Os linces fizeram história. A semana que agora se cessa ficará para sempre emoldurada nos álbuns de ouro do basquetebol e do desporto nacional. Com uma espetacular vitória diante da Estónia, sem o excluído Neemias Queta e com um Rafael Lisboa em grande plano nos tiros exteriores (65-68), Portugal apurou-se pea primeira vez na história para a fase a eliminar de um Campeonato da Europa de basquetebol e garantiu desde logo a segunda melhor prestação da sua história. A missão na Letónia estava cumprida e, para fazer melhor, a Seleção Nacional tinha que superar um duro obstáculo: ganhar à campeã do mundo Alemanha nos oitavos de final.

A ironia de ter de perder o melhor jogador para se tornarem uma equipa: Portugal vence Estónia e está nos oitavos do Europeu

“Neste tipo de jogos não há muito a dizer, É um jogo em que, se ganhássemos, atingíamos o nosso objetivo. Se perdêssemos, íamos para casa amanhã. Estou muito bem aqui em Riga. O meu primeiro pensamento no final do jogo foi que estamos a viver este momento por causa do trabalho em equipa. Quero dedicar este feito a quatro jogadores que nos ajudaram na qualificação: André Cruz, Ricardo Monteiro, Anthony da Silva e Gonçalo Delgado. Disse ao Nuno [Manarte] e ao Sérgio [Ramos] que este jogo era para os jogadores. Ganhámos com total mérito deles e porque mostraram o mais importante: caráter. Foi graças ao caráter da equipa. Comecei a treinar há 50 anos, em 1975, e o sentimento é sempre o mesmo. Esses momentos fazem o filme da nossa vida. Esta profissão tem momentos muito duros, mas felizmente também há momentos como esse. Voltando à metáfora dos melões, hoje abrimo-lo e era doce”, começou por dizer o selecionador Mário Gomes no final da partida diante da Estónia.

“Neemias? Não vou dizer muita coisa, pelo respeito que tenho pelo jogo, por todos os jogadores e pelos treinadores. Vou só dizer que é muito fácil marcar uma falta sobre um jogador português. Sobre a reação da equipa, não sabíamos o que ia acontecer, faltavam cerca de 15 minutos. Sou um treinador, não sou bruxo, não sou mágico, nem guru, nem nada disso. Mas, uma coisa eu sabia: sabia que a equipa ia reagir, ia unir-se e não ia deitar a toalha ao chão. Se ia ser suficiente ou não, logo se veria. Felizmente, foi suficiente. Vamos preparar o próximo jogo como temos preparado todos e com a mesma pressão que tivemos desde que aqui chegámos. Foi assim até agora e, por maioria de razão, vai ser assim no próximo jogo. Portanto, nada de especial. Temos de descansar o corpo e especialmente a cabeça. Vamos trabalhar com a mesma honestidade e com a mesma seriedade que nos trouxe até aqui”, concluiu.

Portugal começou com Rafael Lisboa, Travante Williams, Diogo Brito, Miguel Queiroz e Neemias Queta no cinco inicial, ao passo que a Alemanha optou por Isaac Bonga, Franz Wagner, Daniel Theis, Dennis Schroder e Andreas Obst. Cumprido o minuto de silêncio em memória das vítimas da tragédia do elevador da Glória, os linces começaram da melhor forma e chegaram ao fim dos primeiros dois minutos a vencer por 7-2, fruto de uma grande entrada de Queta. Contudo, o desacerto começou a tomar conta do ataque português e os alemães aproveitaram para empatar (7-7), completando a reviravolta com um cesto de Schroder (9-7). Até ao fim do primeiro quarto, Portugal ainda se aproximou, mas a vantagem cresceu para os cinco pontos (17-12).

Os linces voltaram a entrar bem no segundo quarto e reduziram a desvantagem para três pontos depois de um cesto de Brito (17-14). Os triplos começaram a sorrir à equipa nacional que, por intermédio de Francisco Amarante e de Cândido Sá, voltou à dianteira do marcador (21-22). Depois de Bonga falhar dois lances livres, Relvão dilatou a vantagem e Travante colocou Portugal a vencer por cinco pontos de vantagem à beira do intervalo (21-26). Nos últimos segundos da primeira parte, Travante somou mais um triplo e Neemias consumou novo alley-oop, mas Schroder reduziu para os alemães que, ainda assim, regressaram ao balneário em desvantagem perante uma Seleção portuguesa irrepreensível na defesa (31-32).

No recomeço, Neemias Queta aumentou a vantagem portuguesa para os três pontos, mas Bonga reaproximou os alemães (33-34). Contudo, uma falha de Portugal no ataque atirou a Alemanha de novo para a dianteira e uma desatenção de Neemias e de Rafael Lisboa dilatou a desvantagem (37-34). Os linces reagiram, aproximaram-se e, pouco depois, voltaram a passar para a frente, através da linha de lance livre (39-40). Ainda assim, um triplo de Schroder devolveu a vantagem aos alemães, que dispararam com mais um triplo, de Maodo Lo (47-43). A três minutos do fim do quarto, Mário Gomes parou o jogo e a reação foi quase imediata, com Brito a reaproximar os linces com um triplo (52-49). Relvão recuperou a bola na defesa, mas Amarante falhou a bola do empate. Depois de novo erro ofensivo germânico, Diogo Gameiro manteve Portugal na discussão do resultado nos últimos dez minutos (52-51).

Contudo, a entrada no quarto quarto acabou por ser determinante para o desfecho da partida, com a Alemanha a aproveitar o espaço para colocar a vantagem em 12 pontos ao cabo de apenas três minutos. Nesse período, os linces não somaram qualquer ponto (63-51), e só o conseguiram fazer a meio do quarto, com um triplo de Travante (65-54). Com tudo a correr mal no ataque e os triplos a aparecerem no cesto adversário, Portugal disse definitivamente adeus à partida e ao Europeu a quatro minutos do fim (74-54). Os linces continuaram com dificuldades até ao fim e acabaram por se despedir da Letónia com um resultado expressivo, depois de um encontro de grande qualidade, e em que criaram dificuldades à campeão do mundo até aos últimos dez minutos (85-58). Neemias foi o MVP, com mais um duplo-duplo (18 pontos e 11 ressaltos), o único deste jogo dos oitavos de final.