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Bob Vylan na estreia em Portugal: uma descarga punk rap que repetiu “morte às IDF”

Este artigo tem mais de 1 ano

A dupla britânica envolta em controvérsias, viu concertos cancelados e enfrenta uma investigação policial no Reino Unido. A primeira atuação em Portugal aconteceu na noite desta quarta-feira.

Foi o primeiro concerto dos Bob Vylan em Portugal — lá fora, vários espetáculos foram cancelados
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▲Foi o primeiro concerto dos Bob Vylan em Portugal — lá fora, vários espetáculos foram cancelados

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA

▲Foi o primeiro concerto dos Bob Vylan em Portugal — lá fora, vários espetáculos foram cancelados

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA

Numa altura em que o conflito no Médio Oriente está cada vez mais presente no espaço público e mediático em Portugal, e quando estava quase a ser anunciado um acordo de paz, eis que se estreou no país uma das bandas mais vocais sobre o tema e que tem estado no centro de uma série de controvérsias por causa das declarações que tem feito.

Os Bob Vylan são a dupla britânica de punk rap composta por Pascal Robinson-Foster e Wade Laurence George — embora ambos partilhem o nome artístico Bobby Vylan — que atuou pela primeira vez em Portugal na noite desta quarta-feira, 8 de outubro, no Lisboa Ao Vivo. Embora já tenham uma carreira desde 2017 e quatro discos no currículo, tornaram-se mais conhecidos quando, no final de junho, a par dos irlandeses Kneecap, aproveitaram uma atuação transmitida em direto na BBC no famoso festival de Glastonbury para para gritarem “morte às IDF”, as forças armadas israelitas — frase que também entoaram no concerto de Lisboa.

Essas e outras declarações — como os mais recentes insultos proferidos a Charlie Kirk a propósito da sua morte durante um concerto nos Países Baixos — levaram a que diversas salas de espetáculos e festivais em diferentes países cancelassem atuações do grupo. Várias entidades institucionais criticaram publicamente o discurso dos Bob Vylan e foi mesmo aberta uma investigação policial no Reino Unido para determinar se teria havido incitação ao ódio ou ofensas à ordem pública.

▲ Em Lisboa, o grupo tocou pela primeira vez um par de faixas inéditas

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA

Foi neste contexto que os Bob Vylan chegaram a Lisboa, num concerto promovido pelo seu tour manager dos últimos quatro anos, o português Jorge Felizardo, que em tempos fez parte dos Primitive Reason. Foi ele, justamente, quem subiu ao palco para apresentar a banda que acompanha na estrada — isto já depois do concerto de abertura de Scúru Fitchádu, com uma sonoridade enérgica e de fusão que se juntou a mensagens contestatárias.

Bandeiras, camisolas e lenços tradicionais da Palestina preenchiam a multidão de centenas de pessoas, lado a lado com T-shirts de bandas de rock, visuais punk, braços tatuados e cabelos pintados. Pessoas de muitas idades e de algumas nacionalidades no público. No palco, estava uma bandeira da Palestina afixada.

“Bob Vylan is killing punk rock” foi a frase projetada que deu o mote ao espetáculo. O vocalista Bobby Vylan apresenta-se como uma figura atlética e começou por fazer “alongamentos ligeiros e uma pequena meditação” em palco. Na sua retaguarda, instalava-se a outra metade da dupla, com o mesmo nome, sendo que todos os restantes instrumentos — nomeadamente a guitarra, que também assume protagonismo na música do duo — são reproduzidos a partir de uma backing track, uma gravação prévia.

À medida que iam interpretando temas, incluídos em discos como Humble As The Sun (2024) ou Bob Vylan Presents The Price Of Life (2022), projetavam mensagens políticas nas suas costas. “Precisamos de casas acessíveis para toda a gente”, “Tirem os fundos à polícia”, “Trabalhadores uni-vos” ou “Este país foi construído às custas de imigrantes” foram algumas das palavras de ordem transmitidas, entre outras que fizeram referência ao que a banda diz serem vítimas concretas de casos de injustiça social no Reino Unido.

▲ No final, a banda agradeceu ao público presente na sala Lisboa ao Vivo

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA

Visivelmente contentes com a receção e pelo facto de se estarem a dar a conhecer a um novo país — o que já não acontece muito, sublinharam, para uma banda com oito anos de vida e muitos concertos em diferentes territórios — a performance manteve sempre um tom de confrontação. “Nós somos os Bob Vylan, a banda mais fofa do punk rock, a banda mais amigável do rock’n’roll, a boyband mais violenta do Reino Unido, a banda mais importante da Grã-Bretanha. Viemos tirar-vos o vosso trabalho, alguém vai ser despedido”, atirou o vocalista, aproveitando ainda para enumerar uma série de alcunhas satíricas do grupo onde se incluía “os assassinos dos Metallica”.

“Vocês provavelmente sabem que nos metemos nalguns problemas recentemente”, atirou Bobby Vylan, criando uma ligação com o público à sua frente. “Obrigado por virem, quer tenham descoberto a nossa banda antes ou depois de Glastonbury. Nunca tínhamos estado em Portugal, ontem fomos surfar e vimos que alguém tinha escrito a marcador: ‘morte às IDF!’ Nunca tivemos um single de ouro nem de prata, mas temos um cântico que se tornou mundial e isso é mais importante do que tudo o que poderíamos alcançar musicalmente como banda. Morte, morte às IDF!” Depois, tanto o cantor como quase toda a sala, entoaram repetidamente a frase.

