A falta de um período de transição para a independência, a guerra e a pobreza são os causas que o antigo dirigente da saúde em Portugal Constantino Sakellarides identifica como principais entraves ao desenvolvimento deste setor nas ex-colónias portuguesas.

Nascido em Moçambique, há 84 anos, Sakellarides começou a sua prática médica em Bárue, onde foi delegado de saúde, entre 1968 e 1970, e onde aprendeu a importância de ouvir as pessoas e a história que estas têm para contar.

Acredita que o facto de a independência nestes países não ter tido um processo evolutivo, impediu um período de transição, que permitiria aproveitar o melhor que ainda se tinha feito e sobre ele construir uma realidade nova, considerando a nova realidade política, a independência e os novos dirigentes.

Isso não aconteceu e o preço foi “enorme e sente-se hoje em toda a plenitude”.

A África do Sul, vizinha de Moçambique, teve “um senhor chamado Nelson Mandela, que não permitiu que isso acontecesse dessa forma. Mas Mandela era um homem sábio. E isso nem sempre foi possível”, afirmou.

E prosseguiu: “Em vez de haver uma transição que beneficiasse todos, houve uma rutura, que foi dramática na saúde”, com a saída de muitos profissionais que foram, aos poucos, substituídos.

“O sítio onde eu fui médico rural em Moçambique, nas décadas seguintes nunca teve um médico. Claro que se pode encontrar soluções intermédias, pessoas com algumas competências, etc, mas é um caminho tortuoso”, disse.

Além da falta de transição para a independência, Sakellarides identifica a guerra como entrave ao desenvolvimento do setor nestes países lusófonos, recordando que esta foi “altamente destrutiva”.

“Não só destrói, porque mata pessoas, destrói propriedades e recursos, como também afugenta as pessoas”, observou.

Como se não bastasse, a pobreza junta-se a este rol de desafios que há 50 anos estes estados enfrentam. Pobres e desprotegidas, estas pessoas facilmente ficam doentes, e como são pobres não conseguem pagar os cuidados que precisam, quando existem, adiantou.

“A pobreza, mais tarde ou mais cedo, causa revolta, a revolta provoca a destruição e depois os quadros vão-se embora, deixando o país ainda mais despojado, ainda mais pobre”, disse.

Para Sakellarides, a história atual é, de certa forma, dramática, agravada com os cortes dos Estados Unidos na cooperação internacional, que “têm um efeito tremendo”.

“Mais uma vez os mais pobres são altamente sensíveis às turbulências porque não têm infraestruturas mínimas para se aguentar. E nós perdemos isto de vista, porque já lá não estamos”, considerou.

O fundador da Fundação para a Saúde — SNS acredita que, apesar das dificuldades, há razões para ter esperança no futuro e que esse caminho deve começar pela criação de uma ligação às pessoas.

“Nós temos que ouvir as pessoas, sentir os problemas. É preciso ouvir as populações”, defendeu.

“Nós fazemos uma lei sobre unidades locais de saúde, outra lei sobre as Parcerias Público Privadas (PPP) na saúde. Não perguntamos a ninguém o que é que acham daquilo, nem explicamos o que é. Se nós explicássemos, às vezes víamos o disparate que fazíamos. Quando nos fechamos só na parte técnica, escapa-nos o que acontece quando aquilo choca com as pessoas”, disse.

Recorrendo à sabedoria do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, para quem “a esperança é a bela e eterna audácia”, Sakellarides sublinhou que é esta que permite “lutar contra a desesperança”.

“Não somos ninguém se não transmitimos esperança. Mas, claro, é uma esperança que tem que ser realista, uma esperança que leva à ação, não só à poesia”, referiu.

Para Constantino Sakellarides, há um conjunto de desafios que estão interligados e que determinam a forma como tudo avança e que depende do desenvolvimento económico e da qualidade das lideranças.

“Infelizmente, muitos países africanos que nos dizem alguma coisa em termos históricos, nem sempre encontraram a estabilidade das lideranças e as pessoas estão cansadas”, disse.

Se tivesse de resumir a história política da atualidade numa frase, diria que se vive “a revolta contra as elites”. E conclui: “É fundamental haver mudanças reais, mas continuamos a fazer isso mal”.