O antigo diretor desportivo da W52-FC Porto Nuno Ribeiro assumiu esta quinta-feira que voltará a falar em tribunal no processo de doping Prova Limpa, após a Relação do Porto ordenar a repetição do julgamento da extinta equipa de ciclismo.
Em setembro, o Tribunal da Relação do Porto (TRP) decidiu pela repetição do julgamento e a consequente reformulação do acórdão, por considerar ser prova ilegal as declarações de Nuno Ribeiro prestadas através da leitura de um documento escrito.
“Se o processo regressar à primeira instância, Nuno Ribeiro pretende voltar a prestar declarações, nos termos legalmente previstos, esclarecendo as questões que se revelem pertinentes para a descoberta da verdade material e para uma decisão justa e devidamente fundamentada”, adiantou à agência Lusa Tiago Batista Máximo, advogado do arguido.
A decisão do TRP surgiu na sequência de um recurso interposto por Adriano Quintanilha, dono da equipa, e pela Associação Calvário Várzea Clube de Ciclismo – o clube na origem da equipa – sustentando ser um meio de prova ilegal o depoimento em audiência de julgamento do então diretor desportivo, que leu um documento previamente preparado.
“Nuno Ribeiro reafirma a sua disponibilidade para contribuir para o esclarecimento de toda a verdade. Nuno Ribeiro não acompanha integralmente o entendimento expresso na Decisão Sumária proferida pelo Tribunal da Relação, no que às suas declarações diz respeito, reservando-se o direito de em momento posterior se posicionar sobre esse tema”, sublinha Tiago Batista Máximo.
Apesar disso, o mandatário do ex-diretor desportivo acrescenta que, “perante a determinação da eventual reabertura da audiência de julgamento, o mais importante é contribuir para que os factos sejam devidamente esclarecidos”.
“Esta sua posição (não só neste processo mas noutros em que o mesmo seja interveniente) resulta da sua vontade de colaborar com a Justiça e de contribuir para que todas as circunstâncias relevantes sejam apreciadas com rigor, transparência e respeito pelas garantias processuais”, salienta Tiago Batista Máximo, acrescentando que o seu constituinte “continuará a acompanhar o processo com serenidade, respeito pelas instituições judiciais e confiança na realização da Justiça”.
Em 12 de dezembro de 2025, o Tribunal de Penafiel condenou Adriano Quintanilha e Nuno Ribeiro a penas efetivas de quatro anos e nove meses no âmbito do processo de doping Prova Limpa, com 26 arguidos, incluindo ex-ciclistas.
O tribunal de primeira instância concluiu que Quintanilha foi um dos “elementos que engendrou o plano inicial” de doping no seio da W52-FC Porto, acrescentando que o patrão da equipa tinha a decisão final sobre os pagamentos das substâncias e métodos dopantes.
As declarações em causa foram proferidas (lidas) por Nuno Ribeiro na sessão de julgamento de 18 de novembro de 2024.
Na ocasião, o ex-diretor desportivo da W52-FC Porto assumiu que havia doping durante todo o ano na equipa de ciclismo, financiado e incentivado pelo então patrão Adriano Quintanilha, “mestre da manipulação, que queria ganhar a todo o custo”.
Nuno Ribeiro, que falou nesse dia pela primeira vez em julgamento, pediu para prestar declarações na ausência dos restantes arguidos, alegando que andava a “sofrer pressões e ameaças”, nomeadamente de Adriano Quintanilha.
O vencedor da Volta a Portugal de 2003 começou por ler uma declaração escrita, na qual admitiu que o seu único erro foi saber o que se passava no seio da equipa e não ter tido a capacidade para dizer não, por depender economicamente do cargo que exercia, refutando a acusação de que era o “cérebro” do esquema de consumo de substâncias dopantes e atribuindo esse papel ao então dono da W52-FC Porto.
João Rodrigues, Rui Vinhas, Ricardo Mestre, Samuel Caldeira, Daniel Mestre, José Neves, Ricardo Vilela, Joni Brandão, José Gonçalves, Jorge Magalhães e André Freitas, ex-ciclistas da W52-FC Porto, foram condenados a penas suspensas inferiores a dois anos e meio.