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Sejam muito bem-vindos a mais um "PopUp", o vosso melhor serviço informativo sobre as coisas da cultura popular. Esta semana, Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Bocher Mendes, juntos à volta de uma mesa para falarmos aqui sobre as notícias na TV. E muito bem, tomamos como ponto de partida acontecimentos recentes. A atualidade, não sei se repararam, vai das acampadas à grande crise nacional de Cristiano Ronaldo, por exemplo. Mas a verdade é que poderíamos ter trazido o tema por muitas outras razões, noutra altura qualquer. É simples, a questão é se as notícias são coisa pop e, especificamente sobre a televisão, se têm poder, se já teve mais, se nunca o vai perder. Vamos andar por aqui e vamos começar pelo Pedro Bocher Mendes. Pedro, vamos contextualizar aqui um bocadinho. Vamos todos em conjunto, de mãos dadas, tentar perceber quando é que isto da informação e das notícias na TV passou a ser, ou começou a ser tratada, não sei se podemos dizer, de forma agressiva. Podemos eventualmente dizer de forma omnipresente, talvez. Quando é que aquilo que vivemos agora começou? Há um ponto de viragem?
Com Adão e Eva.
A história da rádio e da televisão é muito uma história das possibilidades que a tecnologia permite, passo a expressão.
Verdade.
Portanto, há quem diga que as chamadas breaking news, que eu acho que é disso que estás a falar, começaram com o caso Katherine Fiscus, em 1949, foi quando uma miúda de três anos ficou presa num poço e viria a morrer. E houve um tipo de uma televisão na Califórnia que disse: "Vai para lá, o repórter, e vai dizendo o que está a acontecer".
"Não deixe a bola cair".
Isso. Essa expressão, não sei se usou. Portanto, esta lógica de alguém estar a descrever o que se está a passar, mesmo não se estando a passar nada, é uma lógica que faz parte dos primórdios da televisão, porque, no fundo, havia essa possibilidade tecnológica. Depois há um outro caso mais recente, que teve a ver com a CNN, 1987, que é o salvamento de Baby Jessica. Quem for curioso dos estudos dos media, pode consultar. 1987, Baby Jessica, lá está. Outra criança que caiu também num poço, esta salvou-se. E a CNN em cima, começou, no fundo, a mostrar às pessoas que era possível ficar a assistir a qualquer coisa a acontecer, mesmo quando não estava a acontecer nada.
Exatamente.
O nosso primeiro canal de notícias a sério é a SIC Notícias de janeiro de 2001, portanto, já no século XXI. Antes tivemos a CNL, não sei se se lembram.
Sim.
Canal de vida breve, que pertencia à TV Cabo.
Canal de Notícias de Lisboa, por acaso?
Sim, pertencia à TV Cabo, Portugal Telecom. A TV Cabo é lançada em 1995. TV Cabo, televisão por cabo.
Sim.
Nós tínhamos antenas no telhado, ainda recebíamos as emissões hertzianas, para usar aqui a terminologia correta. E para convencer as pessoas a subscreverem o serviço de televisão, portanto, no fundo, pagar para ter televisão, vulgo TV a cabo, eles acabaram por fazer um canal de notícias, depois de já terem feito o célebre canal 18, não tem nada a ver com notícias, mas tinha conteúdos que interessavam às pessoas. Não é hoje o assunto. Esse canal foi um flop. A TV Cabo pediu à SIC, de Emídio Rangel, que fizesse um canal de notícias e foi lançada a SIC Notícias-CNL. Muita gente não reparou, mas as letras CNL faziam parte do logotipo da SIC Notícias durante muitos anos. Estavam muito pequeninas, assim algures. O primeiro grande evento da SIC Notícias foi o caso Manuel Subtil na RTP, que foi uma semana antes, acho eu. Portanto, a SIC Notícias ainda não emitia, mas houve uma pessoa que se barricou na RTP na cinco de outubro e a equipa da SIC Notícias foi simular uma transmissão. E depois, poucas semanas depois da SIC Notícias ter começado, dá-se o caso entre os rios. E aí a SIC Notícias começa a competir com os canais normais. Os canais normais também lá estavam em direto. TVI, SIC e RTP, não sei o quê, mas depois iam para a novela ou iam para o programa da tarde. A SIC Notícias continuava. E aí a SIC Notícias consegue impor-se como um canal de cabo, que é líder do cabo durante mais de 10 anos, acho eu. Ou até bem mais do que 10 anos, não sei. Era um dos poucos países do mundo civilizado onde o líder do cabo era um canal de notícias, que é uma coisa estranha. Porque supostamente as pessoas deveriam ver filmes, séries, entretenimento e o que fosse, e só iriam às notícias quando houvesse notícias diferenciadas.
Ou uma hora marcada, por exemplo, que era esse o hábito.
