A ficção científica ou de narrativa apocalíptica tem sido uma das minas de ouro do streaming. Exemplos recentes? Fallout (Prime Video), Silo (Apple TV+) ou Paradise (Disney+). Agora há Prestes a Explodir, que é uma longa-metragem mas que também pertence ao mundo do on demand caseiro. Por um lado, captou atenções porque é um filme de Kathryn Bigelow, que fez (entre outros) Estado de Guerra (2008), premiado com os Óscares de Melhor Filme, Realização e Argumento Original. Por outro, acrescenta mais drama a uma tensão mundial já dramática coisa que chegue. Além disso, ainda conseguiu pôr o Pentágono a comentar, numa espécie de defesa da honra. A ideia é a da mudança da ordem mundial e da reconfiguração inevitável do planeta. Mas como é que isto resulta em filme, discussões à parte?
O medo nuclear não é novo. E teve muita força na ficção após a Segunda Guerra Mundial, no clima de Guerra Fria, tanto na literatura, como no cinema e até na televisão (há vários episódios de The Twilight Zone que aqui mereceriam menção, por exemplo). O receio não é apenas da destruição e daquilo que está para vir a seguir (se é que algo está para vir). O pânico tem muito a ver com a forma como uma desgraça desta monta aconteceria. E poucas coisas causam tanto medo com o desconhecido.
[o trailer de “Prestes a Explodir”:]
Kathryn Bigelow realiza uma espécie de filme de guerra, que é diferente de todas as outras suas obras dentro do mesmo género. Prestes a Explodir começa com um míssil a ser lançado, vem de parte mais ou menos incerta e cedo descobre-se que irá atingir uma cidade dos Estados Unidos. Desconfia-se que é nuclear, não se suspeita de um inimigo apenas, mas de vários. Poderá ser, quem sabe, uma ação conjunta. E será isso realmente importante? Prestes a Explodir não é sobre a guerra no terreno, mas sobre as decisões, as ações, como agir quando se está prestes a ser alvo de um ataque que pode representar destruição total.
Este desconforto face ao que pode acontecer num futuro hipotético segue de mão dada com a produção que circula pelos operadores de streaming. Prestes a Explodir é menos do género “guerra” e algo mais colado à ideia genérica e contemporânea de thriller. E para esta definição de género muito contribui a forma como a história é contada. O momento que vai do lançamento de um míssil até ao eventual embate é vivido de três formas diferentes, com outros tantos pontos de vista. E assim que um termina, o outro começa, na mesma linha temporal, mas com outra perspetiva. É uma espécie de repetição que faz escalar a tensão a cada momento. E a cada novo olhar, a situação vai sucessivamente ficando mais real do que já estava.
▲ Anthony Ramos é o Major Daniel Gonzalez, líder do Fort Greely, base militar que tem por missão a deteção e destruição de ameaças externas em direção ao território americano
Isso talvez explique o sucesso de Prestes a Explodir na Netflix, a longa-metragem que lidera o top na plataforma nos últimos dias. Não é tanto o fim do mundo “de facto”, é a angústia da sua possibilidade a um palmo da cara. Há uma certa paranoia (dentro do filme e do lado de cá) e Bigelow entrega-se à ideia de que qualquer coisa que vá neste sentido — um ataque nuclear aos Estados Unidos — desencadearia uma guerra mundial que, provavelmente, terminaria em minutos. A ausência de um inimigo concreto torna tudo ainda mais aliciante (no pior dos sentidos).
A referência à Guerra Fria no início não é despropositada, mas é demasiado óbvia. Há um desconforto pelo desconhecido que vai crescendo, que é levado a um certo extremo. Se a série Dia Zero, também da Netflix, vier à memória (a história da produção protagonizada por Robert DeNiro era a de um “ataque sem precedentes aos Estados Unidos”), não será por acaso: Noah Oppenheim, um dos criadores e argumentistas de Dia Zero, é o argumentista de Prestes a Explodir. Há um tom muito próximo entre os dois objetos, ficção apocalíptica que quer equilibrar a respiração de quem vê com a rapidez do ecrã. Porque uma coisa é isto ir tudo pelos ares sem se saber; outra é estar ciente disso e comer-se informação à colherada.
Há aqui o aproveitar de um filão? Claro que há. Depois de uma pandemia, com guerras na ordem do dia e a ficção a dar-nos séries que se desenvolvem — ou começam — dentro de silos que protegeram uns quantos do fim disto tudo, é normal que o algoritmo se desvie e se concentre na ideia de making of do fim do mundo. Na essência, é isso que a realizadora procura: um making of do último dia.
▲ Idris Elba interpreta um sempre-em-movimento Presidente dos EUA
O que aconteceria se um míssil, vindo de parte incerta, cumprisse o objetivo de atingir o alvo, sendo o alvo uma das maiores potências mundiais? Bigelow e Oppenheim cultivam a incerteza. Prestes a Explodir trata de procedimentos, de personagens a lidar com a imprevisibilidade: Olivia Walker (Rebecca Ferguson, curiosamente, a protagonista de Silo), que na Situation Room da Casa Branca tenta manter a cabeça fria à medida que se apercebe de que tudo falha; o Presidente (Idris Elba) que não está disposto a retaliar sem algo concreto; Jake Baerington (Gabriel Basso), um conselheiro da defesa norte-americana, que explora todas as difíceis possibilidades que o momento exige; ou o General Anthony Brady (Tracy Letts), que quer acelerar o momento de contra-ataque.
O resultado final carece de subtilezas, como as vimos em Estado de Guerra. Falta o peso da história recente de 00:30 A Hora Negra (sobre a morte de Bin Laden). E nota-se a rudeza na forma como tudo se mostra. As apresentações das personagens têm uma dose mínima de informação (quase sempre relacionada com filhos, à procura do gatilho emocional fácil e óbvio) e, qual 11 de Setembro, também o Presidente Idris Elba está, como George W. Bush estava, com miúdos quando a realidade bate. Não está a tomar decisões numa cadeira ou dentro de uma sala de reuniões, mas em movimento, a gerir o inesperado com o inesperado da vida, em jeito de super-herói. Se no fim a sensação de inevitabilidade se mantém e se o desespero das personagens passa para o lado de cá, vai depender muito da disponibilidade de quem vê.