Nos últimos tempos, muita gente me tem vindo a perguntar de onde é que veio o meu fascínio pelo espaço. A resposta mais “correta” a dar seria falar sobre a sua relevância para o futuro: “De acordo com a Agência Espacial Europeia, o mercado global de serviços e aplicações que dependem do espaço foi estimado em cerca de 490 mil milhões de euros em 2025” (1). Algo assim do género. E atenção, não é que às vezes também não responda algo por essa linha, ou com uma explicação algo mais para o racional. Mas, sendo completamente transparente, o meu primeiro instinto quando me fazem essa pergunta é devolvê-la: Como é possível não ficar fascinada?
Lembro-me de, em criança, ver num filme uma mensagem numa garrafa atravessar um oceano e dar início a uma história de amor. Durante anos, fui à praia com a esperança secreta de encontrar uma. Só idealizar essa possibilidade era suficiente para dar magia ao meu dia. Nunca encontrei nenhuma e, algures pelo caminho, deixei de acreditar que coisas assim aconteciam.
Mas, acreditem ou não, a Mariana de oito ou nove anos tinha mais razão do que a de vinte e poucos. Só andava à procura de magia no sítio errado.
Em 1977, a NASA lançou a Voyager 1 com o Golden Record – um disco com imagens e sons escolhidos para contar quem somos, caso alguma civilização o encontre um dia (2). Se pudesse voltar atrás, explicava à Mariana de oito anos:
“Afinal, a humanidade tinha mesmo enviado uma mensagem numa espécie de garrafa cósmica. E muito antes de nasceres. Com muito mais para contar do que um simples bilhete de papel: a história do nosso planeta inteiro. E mais: em novembro, será o primeiro objeto construído por seres humanos a ficar a um dia-luz da Terra, a quase 26 mil milhões de quilómetros de nós.(3) Lembras-te da garrafa e daquela declaração de amor no final do filme? Uma declaração como essa, enviada de lá, demoraria 24 horas, mesmo à velocidade da luz, a chegar à Terra.”
O espaço tem um poder que considero especialmente bonito: junta o técnico e o filosófico. “We are a way for the cosmos to know itself”, já dizia Carl Sagan. Parece poesia, mas há ciência por trás disto: alguns dos elementos de que somos feitos foram formados em estrelas muito antes da Terra existir.(4)
No fundo, somos parte do universo a tentar compreender-se a si próprio. E quanto mais aprendo sobre a exploração espacial, mais me apercebo de que ela também me faz pensar na forma como vivemos aqui na Terra. Sobretudo na dificuldade que temos, nas nossas próprias vidas, em aceitar aquilo que com tanta facilidade aceitamos no espaço.
Sabemos que na exploração espacial nem tudo corre bem à primeira. A SpaceX foi pioneira na recuperação e reutilização dos primeiros estágios de foguetões orbitais, mas o Falcon 9 começou por falhar duas tentativas de recuperar o primeiro estágio numa plataforma no mar.(5) Hoje, esse primeiro estágio pode regressar à Terra e ser usado noutro lançamento.
Aceitamos testes, falhas, adiamentos e mudanças de trajetória nas missões mais ambiciosas da humanidade. Mas exigimos a nós próprios e uns aos outros trajetórias lineares, como se experimentar, falhar, demorar mais ou mudar de planos fossem sinal de que alguma coisa correu mal.
E o mais revolucionário no Falcon 9 nem é a forma como parte, é conseguir voltar e ser usado outra vez. Ainda assim, o que fica na memória é o lançamento, com câmaras, contagens decrescentes e aplausos. Nas nossas vidas também damos muito valor aos começos: um novo projeto, um novo objetivo, alguma coisa para anunciar.
Olhemos para os satélites. Quando alguns dos que estão em órbita geoestacionária se aproximam do fim da sua vida operacional, por exemplo, devido à escassez de combustível, são enviados para uma órbita mais alta, chamada, literalmente, graveyard orbit. (6) Mas ficar sem combustível não significa necessariamente que o resto do satélite deixou de funcionar.
Através do in-orbit servicing (ou assistência em órbita), é possível inspecionar, reposicionar ou prolongar a operação de satélites que já estão no espaço. No caso do Intelsat 901, um veículo de assistência da Northrop Grumman (7) acoplou-se ao satélite e passou a assegurar as manobras com os seus próprios motores e combustível. Com isto, o satélite continuou a trabalhar durante mais cinco anos.
Portanto, afinal, a inovação também está em olhar para aquilo que já se encontra em órbita e em perguntar o que ainda podemos fazer com isso.
Acho que o mais irónico foi aperceber-me de como faço exatamente o contrário daquilo que tanto admiro. Próximo projeto. Próximo objetivo. Próxima versão de mim. Sempre um novo lançamento e nada de in-orbit servicing.
Foi esta comparação que me fez parar: antes de pensar no próximo lançamento, e se olhássemos para o que já está em órbita nas nossas vidas? Para o que precisa de ser reparado ou reabastecido? Para o que talvez mereça outra tentativa? Ou até para o que já cumpriu a sua missão e precisa de ir para a nossa graveyard orbit?
Não vou ser hipócrita e sugerir menos ambição quando eu própria não quero isso. Mas o espaço fez-me perceber que quero deixar de confundir chegar aos meus objetivos com ter de estar sempre a fazer mais alguma coisa. Recuperar, atualizar, descansar ou reabastecer o tanque pode ser precisamente o que nos leva mais longe.
Por isso, quando me perguntam de onde vem este fascínio, podia voltar à explicação mais racional. Mas continuaria a faltar aquilo que me faz sentir, que me apaixona. Quando penso no espaço, imagino uma extensão de possibilidades e perguntas por responder, onde até o impossível talvez queira dizer apenas “ainda não”. E, por cada resposta que encontro, mais perguntas surgem. Sobre o espaço e, pelos vistos, sobre mim própria.
Talvez seja por isso que, passados tantos anos, o espaço conseguiu devolver-me aquela vontade de ir à praia à procura de uma garrafa. E, à sua maneira, a voltar a acreditar em magia.
O Observador associa-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.