Ou uma guerra, ou o que for. E a SIC Notícias impõe um modelo que é mais uma construção da nossa memória do que propriamente a verdade. Porque a SIC Notícias tinha notícias, obviamente, de hora a hora, ou de meia em meia hora, como a TSF, o modelo era de TSF, mas depois também tinha muitos programas, tinha a caras notícias, tinha programas de cinema.
Automóveis, etc.
Hoje temos Bruno Vieira Amaral e Maria Ramos Silva, vão falar sobre
Sei. Bacalhau. Mas eram parelhas que falavam de uma forma amistosa. Não havia esta polarização, este stalking heads como há agora. Depois as coisas mudam verdadeiramente, na minha opinião, e é uma opinião muito pessoal que eu não vi ainda noutra decisão qualquer, quando a CNN arranca em Portugal ainda nos tempos do governo António Costa. E a competição entre canais de notícias dispara. Claro que no meio disto tudo há a CMTV, mas a CMTV fazia um tipo de jornalismo mais popular, mais o acidente de automóvel, a chamada desgraça, que é um jornalismo como outro qualquer, mas as questões magnas do país, os venturas e quem é que se vai candidatar às presidenciais, essas coisas, não era o essencial da CMTV e nesse sentido, ainda hoje o mercado não o considera propriamente um canal de notícias, mas sim um canal entre o que é um canal de notícias e um canal generalista. Tanto que a CMTV chegou a ter uma telenovela. Deixada de lado. Sim, por eles próprios. Só para acabar. Com a CNN, ainda nos tempos do governo António Costa, julgo que a CNN tem seis ou sete anos, é um bocadinho depois do Observador. O Observador tem 10, creio eu. 2014. Pronto. E a Rádio tem quantos? Tem sete. Pronto. Há uma aceleração da competição e ao haver uma aceleração da competição, a temperatura sobe e as discussões são mais intensas, há mais pessoas a discutir, há mais figuras. E este ecossistema, em resumo, que temos hoje, é um ecossistema que tem a ver com o aparecimento da CNN, depois mais tarde da Now. Maria Ramos Silva, as notícias que vemos na televisão e segundo este raciocínio e esta evolução histórica. Esta panorâmica que o Pedro aqui apresentou. Um fresco da história noticiosa. Dado este cenário, dada a realidade, as notícias são como acontecia quando nós éramos garotos e que no dia a seguir falávamos do episódio anterior da novela? São conversa do dia a seguir no café ou nem por isso?
Eu creio que tem, para a televisão ou não, há sempre esta dimensão folhetinesca, se quiseres, também faz parte da natureza humana, sobretudo quando é uma coisa com duração no tempo, nós vamos acompanhando mais ou menos, de uma forma ou de outra. Agora, eu acho que é interessante, porque fez-me lembrar, olhando para estes tempos, para a forma como tudo está a ser acompanhado, sobretudo do ponto de vista das televisões, que é isso que nos traz sobretudo aqui hoje. Todos nós nos lembramos daquelas imagens, as imagens e não só as imagens, a trabalheira que deram as claques nos anos 90. Aquelas organizações que também enchiam muito os ecrãs, que nos mobilizavam muito no sentido dessa tal polarização, que na altura se resumia ali ao futebol, mas não era só o futebol, obviamente. E de certa forma, isso foi sendo resolvido. Nós chegamos ao ponto até, eu tinha uns vizinhos de que eu tive no estádio que diziam uma coisa muito engraçada quando se falava de claques: "Não, nós não temos nada uma claque lá agora. Nós temos um conjunto de pessoas que por acaso cantam as mesmas coisas no mesmo momento." E que são muitos juntos e portanto só por grande má vontade se pode achar que estas pessoas qualificam para claque. Não, e eu acho que nós vivemos um pouco isso, com coisas que parecem manifestações e movimentações, não falo só desta em particular a que estamos a assistir, que parecem de facto muito orgânicas, mas que na verdade não são, têm ali dinâmicas que são até bastante estruturadas e que de alguma forma trazem consigo e expõem e manifestam também para lá de todas essas pequenas causas que querem verbalizar, uma grande ira que também tem a ver com essa questão do anger attainment, que nós já falámos aqui em outras edições, que é de facto o grande core de tudo o que é informação hoje. E é por isso que eu sinto que esse vazio, que essa tal deserção das claques, digamos assim, felizmente nos traz, é como se precisasse ter sido ocupado por novas manifestações na rua e não só.
Ou seja, tu achas que raiva também é um negócio?
Não, bad news is good news, nós sabemos disso historicamente, é uma velha máxima que não nos orgulha propriamente nós jornalistas, mas sabemos que isso vende.
Mas é humano, é biológico.
É, e não é só isso. É evidente que nós não queremos ver uma câmara 24 horas no Rossio parado. Quer dizer, queremos ver se há confusão.
O que é que está a acontecer.
Faz parte do ser humano, queremos ver o que é que vai acontecer a seguir. E portanto, estejam lá estas pessoas ou outras, a notícia nasce com o princípio da disrupção.
Sim, da diferença.
Pronto, se estiver tudo bem, nós também não estamos aqui provavelmente para nada. Agora, é evidente que isto depois esconde aqui camadas muito mais alarmantes do ponto de vista social, diria eu, mas nem é isso o fundamental. O que eu acho curioso, sobretudo e voltando à televisão, é como num mundo tão fragmentado, em que muitas pessoas consomem de facto a informação e ela nos chega pelas redes, a televisão continua a ser usada e continua a ser uma cola para esta continuidade informativa e continua, sobretudo, a ser essencial quando nós temos este protesto tão fragmentado, porque isto já está para lá do bejaminha de causas. Isto é mais do que arroz doce com polifonia, é uma coisa muito mais que está para lá de todos os temas. E quando tu tens necessidade ou vontade de declarar isto tudo, é muito curioso que em 2026 se continue a chamar a televisão e sobretudo se continue a agendar o pico do protesto para as vésperas do telejornal das 20:00. E portanto, eu acho que isto, de facto, é muito interessante.
Bruno Vieira Amaral, dado que vivemos neste, e falo também sobre esta firma onde estamos a gravar este programa, as coisas estão todas um bocadinho cruzadas Os jornais são multimídia e depois há rádios e a internet e há vídeo em todo lado. No meio disso tudo, como é que se mede o poder de um meio de comunicação e se a televisão continua a ter o poder que durante muito tempo lhe atribuímos, isso é uma coisa que vai continuar?
Como é que se mede o poder?
Quando eu digo poder-
Através das audiências, mede-se o alcance. É o que pode haver mais próximo de uma medição científica, apesar dos métodos também serem discutíveis, nomeadamente no caso das rádios. É sempre mais complicado. Como é que se mede? Hoje, se tu abrires, por exemplo, uma dessas redes sociais, o X ou o TikTok, se calhar consegues medir pela quantidade de vezes que vês um clipe, um reel reproduzido, partilhado, e percebes que a televisão continua a ter um poder enorme, porque muitos dos conteúdos mais virais, que são mais partilhados, vêm da televisão. E vêm da televisão, seja os bloopers, seja aquelas coisas: "Olha que o gajo disse uma asneira no direto." Pode ser um confronto, pode ser uma análise.
Pode ser uma frase de um comentador.
É muito variado. A televisão alimenta, e hoje talvez o sucesso e o poder da televisão se meça por aí, continua a alimentar ou alimenta muito as redes sociais. As redes sociais dependem muito dos conteúdos que são produzidos pela televisão e por outros meios. Aquilo que estavas a dizer, hoje os meios todos se confundem, têm de se alimentar uns aos outros, tens de estar em múltiplas plataformas que depois se canibalizam ou se alimentam umas às outras. Não podes ter só um jornal. Tu abres o site, e os sites já são fruto dessa tendência das multiplataformas, mas abres um site de um jornal em papel, como "O Público", e encontras já os podcasts. Não tens uma rádio, mas já tens uma série de conteúdos, que também são em vídeo, e que depois são facilmente partilháveis, não só nas redes sociais desses jornais, desses meios de comunicação, mas depois por todos os utilizadores. Eu acho que aí pode-se medir o poder ainda dos meios de comunicação tradicionais e, em particular, da televisão. Continua a ser bastante poderosa. Eu acho que também medes o sucesso, o poder da televisão, não só por aquilo que a Maria estava a dizer de marcares as coisas a pensar na hora certa em que poderá ter maior impacto.
Porque essa marcação significa que continua a haver uma predisposição e um hábito de: "Então vamos ver o que diz a televisão a esta hora."
Porque os meios tradicionais ainda têm peso. Não é que achamos que a internet-
Continua a funcionar.
E provavelmente vão ter mais.
Claro, tens um ecossistema à margem das televisões, que não depende das televisões para se afirmar. E as pessoas que vivem aí, de influencers, de criadores de conteúdos, que não dependem, de fato, da televisão. Mas aquilo que aparece na televisão ainda tem uma força própria que acaba por se impor a estas redes. E muitas das coisas que são feitas, por exemplo, agora nestas manifestações que temos visto da habitação, é pensar no impacto que isso vai ter na transmissão televisiva, na forma como os cameramen vão captar essa realidade. Há ali uma dose grande de encenação, de coreografia, nesses movimentos mais ou menos inorgânicos, mais ou menos espontâneos, a pensar ainda no efeito televisivo que isso terá, que hoje depois é amplificado através da partilha nas redes sociais. Mas se alguma coisa estes acontecimentos mais recentes nos têm mostrado, é que os meios de comunicação tradicionais, e especificamente as televisões, continuam a ter um enorme poder na divulgação e na fixação de determinadas imagens e de determinados conteúdos.
