Na parede principal, ao alto, vê-se “Grande Planisfério”, um mapa-múndi com animais reais e inventados, figuras mitológicas e pontos icónicos, da Vénus de Botticelli no Ártico à Torre Eiffel em França. À direita, “Quatro alegorias a Portugal”, com representações locais e culturais do trabalho rural no País. E por cima da porta de entrada, todas as etapas da produção de um jornal em 24 horas: da chegada da notícia à impressão. Murais que Almada Negreiros pintou entre 1939 e 1940, a convite de Pardal Monteiro, o arquiteto Prémio Valmor que desenhou o edifício do número 266 da Avenida da Liberdade, sede do Diário de Notícias por 76 anos. E que a partir desta quinta-feira, 23 de outubro, servem de cenário não para o vaivém de jornalistas, mas para aqueles que apreciam peças de roupa com qualidade e luxo — e não só.
▲ Três das quatro paredes da loja estão ocupadas pelos murais: "Grande Planisfério", "Quatro Alegorias a Portugal" e "Alegorias a Imprensa"
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
A Eleventy Milano, marca de quiet luxury italiana, abre a sua primeira loja própria em Portugal num ponto premium da capital, depois de quase um ano da inauguração do corner no El Corte Inglés. Pretende ser um espaço destinado não só aos clientes — que podem ir de empresários portugueses que preferem a discrição às elites estrangeiras, vindas de países como Brasil, Angola, Estados Unidos ou do Médio Oriente — mas também aos que queiram ver os murais de perto, desfrutar de um café com pastelaria italiana ou participar nos encontros, showcases, exposições e pequenos eventos que a loja planeia receber. O Observador visitou o espaço dias antes da inauguração, onde enormes mesas em travertino já estavam posicionadas entre as peças de roupa e os funcionários concluíam os preparativos para abrir portas.
A marca foi fundada em Milão em 2007 por Marco Baldassari e Paolo Zuntini e em 2009 foi reforçada com a entrada de Andrea Scuderi, com o propósito de oferecer um novo conceito de luxo: o quiet luxury, um conceito que alia discrição, contemporaneidade e peças made in Italy. Nos últimos anos, abriu lojas em refúgios da alta sociedade norte-americana na Florida e em pontos estratégicos do Médio Oriente, como o Dubai. Agora vem para Portugal, ainda antes de ter um espaço próprio em Espanha, por exemplo. Lurdes Cabral e Luca Nani, donos da franchising, que explicam que apesar da marca ter considerado outras cidades como Madrid ou Barcelona, “sentimos que o vínculo afetivo e identitário com Lisboa é mais forte”. “Esta decisão tem também uma dimensão pessoal importante: eu sou portuguesa, o Luca é italiano; partilhamos uma paixão comum pela elegância e pela arte, e temos uma ligação especial com Lisboa — uma cidade que nos fascina pela sua história, pelo seu ambiente vibrante e pela sua cena cultural emergente”, destaca Cabral, que considera que a cidade oferece uma “combinação rara” de “clientes locais exigentes e sofisticados, uma presença internacional em crescimento e uma comunidade artística e cultural em plena expansão. Todos estes elementos cruzam-se com a proposta da nossa loja — mais do que um espaço de elegância, um lugar onde a cultura e novas ideias se cruzam.”
▲ A loja foi decorada com mesas e expositores em travertino italiano. O pavimento original e as pedras estruturais pré existentes foram mantidos
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Para tal, procuravam um edifício com história e uma área considerável, que pudesse integrar um café e áreas de convívio para a realização de exposições e eventos. “A ideia era reinterpretar um espaço já existente, preservando a história e acrescentando-lhe um novo propósito”, destacam os donos. “O edifício é um testemunho notável do património artístico português, albergando pinturas murais de Almada Negreiros — obras raras e de elevado valor cultural. Desde o início, comprometemo-nos a preservar e integrar esses elementos com o máximo respeito“, dizem, reconhecendo que a manutenção e incorporação dos murais, dos revestimentos e da estrutura original representou “um desafio técnico”. Para compor o espaço, a escolha foi por materiais nobres, intemporais, e alguns vindos de Itália: travertino italiano, pedra natural, madeira de carvalho e aço escovado.
Café, matraquilhos e um espaço para arte e convívio
Desocupado e fechado desde 2016, o átrio que um dia viu entrar e sair jornalistas, funcionários e convidados do Diário de Notícias volta a estar de portas abertas a quem quiser comprar uma camisa ou beber um café. “Queríamos que qualquer pessoa — interessada em arte, elegância ou simplesmente curiosa — pudesse visitar, sentar-se e apreciar as obras de Almada Negreiros num ambiente sereno e inspirador. Essa abertura é, para nós, parte essencial do conceito“, explicam Lurdes Cabral e Luca Nani.
A marca já leva a ideia do lifestyle e da hospitalidade para outras boutiques à volta do mundo, mas aqui ganha uma reinterpretação de acordo com o contexto lisboeta. “O café não é apenas um complemento à loja, mas sim uma componente central da experiência em loja. Queremos que quem nos visita entre… e permaneça. Que contemple os frescos de Almada Negreiros, descubra a coleção com tempo, troque ideias, trabalhe, leia, ou simplesmente pare para relaxar. Essa decisão reflete também a nossa própria paixão: somos profundamente ligados à arte, à elegância e ao gesto de criar pontes entre universos”, dizem os donos.
▲ O café será comandado pelo chef italiano Andrea Berton. O espaço conta ainda com uma mesa de matraquilhos
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
O chef responsável pelo café é o italiano Andrea Berton, que passou pelo Mossimanns, em Londres, a Enoteca Pinchiorri, em Florença, e pelo Le Louis XV, do chef Alain Ducasse, no Mónaco. Atualmente comanda um restaurante em nome próprio em Milão e dá consultoria para projetos internacionais — a proposta é que o espaço gastronómico ofereça uma experiência tipicamente italiana, mas com um toque português, vindo a partir das propostas culturais, como exposições ou pequenos concertos de música. Além das mesas para o convívio, há também uma mesa de matraquilhos para jogar entre um café e uma prova de fato.
Luxo discreto, materiais exclusivos e ausência de preto
Peças inteiramente feitas em Itália, com o savoir faire tradicional e com materiais exclusivos, como a caxemira ou a vicuña — uma lã muito rara extraída no Peru e regulamentada por um tratado internacional, que atualmente é comercializada apenas pela Loro Piana. Expostos estão camisas brancas, casacos beges, blazers azul navy, coordenados de fato e calças cinza escuros. Não há padrões com logótipos, grandes fivelas ou etiquetas com o nome da marca, e uma única peça preta. Uma oferta específica para clientes de quiet luxury, que privilegiam a qualidade e a intemporalidade com uma abordagem minimalista.
▲ Os murais de Almada Negreiros servem de cenário para a exposição das peças em tons de bege, cinza e azul navy.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
A oferta em Lisboa será, à partida, de 70% de roupas masculinas e 30% de peças femininas — a marca ainda tem coleção infantil e uma linha de casa e lifestyle. A boutique terá também o serviço de made to measure, em que as medidas são tiradas no local e as peças confecionadas na Itália.
Assim, a Eleventy pretende atrair clientes portugueses, “um público que valoriza a elegância discreta e os materiais nobres”; o público internacional, que inclui “visitantes e residentes de várias origens — europeus, norte-americanos, asiáticos, africanos” e também a comunidade criativa, interessada por “arte e elegância”, explicam os donos da franchising. “É por isso que concebemos a loja não apenas como um espaço comercial, mas como um local de encontro, de partilha e de inspiração“.