilidades narrativas e simplismos dramáticos. E custa que isso suceda a um realizador tão capaz, meritório e bem sintonizado com o conceito de entretenimento civilizado como Ron Howard.