Pedro, eu vi-te a te movimentar, não sei se querias pôr um ponto final nesse intervalo.
É só para dizer que a televisão será uma das relações mais prolongadas das nossas vidas, pelo menos da nossa geração, e até pessoas nascidas mais tarde do que eu. Uma geração que começará com, não sei, três, quatro anos de idade e acaba, no fundo, no fim da nossa vida.
Quando acabar.
A televisão tem uma lógica cerimoniosa, um pouco como as missas ou os dias dos casamentos. Se nos convidarem para um casamento, nós não vamos de Havaianas e de calções. Enquanto que nas redes sociais, isso já seria possível. As televisões levam com muita má reputação por parte das pessoas. Já disse isto várias vezes, vou voltar a dizer, quando eu comecei a trabalhar em televisão, a primeira coisa que as pessoas me disseram é que já não viam televisão, me informavam que não viam televisão. É como se eu trabalhasse no vinho e as pessoas me dissessem: "Olha, mas eu já não bebo vinho." Eu: "Ok." E as pessoas acham mesmo que não veem televisão, mas é um pouco como acham mesmo que não comem coisas com açúcar, mas depois comem a bola de Berlim no verão, e depois comem um pouco do bolo de aniversário, e depois quando vão à casa da avó comem sempre o pudim que a avó fez, porque o pudim da avó é especial. Mas nada disso individualmente conta como açúcar.
Claro.
E a televisão é um pouco a mesma coisa. As pessoas já não veem televisão, exceto quando veem. E quando veem a televisão: "Ah, não, eu estou só a ver o jogo de futebol. Ah, não, estou só a ver a arruada ou a campada." Os próprios manifestantes, que são todos muito modernos e que já não veem televisão e: "Os meus filhos já nem ligam a televisão, etc.", na verdade, aspiram a que os momentos mais impactantes pinguem para as redes sociais, porque agora toda a gente tem uma câmera na mão, e esses vídeos das redes sociais pinguem depois para a televisão, onde são institucionalizados e são como que fixados na grande biblioteca da humanidade.
Ora bem. E validados.
Sim, exatamente. Portanto, se dá na televisão é porque é suficientemente importante.
É porque é importante. Claro.
E a televisão continua a ter esse papel. Esperemos continuar tendo durante mais algum tempo e eu continuar a ter emprego.
Ora, e mais nada. Final da primeira parte do "PopUp". Voltamos depois de um curto intervalo. Até já. E vai. Três, dois, um. Estamos de regresso ao "PopUp" com a Maria Ramos Silva, o Bruno Vieira Amaral e o Pedro Bouchery Mendes. Esta semana estamos aqui a tentar perceber se as notícias são coisa pop e se a televisão é quem mais ordena, no fim das contas. Pedro, vamos lá falar de negócios, que isto tudo se resume a negócios. As notícias são um bom produto televisivo em termos de números, audiências e outros termos técnicos que vocês lá na televisão usam, cujas palavras eu não me recordo.
Os canais de notícias atraem uma audiência mais qualificada. No fundo, pessoas com mais dinheiro pra comprar coisas. No fundo, pessoas que compram Mercedes e Nissans.
Relógios.
E não pessoas que compram o passe. Agora acho que o passe é a borla, mas faz de conta que seja um passe.
É a borla.
É a borla se tu andas a estudar, meu amigo.
Não é um passe qualquer, é a borla.
Não, em Lisboa, não.
Desculpem.
Olha aí.
Mas já foi mais caro.
Os passes dos comboios não é € 20?
Está bem, € 20 não é a borla, meu amigo. € 20 pra ti não é nada. Eu daqui a pouco estou no Rossio a pedir passes à borla.
A audiência dos canais de notícias é mais qualificada, o espectador tem mais educação. Como é que se diz?
Formação?
Sim, formação universitária.
Estudos.
Estudos, pronto. São mais masculinos.
São mais masculinos.
Por isso há tantos programas de futebol, de assuntos do futebol. Em princípio, no lar, a mulher vê novela, o público feminino vê novela, depois a mulher deita-se mais cedo que o homem. Isto é uma tipificação. E o homem fica a ver.
Só rapidamente, essa tipificação ainda é válida para quem trata-
Sim, é como aquela figura da cobra que come o seu rabo. As televisões fazem isso e as pessoas fazem isso porque as televisões fazem isso.
Certo, ok.