Mais tarde, afirmou que usou as “ferramentas do próprio sistema” para passar a mensagem em Glastonbury. “Acho que não somos nós que nos metemos em problemas, mas foi fabricado um turbilhão nos media e de certeza que entre nós estão aqui jornalistas à espera do soundbite, mas hoje não lhes vamos dar isso”, disse. “Às vezes, falo demasiado e parece que isso nos cria problemas.”

Porém, haveria de se referir à situação política portuguesa, mostrando-se indignado com os relatos que ouvira sobre a ascensão do Chega, “que já é o segundo partido em Portugal”, e estabelecendo pontes com o contexto internacional. “Nem me vou atrever a dizer a palavra em português, mas disseram-me que significa ‘enough’. ‘Enough’ de quê? De imigração, de pessoas negras, da Palestina livre?”, questionou, enquanto o público lançava apupos.

▲ Bandeiras, camisolas e lenços tradicionais da Palestina preenchiam a multidão de centenas de pessoas, lado a lado com T-shirts de bandas de rock, visuais punk, braços tatuados e cabelos pintados

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA

“Temos o mesmo problema lá em casa, no Reino Unido. Estas pessoas querem o seu país de volta… O seu país de volta? Estes países têm uma longa e profunda história de escravatura e colonialismo, que arruinaram as infraestruturas de muitos países. Agora, as pessoas vão à procura de encontrar um trabalho nessas terras”, disse, antes de cantar I Heard You Want Your Country Back, que aborda precisamente estas questões e confronta os movimentos autoritários de extrema-direita.

Num registo menos confrontacional, interpretaram Dream Big, apresentado como uma ode à sua independência artística. “Sempre fomos independentes”, “Temos a nossa própria editora” ou “Somos donos dos nossos masters” foram algumas das frases que voltaram a aparecer nas costas dos músicos, que depois dirigiram palavras ao público, dizendo-lhes para acreditarem nos seus sonhos e os concretizarem. “Se nós conseguimos, vocês também conseguem. Se quiserem fazer manchetes e ser grandes, também conseguem.”

À medida que os minutos iam passando, a energia na sala intensificava-se, a agitação espalhava-se, a temperatura subia no Lisboa Ao Vivo e várias T-shirts saltavam dos troncos. Uma versão inicialmente serena de Everybody Loves The Sunshine, de Roy Ayers, desembocou numa sessão de moshpit e headbang. Com a possante Wicked & Bad, um dos grandes êxitos da dupla, Bobby Vylan lançou-se em modo crowdsurf sobre as filas da frente.

Naquilo que disseram ter sido um dos “concertos mais divertidos” que fizeram nos últimos tempos, o grupo tocou pela primeira vez um par de faixas inéditas. A primeira, Sick Sad World, com uma toada mais hardcore, será lançada já na sexta-feira, 10 de outubro. Uma outra, ainda sem data prevista e cujo título ficámos sem conhecer, leva-nos numa viagem sonora mais próxima do rap e das cadências modernas do trap.

▲ “Queremos agradecer-vos muito por virem ao nosso concerto nesta altura, temos tido vários concertos cancelados, há diferentes organizações, grupos e até deputados britânicos a fazerem esse esforço”, disse o vocalista

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA

“Apesar de andarmos a lutar contra os media, contra a propaganda e contra o Estado britânico, temos estado ocupados a fazer música nova e vem aí um novo álbum”, disse Bobby Vylan. O espetro sónico da banda é particularmente eficaz, conjugando o bounce característico do rap, as texturas eletrónicas que bebem de toda a cultura londrina do grime e outros subgéneros, a cadência vocal do hardcore punk, as rajadas de cordas e a percussão rock, as vozes manipuladas que criam uma atmosfera envolvente para as letras combativas.

“Queremos agradecer-vos muito por virem ao nosso concerto nesta altura, temos tido vários concertos cancelados, há diferentes organizações, grupos e até deputados britânicos a fazerem esse esforço”, insistiu o vocalista. “Tudo por causa da nossa franqueza, do nosso apoio inabalável ao povo palestiniano. Tentam mandar-nos abaixo, mas não vamos desistir. Vamos continuar aqui contra as forças ocupantes e os agentes de terror em todo o mundo, contra a supremacia branca, contra aqueles que querem criar divisões neste mundo… A London Met, a NYPD, as IDF… Não nos vamos silenciar perante um genocídio e a injustiça, nunca. Podem cancelar os nossos concertos, tirar as nossas músicas das plataformas de streaming, podem tornar a mensagem mais difícil de passar, mas nos nossos corações vamos ser sempre as pessoas que vocês veem e ouvem aqui hoje. Vamos voltar e esperamos ver-vos a todos de novo, Lisboa”, concluiu Bobby Vylan.

“Se nos quiserem assassinar pelas nossas opiniões políticas, daqui a bocadinho vamos estar ali naquele canto a tirar fotografias, a dar autógrafos ou só a conversarmos um pouco, o tempo que for preciso”, disse o músico depois de já ter oferecido aos fãs das filas da frente as setlists “inúteis” que acabaram por não cumprir, com a inclusão dos novos temas. No fim, os Bob Vylan deixaram a tocar a banda sonora d’O Padrinho, de Francis Ford Coppola.

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