Ao pisarem na sala escura, iluminada apenas pelas velas distribuídas pelo chão, muitos param e suspiram. Alguns precisam de um tempo, e deixam as lágrimas escorrerem. Apesar das dezenas de pessoas, entre jovens, idosos e crianças, o silêncio só é interrompido pelo som do piano de Ludovico Einaudi. A fila segue devagar, até o local onde estão os amigos e a família mais próxima.
Diante da urna, Leo Dell’Orco, o companheiro e braço direito na direção criativa da marca, recebe os pêsames. Por trás, um grande ecrã expõe uma fotografia de Giorgio Armani na passarelle, como sempre o fez ao longo de 50 anos, e uma frase: “O legado que espero deixar é de comprometimento, respeito e cuidado com as pessoas e a realidade. É aí que tudo começa”.
▲ Os visitantes passam por uma área com as coroas de flores e os livros para que possam deixar mensagens. Na câmara ardente, ouve-se Einaudi sob a luz de velas
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Na sua última entrevista ao Financial Times, Giorgio Armani, que morreu na passada quinta-feira, 4 de setembro aos 91 anos, assumia que a sua maior fraqueza era a necessidade de “estar sempre no controlo de tudo”. Conduziu a maison de moda que fundou há mais de 50 anos até os seus últimos dias, e pensou nos pormenores de como seria a sua despedida — incluindo o acesso especial para os funcionários, que este sábado mostravam-se emocionados ao entrar no espaço onde o corpo está a ser velado, no Armani/Teatro, na Via Bergognone, em Milão.
Desde às 9 horas deste sábado, 6 de setembro, outros nomes importantes já passaram pelo velório, como Donatella Versace, que foi uma das primeiras figuras públicas a chegar, logo pela manhã, ou a modelo argentina Valeria Mazzae o realizador italiano Gabriele Salvatores. Mas também centenas de populares, que fizeram filas à porta na esperança da despedida.
Eleanora Cervellera não o conhecia pessoalmente, mas é como se fosse um amigo próximo. “Tenho 50 anos, ele começou há 50 anos. Cresci a vê-lo. É uma figura tão bela“, diz a italiana, que deixou a sala com lágrimas nos olhos, como o Observador pôde testemunhar no local. “Sabia que tudo seria muito suave. As velas no chão também são parte do orientalismo que Armani trouxe para o seu estilo. A música de Einaudi é calma e emocionante por si só. E ao vê-lo, no seu melhor momento naquele ecrã, é como se eu pudesse sentir a presença dele ainda muito viva. Podemos mesmo chamá-lo rei”, diz a consultora em economia criativa, que vive no Dubai mas estava em Milão a visitar familiares.
Antes de chegar à sala, os visitantes também passam por um espaço onde estão a ser depositadas as coroas de flores brancas, homenagens enviadas por pessoas e instituições, e onde também podem deixar as suas próprias homenagens nos seis livros disponíveis. Neste primeiro dia do velório, as páginas foram preenchidas por mensagens de gratidão, principalmente escritas em italiano, mas também em outras línguas como inglês e espanhol. A romena Katerina Fogoros, que estuda ciências políticas em Milão, foi uma das que quis escrever algo em memória de Giorgio Armani. “É o mínimo que eu posso fazer, pelo tanto que devemos ao senhor Armani, pelo seu impacto imenso na indústria da moda”, diz-nos a jovem.
Pelas 17h30 a fila está a reduzir, e já há pouco tempo de espera. A italiana Matilde Guglielmetti, que vive em Milão, chegou muito perto do fecho dos portões. Alguns chegavam com cachecóis do Olimpia Milano, a equipa de basquetebol de Armani. “Queremos celebrar este homem que fez tanta história na moda, na beleza e no mundo. É sobre a história da nossa vida, do desporto e do basquetebol”, destacou a jovem.
Às 18 horas as equipas de jornalistas começam a recolher os seus equipamentos. Alguns dos que passaram pela câmara ardente aproveitam para visitar o Museu Armani/Silos, do outro lado da rua, com uma exposição de peças Armani Privé criadas desde 2005, e com visitação livre durante os dias do velório. No próximo domingo as portas abrem-se novamente às 9 horas e fecham-se às 18 horas. O funeral será na segunda-feira, dia 8, e tal como era desejo de Giorgio Armani, privado.