Depois de o apresentar como futuro novo membro da renovada grelha de comentadores da RTP Notícias, a estação pública recuou na decisão de contratar Gonçalo Sousa para um novo programa ao ter tomado conhecimento de comentários “inaceitáveis” por si feitos no passado.

Em causa está o facto de o analista político de 26 anos — comentador no programa Geração V da Rádio Observador — ter feito publicações de cariz polémico numa conta na rede social X, entretanto apagada, versando temas como o racismo, o sexismo ou as políticas implementadas durante a pandemia da Covid-19.

Fruto da nomeação da nova Direção de Informação da RTP, liderada por Vítor Gonçalves, e subsequente renovação da programação televisiva no canal de notícias da estação pública, Gonçalo Sousa foi um dos nomes escolhidos para participar ao lado de Joana Marques Brás — também membro do Geração V —, Henrique Pinto Mesquita, Rodrigo Moita de Deus e Susana Peralta no novo programa Estado da Arte, que conta com a moderação da jornalista Alberta Marques Fernandes.

O comentador, inclusive, surgiu ao lado de Marques Brás e Moita de Deus num vídeo promocional da RTP entretanto apagado.

A polémica entretanto instalada nas redes sociais quanto à presença de Gonçalo Sousa neste novo formato levou a Direção de Informação da RTP a recuar na decisão. Em resposta ao Observador, a comunicação da estação pública esclarece que esta “não assinou qualquer contrato com o comentador Gonçalo Sousa”, sendo que a Direção de Informação “ponderou e reviu a sua posição, após ter tomado conhecimento de alguns comentários feitos no passado pelo próprio”, considerando-os “inaceitáveis”.

Entretanto, os Membros Eleitos do Conselho de Redação-TV (MECR-TV) da RTP fizeram saber através de comunicado que tinham solicitado “com caráter de urgência, uma reunião com o diretor de informação, com vista ao cabal esclarecimento do assunto”. Os jornalistas que compõem este grupo sublinharam inclusive que “acompanham com preocupação o impacto que estas decisões e respetivas reações possam vir a ter na credibilidade e na perceção pública do novo canal de informação, a RTP Notícias”, e “consideram essencial que o Serviço Público de Media mantenha os mais elevados padrões de exigência, sobretudo numa fase tão sensível de afirmação de um novo projeto informativo”.

Gonçalo Sousa diz que publicações tinham âmbito humorístico e fazem parte do passado

Face a esta decisão por parte da estação, Gonçalo Sousa revelou ao Observador através de uma resposta por escrito que o convite para entrar em Estado da Arte existiu e partiu da “direção da RTP”, mas “não chegou a concretizar-se” e “nunca foi assinado qualquer contrato”.

Quanto às publicações em causa, o comentador classifica-as como “publicações antigas, com vários anos, feitas num registo mais sarcástico e humorístico, fora de qualquer contexto de análise política profissional”, atividade que entretanto veio a exercer.

No seu entender, “o facto de hoje esses posts serem usados como arma de arremesso político é um reflexo da democracia das audiências, onde muitas vezes o contexto é ignorado ou distorcido”. Afirmando que sempre defendeu “a liberdade individual e de expressão”, explicita que esta “naturalmente inclui o direito de dizer coisas com as quais podemos mais tarde discordar, que possam ser mal interpretadas, ou até que nos levem a refletir e a aprender”.

“Isso faz parte da vida e do processo de maturação de cada pessoa”, aponta, traçando um corte quanto à postura pública que antes tinha. “Quem acompanha o meu trabalho atual sabe que o faço com seriedade e respeito pelo debate público. Agradeço a todos, da esquerda à direita, que o reconhecem e me têm acompanhado nesse percurso”, não deixando ainda de desejar “os maiores sucessos” à RTP e à sua direção.

Além de comentador da Rádio Observador, Gonçalo Sousa é ainda detentor de três canais de YouTube onde reage à atualidade política nacional e que contam, em conjunto, com mais de 316 mil seguidores. Ex-militante do Chega, chegou a concorrer à Câmara de Oeiras em 2021 pelas listas do partido de direita radical.