Questionado pelos jornalistas a acompanhá-lo na cimeira do G20 em Joanesburgo, na África do Sul, o primeiro-ministro do Reino Unido rompeu o silêncio e afirmou publicamente este domingo que André Mountbatten-Windsor deveria testemunhar perante o Congresso dos EUA sobre as suas ligações com Jeffrey Epstein.

Como aponta o Telegraph, Keir Starmer tinha até então mantido o silêncio em relação ao caso, respeitando o protocolo que o Governo britânico não deve criticar a família real em público. Todavia, tendo André renunciado aos seus títulos reais em outubro na sequência deste escândalo, o primeiro-ministro pronunciou-se pela primeira vez quanto ao tema.

“Não vou comentar o caso dele em específico. Mas, como princípio geral que defendo há muito tempo, qualquer pessoa que tenha informações relevantes relacionadas com este tipo de casos deve fornecer essas provas a quem delas necessita”, afirmou Starmer, que antes de ser primeiro-ministro e líder do partido trabalhista ocupou um dos cargos de topo de procuradoria judicial do país.

Frisando que a decisão de André “cabe apenas a ele”, Starmer reforçou que “quem tiver informações relevantes, deve estar preparado para partilhá-las”.

Em causa está o facto de André ter sido convocado a 7 de novembro pelo Congresso dos EUA a apresentar-se perante o principal comité de investigação da Casa dos Representantes para explicar a sua relação com Jeffrey Epstein, documentada em vários emails e outros documentos. Este comité, recorde-se, está a investigar as ramificações das atividades ilegais do empresário norte-americano, acusado de levar a cabo esquemas de tráfico sexual e pedofilia que alegadamente envolvem a participação de membros da elite política e social internacional.

O ex-príncipe tinha até dia 20 de novembro para se apresentar em Washington, o que acabou por não fazer. Não tendo o poder legal de forçar um cidadão estrangeiro a colaborar nesta investigação, os congressistas deste comité tentaram convencer André na convocatória recordando que se sabe que a sua relação de amizade com Epstein remonta a 1999 e que o seu nome surge em documentação financeira ligada ao empresário, assim como emails que este trocou.

Uma das revelações feitas esta semana, aliás, prende-se justamente com emails de 2015 entre Epstein e o jornalista Landon Thomas Jr onde é mencionado explicitamente que André terá tido “relações sexuais consensuais” com uma das funcionárias do magnata. Além disso, uma das vítimas de Epstein, Virgina Giuffre, acusou publicamente o ex-príncipe de abusos sexuais perpetrados quando ela era menor de idade e terá sido traficada pelo empresário. André sempre negou as alegações, mas foi esse acumular de provas comprometedoras que o levou a renunciar aos títulos reais.

Revelada troca de emails onde André Windsor é acusado de fazer sexo com funcionária de Jeffrey Epstein

Além disso, foi também já noticiado que André recebeu Harvey Weinstein, Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell no Royal Lodge — a sua residência oficial, que entretanto teve de deixar — em julho de 2006, dois meses depois da justiça norte-americana emitir um mandado de prisão contra Epstein.

Face à recusa de André em colaborar com o comité, dois dos seus membros — Robert Garcia e Suhas Subramanyam, ambos congressistas do partido Democrata — emitiram uma declaração esta sexta-feira onde afirmaram que o seu silêncio “diz muito”.

“Os documentos que analisámos, juntamente com os registos públicos e o testemunho de Virginia Roberts Giuffre, levantam questões sérias às quais ele deve responder, mas continua a esconder-se. O nosso trabalho irá avançar com ou sem ele, e responsabilizaremos qualquer pessoa envolvida nestes crimes, independentemente da sua riqueza, estatuto ou partido político. Faremos justiça às sobreviventes”, prometeram.

No que toca à postura do Governo britânico sobre as ligações entre André e Epstein, o Governo de Starmer rejeitou os pedidos para um debate em outubro sobre a possibilidade de retirar ao ex-príncipe o título que lhe resta, o ducado de Iorque, que só pode ser legalmente removido pelo Parlamento britânico — apesar de, na prática, André já não poder apresentar-se como tal, por decisão própria e por ordem formal do Palácio de Buckingham.