Uma recolha de documentação sobre a luta da libertação da Guiné-Bissau resultou num documentário sobre este período, com depoimentos de combatentes guineenses, cabo-verdianos e portugueses, com antestreia em Portugal na próxima sexta-feira, dia do aniversário de Amílcar Cabral.
Trata-se do documentário “Martcha” (marcha), produzido pelo escritor guineense Onésio Soda, o qual começou com uma recolha de documentação para explicar no Museu Militar da Luta de Libertação Nacional, em Bissau, o percurso de Amílcar Cabral e de outros combatentes.
A intenção original tornou-se mais ambiciosa e o cinema foi visto como um possível espaço para convidar mais pessoas para este conhecimento, explicou o realizador à Lusa.
Nesta documentação e nos depoimentos reconhecidos, Onésio Soda encontrou sobretudo “humanidade” e hoje assume-se diferente após ouvir a história dos combatentes, pela sua própria voz.
“Eu fiz a caminhada [“martcha”], mas a caminhada também me fez. Comecei a ver muitas coisas. A luta não era contra o povo português, como dizia o próprio Amílcar Cabral, mas sim contra o colonialismo, a ideia de dominação”, afirmou.
Onésio Soda conta que ouviu “muitos portugueses que não queriam ir para a Guiné” e que alguns lhe disseram que tinham o pai preso pelo fascismo português e eram obrigados a ir para a Guiné”.
“Eu sou militar e entendo isso: Era uma ordem”, disse.
E acrescenta: “A propaganda dizia que a guerra na Guiné era para fazer patrulha, que não era exatamente uma guerra, mas quando lá chegavam era o contrário”.
Sobre o humanismo que encontrou nestes depoimentos e na história desta “martcha”, o escritor criou um outro propósito, o de “por todos a marchar pelo humanismo”.
E chama Cabral ao tema, pois no líder africano, considerado o “pai” da independência de Cabo Verde e da Guiné-Bissau, encontra mais do que um político: “É um poeta, um humanista, estudioso, um visionário”. “E continua vivo”, sublinha.
Amílcar Cabral nasceu em Bafatá, a 12 de setembro de 1924. Passados 101 anos, a série documental “Matcha” tem a sua antestreia no Espaço Mbongi_67, em Queluz.
A série conta com três episódios — “Iníciu” (1950-1966), “Confrontu” (1967-1970) e “Avansu” (1971-1974). Após a sua exibição, segue-se uma conversa aberta com a equipa de produção e convidados.