Imaginemos algo belo e simples, como uma flor. Imaginemo-la à nossa espera, numa florista. Imaginemos as mãos da florista, talvez um pouco massacradas pelos espinhos, a adorná-la num arranjo e a borrifá-la com água, para ficar mais vivaça. Imaginemos a flor vestida nas nossas mãos, massacradas com outros espinhos, e o nosso olhar enfeitiçado pelo arranjo. Imaginemo-nos a fechar os olhos e a vê-la novamente na sua pureza original: mesmo dançando com os elementos que a adornam, continua a ser a flor que mais nos emociona, na sua exatidão bela e simples.

Silvana Estrada é essa flor e a sua voz, relíquia central de uma música feita de arranjos delicados, o átomo do nosso encantamento. “Onde não crescem flores não há campo / Onde não crescem flores eu não canto”, ouvimo-la dizer precisamente em Flores, uma das dez faixas do seu novo álbum, Vendrán Suaves Lluvias (“Que donde no crecen flores ya no hay campo (…) Que donde no crecen flores yo no canto”).

Na capa do disco, a artista mexicana de 28 anos aparece sentada num relvado, recostada numa cadeira ao sol, esperando que a chuva suave caia e se misture com a tristeza do seu rosto, para depois o limpar, regar e daí nascer outro jardim abundante em graça.

É nesta espera da dor, onde todos já nos sentamos depois do desespero e antes da folia, que Silvana Estrada compõe a música que dá corpo ao sucessor de Marchita, o seu primeiro longa duração com o qual ganhou o Grammy Latino de Melhor Artista Revelação, em 2022. Nessa altura, em conversa com o Observador, a cantora nascida em Veracruz explicava como Marchita era um disco a caminho da sanação, apesar da sua obscuridade.

Nesse aspeto, Vendrán Suaves Lluvias não é muito diferente. “Mientras todo el mundo duerme / Yo me trato de sanar (Enquanto toda a gente dorme / Eu trato de me sanar)”, canta em Como un Pájaro, faixa com um quase escondido aceno a Asa Branca, de Luiz Gonzaga, que põe novamente Silvana Estrada na rota dos Grammys Latinos, nomeada para Melhor Canção Cantor-Compositor.

Porém, ao contrário de Marchita, o novo álbum é luminoso e até jovial na sonoridade. Cada canção é uma fatia de dor cantada de guitarra ao colo e com arranjos orquestrais redondos, assinados por Owen Pallett. A ferida aberta de Marchita faz-se agora crosta, deixando evaporar uma certa leveza que antes estava presa entre os dentes. Cada día te extraño menos, primeiro tema do álbum, termina com uma pequena risada, já depois de a guitarra se calar. A canção prepara-nos para a essência do disco e para aquilo que Silvana Estrada nos quer dizer: “Aunque me duela, continuo a sorrir, continuo a cantar”.

Há momentos em que somos empurrados para o devaneio, como em Good Luck, Good Night, um bolero de toada dramática, exagerado como deve ser qualquer bolero que fala de corações despedaçados; outros, de um merengue açucarado de Juan Luís Guerra, como em Lila Alelí, ou de uma pop cheia de graça, como em Dime, dão-nos vontade de dançar descalços; e ainda há os que são um abraço próximo, como Tregua, tema em que a trompete traz o choro de Chet Baker para o disco e nos mostra uma Silvana Estrada a passear-se segura pelas influências que fazem dela uma compositora de mão cheia.

A sua música tem melodias vindas da tradição do jazz, que fez parte dos seus estudos académicos, moldadas por uma infância na qual o canto sempre foi livre e absoluto, ou não fossem os pais de Silvana músicos clássicos e construtores de instrumentos de cordas. Tem também a risada da pop e muita da alma ranchera de Chavela Vargas, figura central neste disco. Não só parte das canções foram compostas na Casa Chavela, antiga residência da artista em Tepoztlán, no México, que agora serve de residência para artistas criarem em conjunto, como foi a partir de uma entrevista antiga de Vargas que Silvana Estrada ganhou ânimo para voltar a compor, depois de um bloqueio criativo, de uma lesão na voz e outra, mais profunda, no coração.

“Como será de hermosa la muerte / Que nadie há vuelto de allá (Como será bonita a morte / Para ninguém ter voltado de lá)” foram as palavras que ajudaram a mexicana a lidar com o luto pela morte de um dos seus melhores amigos, Jorge, e o irmão deste, Andrés, ambos assassinados na Cidade do México. Às palavras de Chavela Vargas, acrescentou os versos “Como será de frágil la suerte / Que siempre elegimos amar (Tão frágil é a sorte / Que escolhemos sempre amar)”. Nascia assim Un Rayo de Luz, oitava faixa do disco e a esperança a enformar-se novamente no cantar de Silvana Estrada, para quem o amor e a poesia são a flor da vida.

Não por acaso, o nome Vendrán Lluvias Suaves nasce de um poema da poeta norte-americana Sara Teasdale (1884-1933), There Will Come Soft Rains, onde natureza, morte e renascimento dançam entre si, tal e qual o canto de Estrada. Um canto que é trovão, estorninho e mimosa pudica.

Na reta final do álbum, em No Te Vayas Sin Saber, Silvana repesca o cuatro venezuelano, fiel companheiro de quatro cordas de Marchita, para logo depois terminar com El Alma Mía, cantando ao lado de outro companheiro de estrada, David Aguilar. É uma canção íntima, com raízes no canto cardenche, da tradição acappella mexicana, tão íntima que sentimos que Silvana e David estão a sussurá-la pertinho do nosso ouvido, para podermos chorar em segurança e chover em paz.

“Voy llorando, amor, yo voy llorando / Limpiándome la cara / Voy cansada, amor, ya voy cansada / Y aún así avanzo. (Vou chorando, amor, eu vou chorando / Limpando o meu rosto / Vou cansada, amor, vou tão cansada / E mesmo assim avanço)”. Com Silvana Estrada estamos sempre mais perto da cura. Avancemos, com os nossos espinhos e as nossas pétalas. O caminho da sanação pode ser belo e exato como uma flor.