A coleção “Retratos” da Fundação Francisco Manuel dos Santos já tem no seu catálogo alguns títulos de boa leitura sobre pontos da nossa costa onde agora muitos portugueses estão de férias, permitindo-lhes conhecer melhor — e por um preço irrisório — a história das terras onde agora descansam os ossos e a cabeça. A escolha dos autores é muito criteriosa, pois todos conhecem muito bem, por uma razão ou outra, o local sobre o qual escrevem: Luísa Costa Gomes para Da Costa: praias e montes da Caparica (2018); Ana Cristina Leonardo para Culatra: uma ilha com gente dentro (2020); Maria José Santana para Ilhas da Ria de Aveiro (2021) — e agora José Carlos Barros para Os Filhos de Monte Gordo (2025). Em 100 páginas ou menos, que se leem numa tarde, à sombra, um retrato, precisamente, do espírito dum lugar e dos seus meandros atuais ou pretéritos é-nos concedido para reflexão e avaliação, em livros concebidos sob uma economia industrial precisa e um design gráfico de gabarito que considero perfeitos e deixam a sorrir e com respeitosa vénia gentil quem saiba um bocadinho deste nobre ofício.

No livro em apreço, a fotografia de Margarida Alpuim, na capa e contracapa, faz a síntese visual absoluta do que em Monte Gordo está em jogo ou em conflito: a pesca desde sempre e o turismo sazonal como ócio e economia. Estamos numa região do país altamente favorecida pela riqueza do mar em frente, cujos recursos piscícolas e afins criaram uma cultura gastronómica de lamber os beiços e chorar por mais, em resultado de uma admirável gestão de recursos localmente disponíveis. O ecossistema da extensa Ria Formosa e do sotavento extremo não será um dos paraísos na terra — sobretudo porque deixaram de tomar boa conta dele —, mas a intensidade com que, desde cedo, as suas benfeitorias foram sendo disputadas por vizinhos intrusivos diz-nos o suficiente sobre o património natural ali concentrado (“é incrível como na Praia de Monte Gordo, durante seis séculos, será reiterada a denúncia dos abusos dos armadores e pescadores espanhóis”, p. 80, referindo-se a 1892, mas podia ser à atualidade).

José Carlos Barros está em posição quase perfeita para nos narrar tudo isso, enquanto antigo diretor do Parque Natural da Ria Formosa e da Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António, e além disso romancista premiado em 2022. Digo quase perfeita, pois embora revele pesquisa apurada na imprensa de época, uma bibliografia esclarecida, entrevistas pessoais e um estilo vamos dizer competente, faltou-lhe uma campanha final de editing que desbastasse as redundâncias e as repetições obsessivas em que a nossa leitura tropeça a espaços lembrados, para enfatizar mais e mais a situação marginalizada e marginal de pescadores e conserveiros vivendo em cabanas de junco barrão e paus de piteira ou barracas de adobe com cal e cascas de bivalves do dito Sertão, o bairro de pobres que, com uma única exceção, “não existe nas crónicas de veraneio” (p. 47). Sequer rasurou apartes escusados, por exemplo quando destaca que D. Sebastião, em visita, não foi “seduzido” pelas “formosas mulheres que acudiram à praia e às janelas das casas” e pelas moças que o esperavam no cais de Castro Marim, o que “se compreende”, diz Barros — dedicando até um parágrafo a isso! —, “sabendo-se que El-Rei não seria muito dado a vaquinhas [saias] levantadas…” (p. 55); quando, referindo-se à Guerra das Pescarias, no século XVIII, comenta que “sempre que os grandes guerreiam, o mais certo seja ver-se a arraia-miúda levar por tabela” (p. 67); sobre o crash bolsista de 1929, “É claro que as crises afetam mais uns do que outros” (p. 28); quando, a pretexto de pescadores que jogam às cartas depois da faina ou dormem nas dunas, nos atira “Às tantas, como alguém dirá, falta-lhes espírito empreendedor” (p. 29); ou, ainda, que a uma famosa atriz de cinema dos anos 60 “o mais certo seria o Sertão cair lhe em fraqueza” (p. 7). Poupar-nos a estas e outras, eis um favor que o autor poderia ter feito a si mesmo, mas não fez.


