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E se Bela Adormecida quisesse continuar a dormir?

Este artigo tem mais de 6 meses

Versões alternativas de três contos de fadas, com mulheres cheias de força e príncipes frágeis. Eis o que esperar de “Branca de Neve & Outros Dramalhetes”, que o São João estreia nesta quinta-feira. 

"Estas mulheres são muito fortes, à partida, dentro dessa dificuldade que têm em ultrapassar as questões. Walter Benjamin dizia que as peças do Walser começavam onde acabavam os contos. Portanto, se houvesse mais vida além dos contos, ela estaria aqui”, diz o encenador Nuno Carinhas
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▲"Estas mulheres são muito fortes, à partida, dentro dessa dificuldade que têm em ultrapassar as questões. Walter Benjamin dizia que as peças do Walser começavam onde acabavam os contos. Portanto, se houvesse mais vida além dos contos, ela estaria aqui”, diz o encenador Nuno Carinhas

▲"Estas mulheres são muito fortes, à partida, dentro dessa dificuldade que têm em ultrapassar as questões. Walter Benjamin dizia que as peças do Walser começavam onde acabavam os contos. Portanto, se houvesse mais vida além dos contos, ela estaria aqui”, diz o encenador Nuno Carinhas

É já nesta quinta-feira que o Teatro Nacional São João, no Porto, estreia uma nova produção própria, em cena até ao próximo dia 14. Chama-se Branca de Neve & Outros Dramalhetes, tem dramaturgia e encenação de Nuno Carinhas e nasce da junção de três poemas dramáticos do escritor suíço Robert Walser, alusivos a figuras clássicas dos contos de fadas: Gata Borralheira, Branca de Neve e Bela Adormecida. Só que esses contos tradicionais surgem em versões alternativas, com as histórias a tomarem outros rumos e as personagens a assumirem outras identidades, questionando-se sobre temas como a liberdade ou a busca da felicidade.

As heroínas ali reconstruídas são mulheres “fortes”, ao contrário dos príncipes, marcados por uma certa fragilidade, descreve Nuno Carinhas, que assim regressa ao São João, sete anos após ter deixado a sua direção artística. Basta pensar que, enquanto a Gata Borralheira resiste ao príncipe, preferindo continuar sujeita às maldades das meias-irmãs, a Branca de Neve perdoa à madrasta ter tentado matá-la, e a Bela Adormecida barafusta por ter sido acordada.

Nuno Carinhas considera todo esse universo bastante interessante: “Walser combate a adversidade criando anticorpos para ela, criando disposição para que acabe ganhando quem está a ser fustigado por essa adversidade, quem está a ser maltratado de alguma maneira. Estas mulheres são muito fortes, à partida, dentro dessa dificuldade que têm em ultrapassar as questões. Walter Benjamin dizia que as peças do Walser começavam onde acabavam os contos. Portanto, se houvesse mais vida além dos contos, ela estaria aqui”.

▲ Em "Branca de Neve & Outros Dramalhetes", o imaginário onírico transparece na cenografia de Pedro Tudela, “muito baseada no desenho e na cor, o que também nos retira de alguma realidade óbvia"

No entender de Carinhas, estamos perante uma obra bastante subversiva, até porque dá voz a personagens que pouco falam nos contos tradicionais de base. “E aqui é como se lhes tivessem sido outorgadas uma força e uma vontade de verbalizar aquilo que sentem.” Por outro lado, os três príncipes representados “ficam muito num estado de iniciação, como se fosse um estado de aprendizagem, mais do que um estado maduro e de aquisição de poder e de saber onde estão; os príncipes são mais frágeis do que as ditas princesas destas três fábulas”.

Nuno Carinhas conta que lhe foi sugerido abordar a obra de Walser e optou por juntar três histórias numa só peça, quando, por norma, é a Branca de Neve a mais adaptada. A esse propósito, lembra o filme homónimo de João César Monteiro, que em 2000 pôs meio mundo a falar sobre aquela tela negra, sem imagens. “Foi um escândalo cinematográfico, mas não houve muita atenção à obra do Walser”, recorda.

“Ainda estou noiva de mim própria”, diz a Gata Borralheira

“O teatro é como um sonho”, escreveu Walser (1878-1956), autor de romances, contos, histórias breves, ensaios, poemas e microgramas. Em Branca de Neve & Outros Dramalhetes, esse imaginário onírico transparece na cenografia de Pedro Tudela, “muito baseada no desenho e na cor, o que também nos retira de alguma realidade óbvia ou de uma reconstrução do que poderiam ser os palácios”, observa Nuno Carinhas. Ou não fosse Walser “um autor muito contemporâneo, por esta liberdade que tem de pensar e de escrever, esta liberdade poética que exerce e é rara”.

