Num filme cuidado e honesto na sua abordagem ao realismo como Surda — estreia na longa-metragem da murciana Eva Libertad, de 46 anos, e mais uma boa surpresa da cinematografia do país vizinho — há uma cena violenta de comoção que destoa e aflige Ángela (Miriam Garlo), tocando-nos em simultâneo pelo dramatismo e pela memória projectada dos anos da pandemia, esse ontem que parece já tão longínquo. Ángela, a surda do título, está na sala de parto acompanhada pelo marido Héctor (Álvaro Cervantes), que domina a linguagem gestual e não tem deficiência auditiva. Está prestes a dar à luz o primeiro bebé do casal, uma menina. Durante o parto, a médica obstetra que assiste esquece-se da condição da parturiente e, de máscara na boca, insiste em dizer-lhe algo que todos nós ouvimos. Acontece que Ángela não a ouve. Nisto, ela estica o braço e, na urgência do instante, arranca-lhe com força a máscara da cara, em busca da leitura labial que lhe permite comunicar. É um momento tenso, também reflexo da ansiedade que se sabe estar associada à chegada de uma criança ao mundo que pode ou não ser surda como a mãe: a probabilidade é de 50 por cento.
A audiência percebe naquele instante que tem trabalho cinematográfico sério à sua frente. Que há um tom justo aqui, ileso ao cliché da “deficiente coitadinha”, e uma consistência que deve muito à performance da intérprete Miriam Garlo — que é, de facto, deficiente auditiva, além de irmã da realizadora. Consequência directa do vínculo entre realizadora e actriz, Surda deriva de uma curta-metragem homónima de Eva Libertad, realizada em 2021, e inspirada na vida de Miriam, que nessa altura pensou em ter uma criança e partilhou medos e expectativas de tornar-se mãe num mundo que ela não é capaz de ouvir.
[o trailer de “Surda”:]
“Eu já tinha dirigido a minha irmã no teatro, que é o seu palco habitual como actriz”, disse-nos Eva Libertad por videochamada, “mas só com a curta confirmei a relação dela com a câmara e a maneira como sabe estar à frente dela, com tanta seneridade e tanta verdade. Por outro lado, queria que o tema da maternidade passasse da ideia ao acto. Queria perceber o que significa ser mãe surda e o que é que uma criança vem acrescentar à dinâmica de uma família com aquela particularidade. Como guionista e realizadora, queria aprofundar o assunto. Acontece que a minha irmã, afinal, decidiu não engravidar. A criança deste filme é uma ficção. Resulta de um trabalho enorme de consultas e de entrevistas a mães surdas que sustentaram o filme com um substrato verdadeiro.”
Surda tem um título frontal, franco, sem subterfúgios. Um título lutador, como esta personagem. Confronta o preconceito. Diz-nos na cara que a surdez não tem que ser vista como um problema, uma doença, que é apenas uma condição, uma maneira de se estar no mundo. “Quem tem problemas é a sociedade capacitista que discrimina e aponta o dedo à enfermidade”, corrobora Eva, “ao passo que este filme traz outro olhar: vem de um lugar positivo. Efectivamente, acompanhei a Miriam ao longo da vida e pude ir comprovando a luta constante da minha irmã, o seu sobre-esforço contínuo para desenvolver-se e manter, simplesmente, uma vida normal no nosso mundo ouvinte. Esta ideia esteve muito presente na concepção da personagem de Ángela. Eu não queria uma surda exemplar, perfeita, mas uma mulher comum, com qualidades, vulnerabilidades e defeitos.”
Durante a conversa, falou-se do supracitado momento da máscara. Eva Libertad acrescentou que filmou aquela cena não com actores em estúdio, mas com uma verdadeira equipa de obstetrícia numa unidade hospitalar. A realizadora fez questão de frisar como foi “terrível” para a irmã (e para todos os deficientes auditivos) a necessidade do uso obrigatório da máscara durante a pandemia. “Perderam a sua maior ferramenta de comunicação na hora de ler nos lábios, que já de si é difícil. Houve um problema de saúde mental muito sério para estas pessoas. Arrancar a máscara tornou-se então para eles um gesto de raiva frequente, muito vivo.” Mas a cena em causa (seguramente uma das mais fortes do filme) tem outra implicação já que, segundo Eva Libertad, “todas as mães surdas que entrevistei me disseram, sem uma única excepção, que os partos foram uma experiência traumática.”
▲ Eva Libertad, ao centro, entre a irmã, a actriz Miriam Garlo, e o actor Álvaro Cervantes, durante o Festival de Málaga, em março deste ano
Getty Images
Surda é um filme que parece responder à expontaneidade do momento mas tem muita preparação por trás. A cena do parto, por exemplo, foi rodada 12 vezes. Havia sete bebés na rodagem para representarem o bebé que se vê (de tal forma é dificil fazer um filme com eles). São características inusuais numa primeira obra. O filme tem também a ambição de mostrar a nível sensorial o que Ángela sente — e este aspecto exigiu um trabalho de desenho de som fora do comum — mas esse som não se torna impositivo, não tende a manipular sentimentalmente o espectador. “Não gosto dos filmes que me pedem nas entrelinhas, pela banda sonora, o que devo sentir enquanto os vejo, se tenho que rir aqui ou chorar acolá”, acrescentou a cineasta. “Para mim, a construção narrativa sonora foi a etapa mais difícil do meu filme.” Porque há um momento em que Ángela rompe, entra em crise e nós, “como público numa sociedade de estímulos sonoros cada vez mais persuasivos, já não a podemos seguir da mesma maneira.”
Há vários filmes na história do cinema que representaram a surdez. Eva Libertad disse que viu tudo o que havia para ver sobre o assunto, a memória recente trouxe O Som do Metal (2019), com Riz Ahmed e o ucraniano A Tribo (2014). Mais atrás, há O Milagre de Anne Sullivan, realizado por Arthur Penn, nos anos 60. “São filmes que me ajudaram a decidir que tipo de trabalho eu queria fazer. O Som do Metal tem essa capacidade de saber entrar e sair da percepção da personagem. É uma técnica que funciona, mas eu não quis usá-la. Não quis forçar o dramatismo. Julguei mais intenso quebrar a certo momento do filme uma escuta normalizada a que o espectador se habituou.”
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia