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Turnstile ao vivo no LAV: jubilosa agressividade

Este artigo tem mais de 6 meses

Já tinha o público conquistado antes de subir a palco, mas a banda mostrou porque é que se tornou num porta-estandarte da música punk para uma nova geração e uma banda sonora para a atualidade.

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Para todos os efeitos, os Turnstile não estariam na posição em que estão hoje — como muito possivelmente a mais popular banda de punk hardcore da atualidade — se tivessem cedido às pressões que Brendan Yates cantava na faixa-título do EP de estreia, de 2011, Pressure to Succeed: “Real hassle controlled my mind / I shot down my own dreams to avoid the pressure to succeed (“Grandes preocupações controlavam a minha mente / Eu destruí os meus próprios sonhos para evitar a pressão de ter sucesso”). Felizmente, nem ele nem a restante turma de Baltimore cedeu: dessa pressão saiu o diamante que se apresentou esta quarta-feira à noite no LAV — Lisboa ao Vivo.

Já explicámos antes porque é que o quinteto passou de ser um nome buzzy do hardcore para ser uma força que esgota salas como esta — que teve de abrir o seu maior espaço, normalmente reservado para convenções e eventos, para que coubesse toda a gente — e atrai públicos que normalmente não veríamos em espetáculos desta índole. Na fila que ia até à Avenida Marechal Gomes da Costa, apanhámos desde garotada a cantar Sabrina Carpenter a espectadores mais maduros que fizeram uma viagem de Espinho de propósito para estar aqui, passando pelos habitués indefectíveis do boné de banda e o corta-vento de marca que tanto estariam neste concerto como numa matiné de grupos locais. Já tínhamos tido um cheirinho do seu espírito ecuménico quando passaram este ano no Primavera Sound Porto, mas aqui tivemos a derradeira confirmação.

Para eles, o hardcore punk já não é suficiente. Os Turnstile querem o mundo

Resumindo: os Turnstile deixaram a ortodoxia do seu hardcore da costa Este dos EUA para paulatinamente se aproximarem dos terrenos do rock alternativo, da dream-pop e até de alguma new wave — isto, mantendo sempre a musculatura do ADN punk. A revelação surgiu com Glow On, que os colocou nas bocas de toda a imprensa musical e não apenas de quem se alimenta habitualmente de música pesada, ao que se seguiu Never Enough, lançado em junho deste ano. Em retrospetiva, deixando a poeira assentar, é um álbum menos inspirado do que o seu antecessor, repisando essencialmente os mesmos territórios sónicos, fora uma ou outra surpresa. Diga-se, aliás, que nem sequer é o melhor lançamento de uma banda da cena Baltimore deste ano — façam o favor de ouvir Wrong Side Of Heaven, dos End It.

No entanto, era exatamente o que o quinteto precisava, de um novo conjunto de canções na senda de Glow On que os consagrassem como a face mais acessível e hínica do punk hardcore. Seria imprudente não referir a evidência de que este seu sucesso foi auxiliado pelo facto da música pesada, em geral, estar a viver um comeback, principalmente junto de uma geração mais nova. Mas o que os separa dos demais é precisamente o que justifica o título caricato desta peça.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Os Turnstile oferecem um escape de agressividade desesperadamente necessário perante o caos e a incerteza da vida contemporânea, mas o som desde Glow On permite-lhes fazê-lo de forma a que a dosagem dessa violência fique à responsabilidade de quem os assiste. No LAV, houve muita gente entre moshes, two-step e cotoveladas amigáveis em lombo alheio — constatámo-lo em primeira mão, porque aqui existe a crença que este tipo de música atinge o seu ápice na vertigem de estar a apreciar um riff enquanto se evita um nariz partido. Mas também muitos outros estavam apenas a saltar e a dançar, às vezes até de formas que não esperaríamos neste tipo de concertos. Esse modo de estar mais pop, mais descontraído, deve-se a uma certa joie de vivre, quer por aplicarem ao seu som uma grandiosidade de rock de estádio nalguns momentos, quer por dar-lhe alguma candura brincalhona noutras — quer nas texturas limpas das guitarras, quer em batidas dançáveis que roçam até o reggaeton. Ambas as fórmulas suavizam os aspetos mais abrasivos deste género musical e tornam a banda mais palatável a outro tipo de público.