▲ A primeira personagem a pisar o palco, com o seu avental sujo, é a Gata Borralheira (Luísa Cruz), a quem se junta uma curiosa personagem masculina (interpretada por Alberto Magassela)

A primeira personagem a pisar o palco, com o seu avental sujo, é a Gata Borralheira (Luísa Cruz), a quem se junta uma curiosa personagem masculina (interpretada por Alberto Magassela). “Sou o Conto, da boca de quem sai tudo o que aqui é dito”, esclarece este último. Exibe um vestido longo e volumoso, que logo trata de despir (fica só de saiote), entregando aquelas vestes claras e cerimoniosas à rapariga, entre alusões ao amor e a um príncipe. “Os sapatos são de prata, mas leves como a penugem de um cisne”, atira-lhe.

De seguida, entram em cena três pajens (Joana Carvalho, Lisa Reis e Patrícia Queirós) e o referido príncipe (Paulo Freixinho), a quem é posta uma liga branca numa perna, sendo tema de conversa os “enfeites de noivado”. Quando se vê diante da Gata Borralheira e lhe pergunta “Já não me amas?”, ela hesita e responde, evasiva: “Amo a vossa magnificência, tão paciente e à minha espera”. A Gata Borralheira cedo se há de soltar do abraço do príncipe, muito embora ele lhe prometa “o reino”; e também o há de brindar com um beijo na testa, quando ele lhe estende os lábios. “Ainda estou noiva de mim própria”, diz ela. “Eu, junto de ti, não poderia sonhar.”

Já as meias-irmãs da protagonista surgem em vestes negras e vaporosas, longe das cores garridas a que costumam ser associadas. E eis a quem a protagonista manifesta o seu apreço: “Amo-as, a elas, que me tratam tão dura e austeramente. Estou apaixonada pelo imerecido castigo”. Também no que respeita aos figurinos, a cargo de Nuno Carinhas e Letícia dos Santos, se optou por um caminho menos tradicional. “Fomos atrás de outras referências, sem nunca perder todas as coisas que estavam para trás. Por exemplo, a Gata Borralheira, para mim, sempre foi óbvio que estaria na pintura de Paula Rego”, revela o primeiro, convicto de que a artista iria “adorar a personagem do Conto”.

▲ Ao longo de cerca de duas horas, os atores dão corpo a diferentes personagens das três fábulas

Já a Bela Adormecida é uma peça muito curta, que apresenta doze personagens, entre elas a ajudante de cozinha, o cocheiro ou a governanta que toma conta das crianças, todas interpretadas pela mesma atriz, Sara Carinhas, com recurso a diversos adereços. Ora, “nesta versão, toda a gente detestou ser acordada”.

“A quantidade de sangue que existe nos contos é assustadora”

O espetáculo Branca de Neve e Outros Dramalhetes está classificado para maiores de 12 anos, e Nuno Carinhas crê que é mais adequado a crianças do que as histórias na sua origem: “Ao longo do trabalho, fomos reler os contos, que são assustadores. A quantidade de sangue que existe em todos eles é assustadora. Ou porque se picam num fuso, ou porque há uma maçã envenenada e a rapariga adormece, ou porque o caçador vai para matá-la, mas depois mata uma corça…”

Ao longo de cerca de duas horas, os atores dão corpo a diferentes personagens das três fábulas. São eles Alberto Magassela (rei e conto), Joana Carvalho (Bela Adormecida, rainha, irmã e pajem), Lisa Reis (Branca de Neve, irmã, pajem e dama de honor), Luísa Cruz (Gata Borralheira e rainha), Patrícia Queirós (bobo, pajem e dama de honor), Paulo Freixinho (príncipe, príncipe estrangeiro e forasteiro), Pedro Almendra (rei e caçador) e Sara Carinhas (doze personagens que surgem em vídeo, esse ao cuidado de Luís Porto).

▲ Pedro Almendra e Joana Carvalho fazem parte do elenco

Branca de Neve & Outros Dramalhetes está em cena no Teatro São João até 14 de dezembro, às quartas, quintas e sábados, às 19 horas; às sextas, pelas 21 horas; e aos domingos, pelas 16 horas. No dia 6 de dezembro, a sessão conta com tradução em Língua Gestual Portuguesa e, no dia 7, há audiodescrição. Os preços dos bilhetes oscilam entre 10 e 16 euros.

Paralelamente, há dois filmes alusivos à obra literária de Robert Walser para ver no âmbito do ciclo “O Teatro Vai ao Cinema, O Cinema Vai ao Teatro”, uma parceria entre o São João e o Batalha Centro de Cinema, a poucos passos do Teatro, do outro lado da Praça. Na próxima terça-feira, o São João apresenta Institute Benjamenta, or This Dream People Call Human Life (1995), realizado pelos Irmãos Quay; e, a 12 de dezembro, é a vez de o Batalha receber Schneewittchen (2024), de Stanley Schtinter.

Outra proposta, agendada para o próximo dia 29, no São João, é Aqui poderão ouvir falar do escritor Walser!, uma conversa centrada na vida e na obra do autor, com Cristina Fernandes, Eduardo Calheiros Figueiredo, Isabel Castro Silva, Nuno Carinhas e moderação de Rui Manuel Amaral.

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