Voltemos atrás no tempo. Foi num dia ameno de maio de 2015 que vimos na República da Música — reencarnação do Tuatara, icónica casa da contracultura no bairro de Alvalade, em Lisboa — um jovem projeto a levantar ondas no seu nicho do hardcore punk. Nessa altura, afirmavam-se como uma daquelas bandas que, neste microcosmo, não só soavam frescas como tinham o fator cool — era o tipo de concerto onde vale a pena ser-se visto para mostrar que se está a par. No entanto, todas estas considerações extramusicais só se justificavam pelo tipo de prestação que tiveram em palco, feroz e intensa — foi inclusive, necessária assistência do INEM, pois cabeças foram partidas —, feita de canções que dão, ao mesmo tempo, vontade de cantar e dar mortais de cima do palco para o público. Findado o concerto, olhava-se para eles com a sensação de que tinham futuro — frase que, passado uma década, parece um eufemismo atroz.

Em 2021, os Turnstile tiveram a sua explosão de popularidade com Glow On — álbum que lhes valeu três nomeações aos Grammy, uma digressão a abrir para os Blink-182 e um nível de atenção inédito para uma banda do seu estilo por parte da imprensa — foram presença recorrente nos tops dos melhores do ano — e, acima de tudo, do público. Tanto é que começaram a ter datas em festivais de espetro mais alargado, como o Coachella ou o Rolling Loud ou, num caso mais próximo da nossa realidade, o Paredes de Coura, onde foram um dos destaques da edição de 2022. Agora, o grupo de Baltimore regressa com Never Enough, para reforçar a sua candidatura ao estatuto de uma das maiores bandas rock do mundo — ou, numa interpretação menos aventureira, ao de um conjunto capaz de extravasar muito para lá dos limites à partida impostos sobre uma banda de hardcore.

[o álbum “Never Enough” está disponível no Spotify:]

Na antecipação a Never Enough, foram merecedores de perfis na Pitchfork e no The New York Times, estrearam canções deste seu quarto álbum ao vivo no programa de Jimmy Fallon na véspera do lançamento e acompanham o disco com um filme realizado por eles próprios e musicado pelas seus 14 faixas com estreia no festival de cinema de Tribeca, em Nova Iorque. Seguem-se atuações sonantes marcadas para ambos os Primavera Sound — sobem ao palco Vodafone no dia 14, no Porto — e em Glastonbury. Por outras palavras, este verão é mesmo capaz de ser deles, tal como Charli XCX prometeu.

O que faz dos Turnstile uma proposta tão aliciante em 2025? Pense-se no que é o hardcore punk, vertente sem uma tendência estilística única, mas comumente aceite como mais agressiva, mais intensa e mais desafiante do que o género que os Sex Pistols e os New York Dolls ajudaram a criar. Junte-se a essa matriz de vitalidade e nervo um conjunto cada vez mais alargado de influências como indie pop, rock alternativo e música eletrónica e temos a fórmula que a banda encontrou em Glow On e desenvolve agora em Never Enough. Há raiva de morder a língua, mas também beleza contemplativa; há música para andar à pera, mas também para dançar e para cantar de mãos dadas.

O quinteto chegou a este patamar para gáudio de muitos, mas também desprezo dos mais puristas, não só devido à sua explosão de popularidade e assinatura com uma editora major — o que lhes tem valido acusações de serem “vendidos”, um velho clássico nos círculos punk —, como também à conta do seu percurso criativo. Os Turnstile sempre tiveram vontade de extravasar barreiras estilísticas, nunca soando como uma banda “chapa 5” de hardcore nem caindo em fórmulas gastas. Também por essa razão, nunca foram inteiramente consensuais junto desta comunidade — capaz da maior das tolerâncias e dos espíritos de entreajuda, mas também dos elitismos e de estabelecer linhas vermelhas quanto ao que é ou não aceitável fazer musicalmente. Houve quem lhes torcesse o nariz desde o primeiro dia, tanto pela voz aguda de Brendan Yates — algures entre Ad-Rock dos Beastie Boys e Nick Hexum dos 311 —, como pela abordagem mais devedora ao rock alternativo dos anos 90. Tal é audível desde a sua génese, mesmo em canções dos primeiros EPs como Death Grip ou Keep it Moving com passagens limpas e/ou lamentos vulneráveis.