Mas evidentemente que o prime time nas televisões de todo o mundo, se destina a fixar o público feminino. Por isso é que nas séries, mesmo nas policiais, mesmo de maior ação, há sempre um enredo romântico. Sempre uma agente que está apaixonada pelo chefe ou alguma coisa do gênero. Lá está, porque tipicamente esses são os assuntos que mais interessam ao público feminino. Não fui eu que decidi, foi Deus Nosso Senhor, portanto não me acusem, não insultem, não interessa. Enfim.
Insultem, que nós queremos reações.
Estás apenas a tentar descrever como é que funciona o negócio.
Exatamente. Eu pessoalmente não concordo com nada disto, eu concordo com o que a maioria quiser, eu concordo, mas isto é o que se passa, tipicamente. Os canais de notícias, depois, é uma coisa estranha, porque têm uma capacidade instalada. No fundo, aqui com uma redação do Observador. O Observador paga salários às pessoas. Tem aqui uma redação. Tem que fazer qualquer coisa. E essa qualquer coisa é traduzir a realidade para as pessoas que vão, neste caso, ao site ou ouvem rádio ou estão na televisão. Portanto, o que está aí a acontecer? E acontecem coisas curiosas em Portugal que, como a economia não é muito forte e a economia dos media ainda é menos forte do que a economia em geral, as coisas que acontecem no país são tipicamente as coisas que acontecem em Lisboa, que é para não teres que pagar estadias aos jornalistas.
Claro!
É interessante que o jornalismo ia falhando até prestar de que houve em Leiria no início do ano. Porque é a cento e tal quilômetros daqui, é longíssimo, é Katmandu. E o jornalismo não se apercebeu logo do que se ia passar. Aliás, nem os políticos, porque, e faltou dizer isto na primeira parte, os políticos e seus assessores são os espetadores mais atentos dos canais de notícias. Também porque os políticos sabem que uma das formas de ganharem a vida quando deixarem de ser políticos, pode passar por serem comentadores nos canais de notícias.
Os políticos e, como diria o outro, o ecossistema.
A bolha, será que vamos voltar à bolha? Se calhar vamos.
Ih, saudades da bolha.
Se calhar vamos.
Um comentador obscuro, mais obscuro, à 01:00 a.m., porque os comentadores melhores não estão à 01:00 a.m., como é evidente, diz-
Mas pode-se começar aí uma belíssima carreira.
Pode, e deve. Diz qualquer coisa. Há sempre um assessor que vai dizer ao cunhado do outro assessor e chegará aos ouvidos do ministro. Se eu for comentador e disser que o Carlos Moedas devia andar no caratê ou não sei o quê, isso vai acabar por lhe chegar aos ouvidos. E isso tudo cria uma coisa que em Portugal o jornalismo sempre achou normalíssimo, que é a sua proximidade com os políticos. O jornalismo português fala as imensas coisas, imensos congressos e não sei o quê, mas a sua proximidade com os políticos, jantam fora, jantam uns com os outros, estão sempre ao telefone uns com os outros, nunca foi uma coisa que preocupasse o nosso jornalismo. Não estou a dizer que devia preocupar, atenção, estou só a pôr a hipótese. É um chamado "supõe". E, portanto, o canal de notícias tem que ter notícias. E como é que os canais de notícias fazem agora? Marcam-se uns aos outros. Portanto, imaginemos uma rua de restaurantes
De churrasqueiras, em que uma churrasqueira passa a oferecer ananás grelhado. Os outros, em princípio, vão passar a oferecer a mesma coisa se o ananás grelhado. Chama-se competição. É como as empresas de comunicações. Essa é um bocadinho diferente, porque há quem diga que é cartelizado. Pegando aqui nesta lógica do Pedro, imagina que tens uma rua com restaurantes só de peixe. Tu podes ser levado a pensar: "Bem, se calhar se eu abrir aqui um restaurante de carne, não tenho concorrência." Ou de massas. Ou de massas, ou um restaurante italiano. Se calhar é uma boa ideia. Mas depois começas a pensar: "Por que não há aqui um restaurante de massas, um restaurante italiano? Porque se calhar não funciona." Então, pelo sim pelo não, vais fazer o que os outros estão a fazer. Tentando fazer melhor. A guerra da Ucrânia foi um exemplo. Mas fazer o mesmo. Depois há outras coisas interessantes, que é: uma guerra longínqua é o pesadelo de uma administração num canal de notícias, porque os diretores editoriais querem enviar montes de enviados especiais e é caríssimo, só em termos de seguros. Só para arranjares um fixer. "Temos que mandar alguém para a Ucrânia, temos mesmo que mandar. Temos que mandar alguém, e um repórter." Isso arruína as contas de um canal de notícias também. Mas são um bom produto televisivo? São, porque é mais barato fazer noticiários do que telenovelas, por exemplo. Muito mais. Maria Ramos Silva, especificamente sobre o telejornal das 8:00 p.m., aquele em que nessa hora marcada o primeiro-ministro fala, não sei o que acontece. Já foi outra hora, atenção. Já foi outra hora. Mas ao mesmo tempo temos canais de notícias. Mas depois aqui isto também distingue-se um bocadinho entre a bolha, como tu estavas a dizer, e o mundo real.
