O Presidente da Fundação Centro Cultural de Belém (CCB), Nuno Vassallo e Silva, diz que os problemas vividos no CCB estão “ultrapassados” e que a instituição está de pedra e cal neste novo ciclo. O historiador de arte foi nomeado pela anterior ministra da Cultura, Dalila Rodrigues, após o polémico afastamento de Francisca Carneiro Fernandes, e entrou em funções em janeiro.
Na apresentação à imprensa da nova temporada do CCB esta quarta-feira, Vassallo e Silva apresentou-se ladeado por Madalena Reis, atualmente o único membro do conselho de administração além do seu presidente, e Cláudia Belchior, coordenadora geral executiva da área das artes performativas do CCB, que lembrou estar a apresentar uma programação para 2025-2026 ainda desenhada por Aida Tavares — programadora que foi em julho afastada do cargo de diretora artística. Já o presidente do CCB insistiu que esta “é uma programação do CCB graças à excelência dos colaboradores”.
O CCB abriu em junho um concurso de âmbito internacional para seleção e recrutamento da nova direção das artes performativas, processo que deverá estar concluído em novembro. A cinco dias da datas de limite de apresentação de candidaturas, o presidente do CCB optou por não esclarecer quanto ao volume de candidaturas, dizendo apenas que foram recebidas “algumas” propostas. Questionado sobre a decisão de manter o cargo que Dalila Rodrigues em tempos designou como criado à medida de Tavares, Vassalo e Silva defendeu a decisão de “manter a existência deste lugar”. “Pode ter no futuro alguns acertos”, sugeriu, “mas foi uma decisão do conselho”, defendeu. De resto, “o CCB sempre teve um diretor artístico, mesmo que não fosse com essa designação, do ponto de vista das artes performativas”. Segundo o calendário divulgado pelo CCB, a escolha para novo diretor artístico será anunciada na primeira quinzena de novembro.
Questionado pelo ambiente vivido na instituição, Vassallo e Silva admitiu que a “casa como todas as instituições tem momentos em que as placas tectónicas…”, optando por destacar “a força das equipas do CCB”. “Estamos numa casa sólida com valores que se identificam facilmente”, frisou, garantindo que qualquer mal-estar “está ultrapassado”.
Já quanto ao conselho de administração da Fundação, neste momento reduzido a dois elementos após a saída do curador Delfim Sardo por “motivos pessoais”, mantém-se em funções Madalena Reis, cujo mandato terminou oficialmente em abril. Em resposta a uma pergunta do Observador, Reis diz-se receptiva ao segundo mandato: “Evidentemente estarei disponível para continuar”. É ao Governo quem compete nomear os dois vogais que compõem o conselho de administração da fundação.
Nos últimos meses, o Centro Cultural de Belém foi abalado por uma profunda crise institucional, com a exoneração de Francisca Carneiro Fernandes da presidência do conselho de administração a 29 de novembro de 2024, dois dias antes de completar um ano no cargo, alegadamente por “não cumprir orientações da tutela”, algo que a gestora cultural contesta. O caso chegou mesmo ao Parlamento, com Dalila Rodrigues (PSD), a ministra da Cultura em funções e que determinou a exoneração de Fernandes, a denunciar que teria havido um “assalto ao poder” do centro cultural por parte do ex-ministro Pedro Adão e Silva (PS), prometendo então o fim de “compadrios, lobbies e cunhas” naquela instituição. Já Francisca Carneiro Fernandes, após o afastamento, denunciaria publicamente práticas de gestão graves e “muito erradas” durante o seu mandato, como contratações opacas, ajustes diretos mal justificados, irregularidades na gestão dos edifícios, bem como problemas financeiros sérios, incluindo aplicações financeiras desproporcionadas e orçamentos parcialmente por executar.
Já este ano, Aida Tavares, responsável artística pelas Artes Performativas e Pensamento no Centro Cultural de Belém, foi afastada do cargo de responsável artística pelas Artes Performativas e Pensamento no Centro Cultural de Belém. Ao Observador, a programadora falou numa demissão com “significado político”, feita “à 25.ª hora da senhora ministra”, já que a demissão aconteceu na mesma tarde em que foi conhecido que Luís Montenegro decidiu não manter Dalila Rodrigues como ministra da Cultura no novo Governo. O assunto acabaria por levar à demissão coletiva da Comissão de Trabalhadores do CCB alegando uma “quebra irreversível de confiança” na administração e tutela.
Esta quarta-feira, o presidente do CCB foi questionado sobre o atual diálogo com a Comissão de Trabalhadores, respondeu que a mesma está “demissionária”, mas que qualquer futura “só tem de pedir para falarmos”.