Um perseguidor da exatidão nos seus livros e um “pedagogo difícil” em casa, José Cardoso Pires foi esta sexta-feira evocado no Folio, numa conversa entre os editores e a filha do “escritor de Lisboa”.

Ana Cardoso Pires recuou esta sexta-feira à infância, ao tempo em que vivia num bairro dominado por defensores da ditadura Estado Novo e era apelidada de “a filha do comunista”, para “tentar trazer o escritor um pouco à vida”, numa altura em que “há uma grande dificuldade com a leitura de escritores mortos, porque não são mediáticos”.

A verdade, porém, sublinhou, “é que eles tiveram impacto na nossa história” e, no caso de José Cardoso Pires, cujo centenário se comemora este ano, esse impacto marcou também o percurso de Ana, que lembrou esta sexta-feira o pai como “um pedagogo difícil”, com hábitos de vida “diferentes da época”, e que educou as filhas sem discriminação “entre o que as meninas e os meninos podiam fazer”.

O escritor, que “não gostava particularmente de crianças, porque elas o interrompiam”, viu associada uma certa ideia de “agressividade” que, afinal, segundo a filha, “não correspondia à verdade”. Ele, “espingardava, crescia nas discussões”, mas, como lembra Ana Cardoso Pires, a família “teve sempre nele um grande defensor”, ao contrário de “outros, (cujos) miúdos apanhavam pancada, nessa época em que muitos intelectuais até batiam nas mulheres”.

Com “o Zé”, como a filha lhe chama, “nunca houve uma relação patriarcal”, mas em casa do escritor “de hábitos desregrados”, imperavam os silêncios. “Não se podia fazer barulho, mesmo de dia, por ele estava a dormir ou a escrever”.

O resultado foram 18 livros editados entre 1949 e 1997, a sustentar a opinião da escritora Ana Margarida de Carvalho de que “todos os escritores portugueses vieram debaixo do sobretudo de José Cardoso Pires”.

Para a estudiosa da obra do autor de O Delfim e A Balada da Praia dos Cães, a quem foram atribuídos os epítetos de “escritor de Lisboa”, Cardoso Pires era “um perseguidor da exatidão”, um adepto da “escrita no osso”, sem adjetivação a mais ou a menos, e que “revia até à exaustão” as provas dos seus livros.

Cem anos depois do seu nascimento, a Relógio d’Água está a reeditar toda a obra de Cardoso Pires, que “consegue ainda ser muito interessante para as novas gerações”, disse no Folio o editor Carlos Vasconcelos, presente na sessão com Francisco Vale, fundador da editora.

Para ambos, o autor de Lisboa —  Livro de Bordo e A Cavalo no Diabo tem uma escrita “muito imagética”, o que justifica a adaptação ao cinema de Lavagante, por Mário Barroso e António-Pedro Vasconcelos (argumento), filme em exibição nas salas, à semelhança do que já antes tinha acontecido com O Delfim, dirigido por Fernando Lopes, e A Balada da Praia dos Cães, por José Fonseca e Costa.

José Cardoso Pires publicou o seu primeiro livro, Os Caminheiros e Outros Contos, em 1949. Nos anos de 1950 foi preso pela PIDE, a polícia política da ditadura, depois da apreensão do seu livro de contos Histórias de Amor.

Em 1963 publicou Hóspede de Job, que lhe valeu o Prémio Camilo Castelo Branco, em 1964. Em 1968, foi a vez de O Delfim, considerado a sua obra-prima, a que se juntaram outros títulos como Dinossauro Excelentíssimo, crítica feroz ao salazarismo, A Balada da Praia dos Cães, Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, e “Alexandra Alpha”, Prémio Especial da Associação de Críticos, de São Paulo, no Brasil, entre outros.

Em 1995 sofreu um acidente vascular cerebral que o levou a ficar algum tempo em estado de coma, facto que retratou na obra De Profundis, Valsa Lenta, pela qual recebeu dois prémios: Prémio D. Dinis, da Casa de Mateus, e Prémio da Crítica, atribuído pela Associação Internacional de Críticos Literários.

Três anos mais tarde, novo acidente vascular cerebral, que viria a ser a causa da sua morte, em 26 de outubro, em Lisboa.

O centenário do nascimento do escritor tem sido evocado em algumas iniciativas pelo país, e foi esta sexta-feira assinalado no Folio com uma conversa que “para o Zé, teria mais valor do que comemorações oficiais”, disse à agência Lusa Ana Cardoso Pires. “É assim que ele gostava se ser recordado, nas conversas”.

Esta foi a primeira conversa do Folio Mais, no segundo dia do Folio, que até ao 19 de outubro cumpre a sua 10.ª edição, em Óbidos,

O Festival conta com três laureados com o prémio Nobel da Literatura: a bielorrussa Svetlana Aleksiévitch, o sul-africano J. M. Coetzee e o húngaro László Krasznahorkai, recém-galardoado.

Organizado pelo município de Óbidos, em parceria com a empresa municipal Óbidos Criativa, a Ler Devagar e a Fundação Inatel, o Fólio realiza-se desde 2015 na vila classificada como Cidade Criativa da Literatura pela UNESCO.