Pronto, é aí que eu quero chegar. Eu tenho ideia, e não devo ser só eu, que 99,5% deste país durante o dia não está a ver canais de notícias, não está a ver televisão, se quer, está a trabalhar. E não trabalha no meio, não trabalha em jornais, não trabalha em televisões e, portanto, tem mais do que fazer. Dito isto, só para voltar um bocadinho atrás, eu acho que é muito interessante esta história da cobertura televisiva em casos como o que nós estamos a assistir nestas últimas semanas. Até porque os estudos sociais desde os anos 60, com as coberturas mais televisivas, midiáticas, com Vietnams e tudo mais, mostram-nos um dado interessante: é que na verdade, este tipo de cobertura acaba por ser mais benéfica até para o status quo do que propriamente para os manifestantes, o que não deixa de ser também um dado muito curioso para trazer aqui à equação. Eu acho é que se vive em tempos, e já falámos disso na primeira parte, de absoluta polarização. Nós temos o mundo completamente dividido aqui em barricadas e em termos de consumo, de experiência da informação, também estamos a assistir a isso de uma forma cada vez mais acentuada e perigosa quanto a mim, que é: parece que só temos os shorts da internet, temos os tais retalhos das coisas, dos epifenómenos, dos fediverses, o bastão que quase passou na cara, a pessoa gritou, não sei quantos rasgou as calças. É isso que nós estamos a viver. E depois temos uma coisa que eu acho que as televisões estão a fazer, e que também não me parece que seja altamente producente, é quase a imagem da televisão vertiginosamente em direto, 24 horas por dia, sem mediação, sem edição, sem escrutínio, sem jornalismo sério. Eu acho que nós precisamos, há aqui um vazio no meio. Estamos a perder esse vazio. Não é só a ideia do centro político. Acho que este centro também está completamente esboroado e nós parece que estamos votados.
O Isaltino acha a mesma coisa.
Pronto.
É verdade. Desculpa, Maria. Não, Isaltino forever. Eu acho que isto foi um bom momento.
Apesar de tudo, o próprio Isaltino é a imagem de uma pessoa que passa por um alto moderado nos tempos que corre, o que também diz muito sobre e de referência e de farol. Acho que isso também diz muito aquilo a que antes chegámos. Mas é muito isso.
Isaltino, farol de Oeiras. E não está a comentar nas televisões.
Está pontualmente.
Tem danado, até fala de restaurantes. E bem.
Isto, por exemplo, eu pessoalmente sinto falta e se calhar, não sei se é esse ritual quase cerimonial de que o Pedro falava, essa coisa que nos organizava os jantares de notícias das 20:00. Mas de facto falta aqui uma síntese entre estes dois planos que parecem absolutamente incomunicáveis e que nos parecem obrigar a escolher entre a torrente de informação permanente, em que se vê tudo, 24 horas da vida, quase como se fosse um reality show, que é aquilo que se está a transformar de alguma forma estes acampamentos. E depois os pequenos frames, que hão de vir ter conosco, se o algoritmo estiver para aí virado ou não. Quer dizer, tem que haver outra forma, julgo eu.
De abordar as questões.
Não, até do ponto de vista também de sobrevivência democrática. Eu acho que isto não é simplesmente um detalhe.
Sim, as consequências que tem.
Pois, acho que é mais por aí.
Bruno Vieira Amaral, outro grande tópico neste campeonato: os comentadores. Os comentadores que vemos nas televisões, nos painéis de atualidade e política, etc, já são estrelas pop? São, claro. Não há a mínima dúvida acerca disso. Será até um dos objetivos que leva algumas pessoas a querer ser comentador? Claro, à falta de saber fazer outra coisa qualquer, é mais fácil. Eu não sei muito bem como é que se processa o acesso ao lugar de comentador. Honestamente, não sei Nas televisões, vejo muitos especialistas e percebo que seja um pouco por indicações de alguém que conhece uma pessoa e que depois: "Provavelmente haverá aqui também já uma certa dose de profissionalização", ou seja, com agentes, pessoas que representam pessoas e que lhes tentam arranjar um lugar, porque este tipo é um tipo porreiro, fala bem e é formado em história, não sei o quê, ou é formado em direito pela Católica e tem umas ideias, ou é formado em relações internacionais. Portanto, acredito que haja até já uma certa dose de profissionalização. Não sei se essa profissionalização vai ao ponto de preparar a personagem, que eu acho que é o fundamental para o sucesso em televisão: ter uma persona televisiva.
