O catalão Dani Torrent (1974-) desenhou em 2018 Los cuentos que nunca nos contaron de Myriam Sayalero, uma revisitação de contos populares de todo o mundo sobre mulheres corajosas, dois anos antes de dar a público Viagens de Comboio em Primeira Classe. Este é o primeiro dos seus trabalhos como ilustrador infanto-juvenil impresso em Portugal, um livro apenas entre uma mão cheia de outros, que incluem até versões dos clássicos Robinson Crusoe de Daniel Defoe e de As Aventuras de Tom Sawyer de Mark Twain, em 2016 e 2017, além de obras em parceria com outros escritores.
Um prémio recebido, o Hiibrand Internacional de Design, terá acelerado a sua rápida versão portuguesa, embora se possa dizer que teria sido ideal que a Orfeu Mini o lançasse em simultâneo com Tami, o Maquinista, que em 2021 Torrent ilustrou sobre texto da roteirista de televisão Núria Parera e se destacou em vários certames internacionais.
Título: “Viagens de Comboio em Primeira Classe”
Texto e ilustrações: Dani Torrent
Tradução: Helena Pitta
Editor: Orfeu Mini
Páginas: 72
Podemos não só imaginar que — digamos assim — o encarrilhou bem para a história seguinte, que é a do livro que temos nas mãos, como os dois livros se atrelam um ao outro pela incidência dos temas escolhidos: a história do maquinista visou fazer “enfim” (sic) um negro protagonista principal de literatura para crianças, e a viagem de comboio da jovem Clementina Delpí outra coisa não faz que reivindicar a liberdade feminina a toda a velocidade — a bisavó Clementina, a quem o livro é dedicado, viveu no tempo das sufragistas e das pioneiras da aeronáutica, e é nessa época que a narrativa se situa, como logo nos apontam a moldura arte nova dos títulos e o elegante chapéu largo e o vestido de seda verde-hortelã da personagem.
O tal comboio da História passa por aqui, obviamente. Dani Torrent, de resto também um pintor que faz do homoerotismo mais ou menos implícito tema e nicho comercial dos seus quadros, é ilustrador de enorme talento e técnica apuradíssima, cada uma das suas ilustrações resultando duma pacientíssima combinação de luz, sombra e cor, cujo efeito prodigioso merece a nossa atenção sem pressa (vejam-se, entre outras, as duplas páginas da tempestade e da galeria de arte no capítulo “Outono”).
▲ É preciso um pouco de tudo para se fazer um mundo, e os desenhos de Dani Torrent são do melhor que se pode admirar
A história do livro é a da viagem da jovem órfã que, cumprindo vontade do pai, parte em busca dum marido rico, e que ao longo do ano que o seu bilhete permite viajar em primeira classe, encontra nada menos que “o banqueiro, o general e o príncipe [que] tinham orquestrado a guerra terrível que arrasou o país e que acabou com a vida do seu pai”, os quais, seduzidos pelo seu “porte aristocrático e expressão lânguida” a procuram — em vão — seduzir a ficar nos seus resplandecentes e luxuosos domínios, acenando-lhe com as suas inesgotáveis riquezas. Clementina aceita todos esses convites, mas na manhã seguinte parte sempre, reencontrando — “mas é sempre o mesmo?”, reclamarão os petizes mais atentos… — o bagageiro Otto, o rapaz sardento e tímido que pressentira nela “uma jovem tão desamparada como ele”, e cuja ambição consiste em tornar-se maquinista.
Não vou contar o final feliz (que também não é o que, à primeira vista, se poderia pensar…), nem comentar o preconceito ideológico contra os poderosos deste mundo (desapontado, “o príncipe revia a sua colecção de pedras preciosas, mais preciosas para ele do que a vida dos seus súbditos”), aliás de presença consolidada nas primeiras leituras das gerações atuais. É preciso um pouco de tudo para se fazer um mundo, e os desenhos de Dani Torrent são do melhor que se pode admirar.