Título: “Os Filhos de Monte Gordo”
Autor: José Carlos Barros 
Editor: Fundação Francisco Manuel dos Santos 
Design: Inês Sena
Páginas: 109

A história de Monte Gordo precede em muito a existência de Vila Real de Santo António, mandada erguer em 1773 pelo Marquês de Pombal — e a máxima velocidade — como forma de “afirmação de soberania” face a Espanha e de “revitalização económica”, pela efetiva arrecadação da dízima e sisa da sardinha de Monte Gordo — pois a matrafisga, a fuga ao fisco e o contrabando favoreciam claramente “os elevados lucros dos castelhanos” (p. 65). O longo domínio filipino fortalecera a tal ponto a vantagem de andaluzes e catalães na exploração dos recursos piscícolas do sotavento algarvio, que mais de um século depois da Restauração o falajar corrente e a moeda padrão em uso continuavam a ser línguas espanholas e o real de a ocho (p. 69).

O absolutismo iluminado, todavia, não conseguiria obliterar de imediato práticas estabelecidas — fuga fiscal, venda clandestina e a liberdade de morar na praia —, levando os de Monte Gordo a recusar deslocar-se para novas e mais seguras construções na borda de Vila Real de Santo António, preferindo fixar-se nos areais de La Higuerita ou de outras praias e enseadas da margem esquerda do Guadiana (pp. 73, 75), donde partiriam as suas campanhas de xávega para o mar português. A transferência da feira franca de Monte Gordo e a trasladação do Santíssimo Sacramento para Vila Real, golpes finais do desmantelamento pré-urbano, marcou por décadas e séculos, “como ferida que não cicatriza”, as relações entre os dois aglomerados humanos.

De 1820 em diante a construção clandestina de cabanas voltaria ao velho areal de “mais de uma légua de praia” (p. 64), aumentando sempre, incluindo já muitos prédios de alvenaria com paredes de adobe e cobertura de telha, até que os primórdios e a consagração da “vilegiatura marítima” e dos “banhos salgados” (p. 13) em moda atraiu novos moradores, ainda que sazonais, algo que o desenvolvimento da indústria conserveira de Vila Real a partir de finais do século XIX muito exponenciou: “Monte Gordo, de súbito, é descoberta como praia de banhos e começa a ser frequentada por famílias alentejanas (montanheiros pobres e grandes proprietários do Baixo Alentejo), pela burguesia comercial e industrial da Vila e por uma elite ligada à política e ao sector dos serviços” (p. 15).

Na época balnear, pescadores locais começam por arrendar as suas melhores casas, iniciando um processo de “troca e substituição que, década após década, levará os marítimos ao abandono da zona central do aglomerado e da primeira linha de praia, e à edificação na periferia, em habitações […] sem títulos de propriedade, sem licenças assinadas” (p. 16), o tal Sertão. Esse ainda muito precário turismo traz-lhes, contudo, “recursos financeiros providenciais” em época de crise das pescarias portuguesas, ainda com arte-xávega, uma vez mais fustigadas pela atividade predatória de galeões espanhóis e a pesca industrial. Na década de 1920, chalés de burgueses, dois casinos, o Espanhol e o Peninsular, e o serviço de táxis de Samuel Sequerra para o apeadeiro ferroviário ou para Vila Real ajudam a mudar a paisagem urbana — à semelhança do que sucedeu no litoral a norte —, de aglomerado piscatório a estância balnear, “uma espécie de arrabalde chic de Vila Real de Santo António” (p. 26), capaz de atrair as famílias de Olhão ligadas à indústria conserveira que a guerra de 1914-18 enriqueceu, mas também proprietários rurais algarvios que venderam passa de figo para rações de combatente de diferentes países beligerantes (p. 32).

Em 1934 será inaugurado o Casino Oceano, projetado por Luís Cristino da Silva, autor, sete anos mais tarde, de um estudo de Urbanização da Frente Marginal, a que, todavia, José Carlos Barros preferiu não dar a merecida atenção. A guerra civil de Espanha e a segunda guerra mundial abrandariam o crescimento exponencial do turismo balnear: em 1954, seriam cerca de 1600 veraneantes, com estadas médias de 45-60 dias (p. 36). Porém, em 1956 o parque de campismo, e em 1960 o “grande hotel de luxo” Vasco da Gama, e alguns outros que lhe seguiram nos anos imediatos, afirmariam a vitória do turismo de massas, por um lado, e o cosmopolitismo da estância marítima, por outro. O livro começa precisamente por aí: em 1962, a atriz Ingrid Bergman a comprar postais, vinda “do almoço no Hotel Vasco da Gama, de beber vinho gelado e de comer ostras dos viveiros de Cacela Velha” (p. 7), alheada da dura vida dos cuícos do Sertão, ou Bairro das Areias, afinal, os filhos de Monte Gordo do título do livro, verdadeiro epicentro das atenções de José Carlos Barros — a quem o posterior, absoluto, irreversível desastre urbanístico deixou indiferente.