É seres único de alguma forma.
Seja pela forma como tu falas, mesmo que provoque algum ruído, mas que seja identificável. É aquela história do nome do Schwarzenegger. Por que vais ter o nome do Schwarzenegger, um nome tão complicado? A partir do momento em que alguém decorar, já nunca mais se esquece do Schwarzenegger. E aqui é um pouco assim. Pode estranhar ao início, mas assim que entranhas a personagem, mesmo que tu estejas contra ou nunca concordes com aquela pessoa, o que interessa é que aquilo seja facilmente identificável. Tens que perceber rapidamente o que aquela pessoa pensa. Não podes ficar: "O que é que este guy, onde é que ele se situa?" Aquilo tem que ser claro.
Exato.
E mesmo que tenhas ali uma série de idiossincrasias, de particularidades, não faz mal, desde que: "É aquele tipo que carrega nos erres", ou "é aquele tipo que fala assim quando fala estrangeiro". Tem que ser identificável, uma persona pública televisiva facilmente identificável. E não sei se as coisas estão preparadas ou são preparadas a esse ponto de criar estas personas, mas sei que é isso que funciona muito bem em televisão, para além da capacidade de falar rápido e falar muito.
E de expor argumentos ou ideias.
De uma forma muito rápida. Às vezes nem é preciso expor grandes argumentos nem grandes ideias. É preciso falar muito rápido e muito pressa e dizer muitas coisas. O melhor exemplo que nós temos de sucesso nessa prática é o André Ventura. André Ventura é alguém que irrompe, já estava ligado à política, mas irrompe na consciência coletiva como comentador de futebol muito rápido, a dizer coisas que para a maioria dos espetadores seriam coisas completamente estapafúrdias, ou os adeptos de outros clubes sentiriam quase um ódio visceral por aquela personagem estar a dizer aquelas coisas, mas ninguém ficava indiferente, para usar aqui um chavão, porque a ideia é essa: é criares uma persona que não deixe ninguém indiferente. E quanto mais tu conseguires criar essa reação, maior será o teu sucesso, conduzindo-te quase inevitavelmente ao estatuto de figura pop, porque começas na televisão, mas depois acabas por estar em todo lado, nas redes sociais. Acabas por ser transversal.
Pedro Ramos Simões, esta análise de Bruno Vieira Amaral, escritor premiado, faz sentido com o funcionamento da televisão?
Sim, as televisões ainda se põem num patamar em que acham que as pessoas querem lá ir.
Certo.
Pronto.
E até querem.
Não digo que não. Vou telefonar ao Bruno Vieira Amaral para amanhã às 16h vir comentar o novo Prémio Nobel de Literatura.
Poesia checa.
Será que o Bruno iria? Ou o Bruno tem uma vida, nomeadamente estar com os filhos ou ir buscar os filhos à escola, que não lhe permitiria ir. E aqui começam as coisas. As pessoas que manifestam disponibilidade para ir em horários heterodoxos tendem a ter mais hipóteses de meter o pé dentro.
Pois claro.
Foi assim que aconteceu, por exemplo, com o Marques Mendes, que aceitava sempre ir comentar até se ter transformado no enorme sucesso de audiências no telejornal de domingo da SIC, no "Jornal da Noite", o que o levou a pensar que poderia ser eleito presidente da República. Recordo que Marcelo Rebelo de Sousa começou em 2000, precisamente no domingo em que o Sporting foi campeão, depois do jogo em Salgueiros, ficas a saber.
No Vidal Pinheiro, no mítico Vidal Pinheiro.
O Sporting ganhou.
Um clube que já nem existe.
Nenhum clube do Porto existe, exceto um clube. O que será? Se calhar é coincidência.
I don't think so.
E os canais de notícias tendem a querer pessoas que depois, no dia a seguir, são validadas pelas audiências. Portanto, eu posso achar tudo o que o Bruno disse, as pessoas falam bem, tem uma voz assim, Schwarzenegger, mas depois se no dia a seguir as audiências não forem boas.
Vais de vela.
"Ele fala bem, é o Schwarzenegger, mas as audiências, a malta não gosta dele".
Ou é indiferente.
Porque o mundo dos canais de notícias é muito competitivo. Quando eu digo competitivo é mesmo muito competitivo. Os responsáveis pelos canais de notícias trabalham 20 horas por dia, 365 dias. Trabalham mesmo, estão sempre ao telefone, sempre a tentar marcar uma entrevista. O Ventura aceita sempre. Mais uma entrevista com o Passos Coelho. E saem pouco fora do molde, porque a experiência diz a eles, canais de notícias, que sair do molde às vezes tem um preço alto. Por exemplo: "Vamos passar a ter um programa de livros todos os sábados às 11 da noite". Mas se há uma acampada às 11 da noite do próximo sábado, o que é que se faz? Diz-se ao Tiago Pereira do programa. Tu agora fazes um programa na RTP, no canal de notícias da RTP, certo?
