Há números que se leem depressa e há números que nos deviam tirar o sono. Os resultados das provas ModA de 2026 pertencem a esta segunda categoria, por muito que tenham sido apresentados como boas notícias.

É verdade que a Matemática subiu. Também é verdade que os alunos escrevem um pouco melhor. Só que, no 4.º e no 6.º anos, recuou precisamente a dimensão que segura todas as outras, a compreensão de textos. Os nossos alunos produzem mais texto e percebem menos aquilo que leem. Num sistema educativo, há poucas notícias mais graves do que esta.

Não falo de fora. Sou professor do 1.º ciclo e há anos que venho reparando e combatendo isso. Crianças que juntam as letras, que até escrevem frases arrumadas, mas que chegam ao fim de um parágrafo sem conseguir dizer o que leram. As ModA vieram pôr números naquilo que muitos de nós já sentíamos na sala de aula.

Antes de falar do problema, convém reconhecer o mérito. Durante anos, as provas de aferição foram mudando de formato, de escala e de critérios. Cada edição era uma fotografia solta, impossível de comparar com a anterior, e passávamos o tempo a discutir subidas e descidas que podiam não passar de ruído.

As ModA acabam com isso. Assentam na Teoria de Resposta ao Item e no modelo de Rasch, o mesmo tipo de metodologia que se usa no PISA e no TIMSS. Recorrem a um banco de itens calibrados, que podem ser reutilizados de um ano para o outro, e mantêm fixas as linhas de corte entre níveis de desempenho. Dito de forma simples, um 52 em 2026 vale exatamente o mesmo que um 52 em 2025.

Com 514 402 provas realizadas este ano, temos finalmente aquilo que sempre nos faltou, ou seja, tendências. E as tendências não se deixam convencer pelo discurso político.

No 4.º ano, a compreensão de textos desceu de 53,7 para 51,8 pontos. No 6.º ano desceu de 51,4 para 49,5, ficando abaixo da metade da escala. No mesmo período, a produção de textos subiu 2,6 pontos no 4.º ano e 2,9 no 6.º. Também no PLNM A2 a dimensão de descodificar e compreender informação caiu, de 62,5 para 59,4.

O padrão não deixa grandes dúvidas. Melhora aquilo que se treina com estruturas e modelos, como a escrita. Recua aquilo que depende de uma leitura sólida e automatizada, como a compreensão.

E não somos os únicos a chegar a este diagnóstico. No PISA 2025, Portugal teve o pior resultado de sempre em Leitura, com 462 pontos, menos 15 do que em 2022 e menos 30 do que em 2018. O PIRLS, que avalia a leitura no final do 4.º ano, mostra há vinte anos um país que não consegue dar o salto. As provas nacionais e os estudos internacionais usam instrumentos diferentes e, mesmo assim, dizem a mesma coisa. O elo mais fraco é a interpretação.

Como escrevi há poucos dias no Observador, em «Ler e escrever, as fundações que não podemos dispensar», ninguém constrói um prédio de doze andares sem fundações. A interpretação é o último andar, e por baixo dela há dois pilares que não se podem saltar.

Primeiro, decifrar. A criança tem de aprender a transformar letras em sons e sons em palavras. A leitura não se apanha por exposição, aprende-se com ensino explícito e sistemático.

Depois, ler com fluência. Quem lê sílaba a sílaba gasta a atenção toda a decifrar e não lhe sobra nada para pensar no que está a ler. No diagnóstico de fluência leitora de 2024/2025, um em cada quatro alunos do 2.º ano lia menos de 51 palavras corretas por minuto.

Só então, interpretar. Localizar, relacionar, inferir e avaliar. É isso que as ModA medem, e é isso que está a cair.

Quando a compreensão falha no 6.º ano, o problema não começou no 6.º ano. Começou num 1.º ou num 2.º ano em que a descodificação e a fluência ficaram por consolidar, e em que o aluno transitou na mesma. Não é com mais fichas de interpretação que isto se resolve. Há muito que o defendo, e continuo a defender. O que resolve é o diagnóstico precoce, o ensino explícito da leitura e um tempo diário, protegido, para ler em voz alta.

A comparabilidade é a grande virtude das ModA. Acontece que uma régua comparável que mede mal continua a medir mal, todos os anos, sempre da mesma maneira. Por isso proponho duas mudanças que tornariam estas provas mais fiáveis.

No 4.º ano, a prova deve voltar ao papel. Aos nove anos, uma prova digital acaba por medir duas coisas ao mesmo tempo, a literacia da criança e a sua destreza com o ecrã e o teclado. Um aluno que lê bem mas escreve devagar no teclado perde pontos que nada dizem sobre aquilo que sabe. A isto junta-se a investigação. A meta-análise de Delgado e colegas, publicada em 2018, reuniu 54 estudos e cerca de 170 mil participantes e concluiu que um texto informativo se compreende melhor em papel do que no ecrã. Se o nosso ponto fraco é a compreensão, não faz sentido medi-la precisamente no suporte que a prejudica.

Em todos os anos em que se aplica, a prova deve contar para a nota. Uma prova sem consequências faz-se com menos empenho, e esse empenho desigual acaba por contaminar os dados. No 4.º ano, a taxa de realização ficou nos 80,5%, e a Matemática não passou dos 77,2%. Quase um em cada quatro alunos ficou de fora de uma prova que se diz universal. Um peso modesto na classificação final, algures entre 10% e 20%, chegaria para que alunos, famílias e escolas levassem a prova a sério, sem voltarmos aos exames de alto risco.

As ModA deram ao país um instrumento que não existia. Seria um desperdício usá-lo apenas para registar, com todo o rigor estatístico, o declínio que o PISA já nos tinha anunciado.

O caminho para a sala de aula é conhecido. Decifrar, ler com fluência e só depois interpretar, com metas claras no final do 2.º e do 4.º ano. Do lado da avaliação, temos de aproveitar o que já está feito e que está bem feito, e dar o passo seguinte. Isso significa dar às ModA peso na avaliação dos alunos e voltar ao papel no 4.º ano. A régua já existe. Falta afiná-la para que mostre, com fidelidade, aquilo que os nossos alunos realmente sabem.