Não basta ser afinado para se saber cantar, da mesma forma que não basta ter um coração para se saber amar. As palavras têm sabor, textura, uma pulsação e uma respiração únicas e quem as souber provar, terá na sua voz a melodia e a mensagem intemporal de todas as coisas. Lisa Sereno percebeu isso bem cedo, quando começou a cantar com as amigas no coro da missa, aos domingos. “Adorava aquelas músicas”, comenta a cantautora de 32 anos, em entrevista ao Observador a propósito do seu disco de estreia, Belonging.

Nessa altura, Lisa — pseudónimo de um nome que prefere guardar — passava verões na Sociedade Artística Musical dos Pousos (SAMP) a experimentar instrumentos com outras crianças, enquanto em casa se encantava sempre que os pais punham a tocar o álbum The Köln Concert (1975), de Keith Jarrett. Havia também a guitarra portuguesa de Carlos Paredes e a lágrima periclitante ao primeiro arpejo: “Cada vez que ouço aquelas músicas, acho que vou chorar”.

Com o choro entalado na garganta, decidiu que queria estudar Canto Lírico, disciplina que a acompanhou desde a escola em Leiria até ao Conservatório, em Lisboa. “Há músicas antigas que são tão bonitas”, suspira, com a memória encostada a Aprés un reve, de Gabriel Fauré (1845 — 1924). Há outras músicas, não tão antigas, que também a marcaram, como as de Avril Lavigne, a playlist da adolescência que a pôs a sonhar com a possibilidade de vir a ser cantora e compositora. Entre o erudito e a MTV, Life’s like this, incoerentemente perfeita.

Mas foi só quando chegou à universidade, aterrada em Design Gráfico nas Caldas da Rainha, que começou a “levar essa missão mais a sério”: “Comecei a escrever com o objetivo de criar músicas. Nessa altura ouvi muito Sibylle Baier, Molly Drake, Angel Olsen, Mitski, Weyes Blood”, lembra Lisa Sereno.

Depois, a amiga Nádia Schilling lançou o álbum de estreia, Above the Trees (2017) — que Lisa “adora” — e tudo pareceu ficar ainda mais concreto. “Já tinha reunidas seis canções e fui à procura de produtores”. Fê-lo com as Golden Slumbers e Monday em mente e percebeu que ambas tinham um nome em comum: Miguel Nicolau [também produtor de Memória de Peixe e JP Simões]. “O Miguel foi a melhor pessoa que podia ter encontrado para trabalhar. Adoro o trabalho dele. Ainda bem que ele viu o potencial das músicas.”

Cantar com o cuidado das vozes antigas

Nascia assim Belonging, uma coleção de oito canções sobre a dor de um amor não correspondido, feito de feridas abertas, outras saradas de fresco, tão colado ao romantismo do século XIX como ao folk de raiz norte-americana e à dream pop de uns Beach House.  “Às vezes acho que é um disco demasiado pessoal e sinto-me exposta, mas acho que faz parte. Há coisas que até tenho vergonha de cantar, como a letra de Giver, mas é assim que as pessoas se vão conectar com o que eu canto. Sinto que esta é a minha missão, a de honrar os meus sentimentos e ser verdadeira.”

Talvez, neste desabafo, Lisa Sereno esteja a pensar em versos como “Keep me close with chains / for you I’d be well behave / like a faithful pet of yours / Call me dumb again / So I learn to hate you back”. [Mantém-me acorrentada por perto / Por ti eu vou-me portar bem / como um animal de estimação fiel / chama-me de parva outra vez /  para que eu possa aprender a odiar-te de volta]

“Nessa canção em específico falo de emoções que não queria guardadas em mim. É uma raiva misturada com dor e ainda bem que escrevi essa letra. Caso contrário, algumas dessas memórias seriam negativas”, refere, enfatizando o poder “terapêutico” que a música teve em si. Em certo sentido, é como se as palavras de Lisa Sereno em Giver, canção com perfume de Jeff Buckley e até de Linger, dos Cranberries, fossem uma súplica, tal e qual aquela que Jesus lançou a Deus, no Monte Calvário, Deus meu, por que me abandonastes?

Existe um espectro religioso por onde Belonging gravita, seja pelos arranjos de órgão, remetendo-nos para as missas celebradas com órgãos de tubo, seja pela polifonia e harmonia da voz e pelos louvores de Lisa “a alguém que não Deus”, nota: “Sou atraída pelos sons da música de culto e, de certa forma, posso comparar o que agora canto com esse canto de culto de igreja”.

A aura de Father John Misty, God’s Favorite Customer e pastor de outras igrejas, também se faz notar, bem como a gravidade de Chrystabell ou Fiona Apple na interpretação. É possível escutar Fool sem sentir o gosto a ferro de Shadowboxer? Cremos que não e é precisamente isso que faz da música de Lisa Sereno, habitada por santos e pecadores, um corpo tão magnético, por vezes etéreo e celestial, outras bem enterrado na lama e em todos os dejetos do coração.

Há também “o cuidado de cantar como as vozes antigas” cantavam, explica a artista, sabendo que o peso de versos como “Want to feel like I belong, I’m Alive / (…) Maybe someday, this feeling of pain / and emptiness inside me will be gone [Belong]” pode ser expurgado com a delicadeza de uma Audrey Hepburn a cantar Moon River nas margens do Mississipi. [Quero sentir que pertenço, Que estou viva / (…) Talvez um dia este sentimento de dor / e este vazio dentro de mim, desapareçam]

O álbum termina com My Loneliness, de guitarra acústica ao colo como as Broadcast em Tears in The Typing Pool, aponta Lisa Sereno como referência, e deixa aberta a porta para novas composições e para um segundo álbum. “Mesmo que eu tentasse ignorar a música na minha vida, ela volta sempre a mim”.

Belonging, disco com selo da editora de Leiria Omnichord Records — casa de culto muito bem frequentada por nomes como Surma, First Breath After Coma, Criatura ou Filho da Mãe — tem apresentações marcadas para o início de 2026: 22 de janeiro na Casa do Capitão, em Lisboa, 23 no Maus Hábitos, no Porto, e 24 no Salão Brazil, em Coimbra.

“Vai haver mais concertos ao longo do ano pelo país todo”, revela Lisa Sereno, que em palco estará acompanhada por Débora King nos teclados, João Hasselberg no baixo, Pedro Branco nas guitarras e João Sousa na bateria. “Recrutei esta banda incrível para tocar comigo nos concertos.” Por tudo aquilo que Lisa Sereno nos entregou com Belonging, arriscamos a dizer que muitas mais mãos, vozes e ouvidos serão recrutados para o seu universo musical. O sonho ainda só agora começou.