Podíamos incluir outros fatores que contribuem para a sua popularidade. O concerto para o TinyDesk da rádio norte-americana NPR e as escolhas estéticas que os ajudaram a tornar-se numa sensação no TikTok estão entre eles, tal como a sua postura humilde e inspiradora — além de um “free Palestine”, a mensagem política que Brendan Yates quis passar é a do papel comunitário da música, de que “concertos como este são formas pequenas, mas incrementais, de ter ferramentas para entender o mundo como não nos ensinam”. Mas tudo isso empalidece face ao óbvio ululante: é que os Turnstile são muito, muito bons ao vivo.

Quando abriram com Never Enough, já tinham o público na mão ainda a canção não tinha terminado, com Yates a limitar-se a virar o microfone para a multidão gritar o refrão em uníssono. No entanto, não se encostaram a essa vitória antecipada e suaram tudo o que tinham para suar, tal e qual tinham feito nesta cidade há 10 anos, algo que o vocalista recordou, lamentando tão prolongada ausência. Descontando os alinhamentos muito distintos — este foi essencialmente dominado pelos últimos dois álbuns — esse saudoso concerto na República da Música apenas leva este de vencida num aspeto: não havia as malditas grades, verdadeiro anátema do que se quer num concerto destes, com gente num corropio a subir e a atirar-se no palco, aproveitando para berrar parte das letras lado a lado com a banda.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Foi um problema menor face a tantas caras sorridentes e corpos suados, quer para dançar em Seeing Stars, quer para pontapear a pessoa mais próxima no par siamês de 7/Keep it Movin ou em T.L.C. Às vezes, ambos os modos surgiam em rápida sucessão. Ainda as pernas bambaleavam em I Care e já estava o baixista Franz Lyons — munido de uma camisola do Benfica (sabe pouco, sabe) — a ordenar com malícia no olhar a abertura de um enorme moshpit no centro da sala. Noutros momentos, o que se pedia era apenas braços no ar e gargantas afinadas, como para cantar as gloriosas Holiday e Mystery em conjunto. Em Fly Again, esvoaçando com os leads de guitarra espaçosos de Pat McCrory, foi pedido para que cada um colocasse o próximo às suas cavalitas, ao passo que, de seguida, passámos do ar para o mar, tal foi a quantidade de crowdsurfing que se viu em Sole.

O melhor resumo para como os Turnstile se moldaram para atrair pessoas de diferente sensibilidades está em Look Out for Me, tema que se inicia de forma relativamente habitual — no bom e no mau sentido — para a banda, com um riff hardcore filtrado pelas sensibilidades grunge de uns Pearl Jam antes de cessar a guitarrada e entrar num extenso outro de eletrónica ambiente a crescer para o techno, apelando a dança mais desbragada. O final, esse mais linear, deu-se com a já referida Mystery, com uma fulgurante Blackout — nunca nos fartaremos de como Daniel Fangs faz soar o cowbell neste tema — e com Birds, que assumiu uma dupla função: lançar uma última descarga e chamar toda a gente para o palco, barreira que se dane, para uma celebração do que é o hardcore: comunhão, porque “estes pássaros não foram feitos para voar sozinhos”.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Antes de Turnstile subirem a palco, tivemos oportunidade de experienciar o que tem sido a sua muito elogiável postura eclética de trazer consigo para tour bandas que não soam em nada ao que tocam. É por isso que tivemos o prazer — a honra, talvez — de ver a bizarria que são os The Garden, projeto de art punk dos irmãos gémeos Wyatt e Fletcher Shear. É preciso especial condão para, em 2025, ser capaz de subverter as expectativas do público sem que pareça algo forçado ou, usando linguajar atual, “trollagem”. Mas foi precisamente o que fizeram em temas como Horseshit on Route 66, Filthy Rabbit Hole, Ugly ou Thy Mission, onde vão com suprema confiança do punk de garagem ao drum and bass e ao breakcore, sendo que inexplicavelmente tudo aqui faz sentido. É desfaçatez de deixar um sorriso plasmado no rosto.

A abrir as hostilidades, os High Vis, uma das bandas mais entusiasmantes a sair do viveiro punk que é o Reino Unido, juntando uma atitude entre o Oi! e o hardcore — era ver o vocalista Graham Sayle em desenvolto two-step pelo palco — a um som algures entre o punk mais tradicional e o post-punk que os Wire estabeleceram em Pink Flag em Drop Me Out ou Out Cold. Pelo meio, algumas canções imprevisíveis como Mind’s a Lie, com uma deliciosa mistura de fúria britânica com UK Garage. A certo momento, Sayle mostrou-se incrédulo por ter passado de “tocar na parte de trás de pubs para milhares de pessoas um pouco por toda a Europa”. Lá está, com a dose certa de agressividade e alegria, tudo é possível.

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