Faço parte.
E o horário que vos arranjaram é um horário onde eles acharam: "Aqui não costuma acontecer grande coisa. Não vai acontecer nada às 2h da manhã".
Não, às 14h de domingo.
Mas eu agradeço.
14h15.
14h15 de domingo não acontece mesmo nada.
Acontece. Sentas-te no sofá depois do almoço e ligas a televisão.
Mas se houvesse um mundial de futebol e houvesse um jogo de futebol àquela hora, tens noção de que não haveria o programa.
Naturalmente.
Não é naturalmente.
A tua sorte é que o Benfica não joga às 14h.
Mas devia, porque muitas vezes vou ver a Premier League.
Voltando ao vosso programa, como o vosso programa não é sobre a atualidade noticiosa "hard news", não pode ser às 21h.
Num horário potencialmente instável.
Mas se calhar se fosse há cinco ou há 10 anos já poderia, porque o ambiente era muito menos quente e competitivo. Alguns comentadores dos canais de notícias são pagos, poucos são extremamente bem pagos, muitos não recebem nada.
Calculo que isso esteja à espera do momento em que passarão a receber.
Exatamente.
Deixe-me só dizer uma coisa, só para terminar. Isso está indexado às audiências ou ao prestígio da pessoa?
"Tiago, tu ficas aqui exclusivo conosco. Eu proponho-te, e o que eu te proponho é mais ou menos o que eu propus ao outro, que é um pouquinho melhor que tu, menos 100." Não há uma tabela. Há aqui um lado sucessivo.
Sim, e negociado. Tens que ser rápido.
Muito rápido para ouvirmos a Maria.
Já lá vamos ouvir a Maria.
Em relação a estas coisas que o Pedro estava a falar, depois as audiências. Claro, mas as audiências normalmente vão atrás destas personagens. É preciso teres o momento Irineu ou Milhazes, que é aquele momento em que uma pessoa que vês ali muitas vezes, mas passa um bocado ao lado e de repente, produz-se um clique e o Milhazes transforma-se num fenómeno. E de repente está toda a gente a dizer: "É aquele gajo, o Irineu. Então é aquele gajo, o Irineu do 'Não'." E o Irineu passa a ser uma presença. Aquilo que era um ectoplasma na televisão, passa a ser uma presença real, concreta. O Irineu é alguém que tem aquele tipo de opiniões.
Maria Ramos Silva, um minuto. O apresentador do "Telejornal", para ti, faz a diferença?
Não, eu acho que devia era fazer o seu trabalho. Sabes por quê?
Não gostas quando vai para além do seu trabalho.
Até me vou pôr aqui debaixo da mesa.
Não, acho que devia. Nestes últimos tempos tenho infelizmente visto algumas pessoas que eu acho que, desculpem, não estão a fazer exatamente o seu trabalho. Também estão a vestir, muitas delas, a camisola do ativismo, da militância, a servir de pé de microfone, ser um bocado eunucos na abordagem destas coisas, a fazer pouco contraditório quando devem fazer. Eu, por exemplo, para citar este caso mais recente, acho que se devia perguntar a algumas pessoas por que andam de cafias em protestos pela habitação, por que há bandeiras da Palestina em protestos pela habitação, por que não vejo, por exemplo, uma única bandeira da Ucrânia, um país que está há quatro anos sozinho numa Europa em decomposição absoluta e ninguém quer saber. Gostava que quando se convidam pessoas para a televisão, houvesse responsabilidade de confrontá-las com as barbaridades que dizem, muitas vezes não confrontam. Gostava que explicassem, por exemplo, que não vivemos propriamente num país fascista, pelo menos ainda, porque eu acho que num país fascista há uma série de coisas que não poderiam estar a ser feitas esta semana. E estão, felizmente, até porque é um ultraje para as pessoas que viveram em ditadura, que lutaram contra a ditadura e portanto, acho que é preciso ter um pouquinho mais de noção quando se trabalha com responsabilidade, que exige uma profissão como a jornalismo, porque senão qualquer dia as pessoas vão aos estúdios de televisão com espingardas e mascar tabaco e nós estamos a ver na televisão ou no ChatGPT ou noutro sítio qualquer e está tudo a acontecer tranquilamente. Se ainda cá estivermos, porque eu acho também vai ser para seguir se ainda cá estamos todos ou não.
Ora bem, e com esta nota de positividade, Maria Ramos Silva, muito obrigado. Chegamos ao final de mais um "Pop-Up". Já sabem que podem inscrever-nos para popup@observador.pt. Sigam-nos nas plataformas de podcast. Nós voltamos na segunda-feira com as sugestões da semana. Até lá.