No entanto, tal como é possível ver uma transmutação no tipo de capas que foram empregando nos seus lançamentos — das tradicionais fotografias em contexto de concerto à imagem gráfica pastel dos últimos discos —, ouvindo os seus EPs e álbuns sequencialmente é possível ver uma banda a afastar-se cada vez mais da ortodoxia para abraçar sonoridades diversas. O álbum de estreia — esse mesmo que veio promover a Lisboa, em 2015 —, Nonstop Feeling, por exemplo, tanto teve funk rock à Red Hot Chilli Peppers em Can’t Deny It como a ode aos 311 que é Blue by You. No seguinte, Time & Space, os Turnstile começaram a experimentar com estruturas cada vez menos punk e com interlúdios ambientais e texturas eletrónicas, algo que exploraram ainda mais com Share a View, EP de 2020 onde remisturaram três dos seus temas com Mall Grab, produtor britânico de house e techno.

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O corolário de todo este percurso chegaria em 2021, com Glow On, definitivamente o álbum onde deram o salto, em mais do que um sentido. Se foi com temas como Mystery, Holiday, Blackout ou T.L.C. (Turnstile Love Connection) que deram-se a conhecer a mais pessoas do que nunca, foi também aí que a própria ideia de serem uma banda de hardcore começou a ser colocada em causa, tal foi a desconstrução do género que apresentaram, soando cada vez mais expansivos — até grandiosos, a espaços— e plurais, com Yates a cantar tanto quanto gritar. Tal não deve ser lido como uma queixa e sim uma constatação, já que é do melhor que alguma vez criaram, mas o que antes eram uma tendência minoritária na sua música, um gostinho a polvilhar o seu som de base,  acabou por tomar o todo. O mais notório dos exemplos é Alien Love Call, canção em colaboração com Blood Orange, alter-ego de Dev Hynes, pura dream pop sem qualquer vestígio do que antes os caracterizava.

Never Enough é um passo ainda mais decidido nesse sentido, um aperfeiçoamento do que Glow On trouxe sem se afastar desse modelo — a faixa-título antémica e Sole mimetizam o que Mystery e Blackout fizeram no anterior. No entanto, canções como I Care e Seein’ Stars, new wave para o século XXI — com a segunda em particular a soar a um misto entre The Police e INXS — mostram uma vontade ainda maior de explorar o mundo extra-punk. Já o tema central do álbum, Look Out For Me, é o mais longo que já compuseram, com sete minutos onde metade consiste no para-arranca rockeiro que têm aperfeiçoado e a outra dá azo uma batida house contida e abafada, pontuada com um sample de The Wire — homenagem à cidade natal de Baltimore — e um assobio sonhador. Em Dreaming, ouve-se uma batida reggaeton e secções de sopro a acompanhar o refrão a par das cascatas de guitarras, ao passo que Time is Happening é puro pop punk e Magic Man fecha o disco com Yates a cantar apenas acompanhado de sintetizadores aéreos.

Claro que continuam a existir momentos de pura descarga. Birds, outro dos singles de avanço, é daquelas malhas que os Turnstile conseguem escrever a dormir — mas se fossem todas assim, não estaríamos a discutir as suas credenciais punk, mas se já tinham estagnado. É por isso que Sunshower — um dos destaques de Never Enough — começa num rasgo tresloucado, com percussão particularmente frenética de Daniel Fang, para terminar num serpentear da flauta de Shabaka, o ex-líder dos Sons of Kemet e The Comet is Coming. De resto, o músico britânico engrossa uma lista de convidados de alto nível que é outro indicador das pretensões da banda: A. G. Cook — um dos produtores de música eletrónica mais inovadores do nosso tempo — dá uma perninha em alguns dos temas, tal como os membros BADBADNOTGOOD, com quem já tinham colaborado no EP New Heart Designs. Dev Hynes também está de volta, tocando violoncelo na faixa título que abre o disco e cantando vozes de apoio em Seein’ Stars ao lado de Hayley Williams, dos Paramore.

Se este é um afastamento ainda mais pronunciado das suas origens? Sem dúvida, o que é ainda mais interessante tendo em conta que Brendan Yates ainda hoje é o baterista dos Trapped Under Ice, uma das mais viscerais bandas de hardcore paridas na costa este dos EUA neste século e onde há pouco ou nenhum espaço para o poutpourri de influências dos Turnstile. Permita-se também o aparte que foi nessa condição que cimentou o seu legado na cena punk portuguesa há 14 anos, ao gravar um vídeo a fazer playback a Misery Business dos Paramore com os membros das bandas nacionais Reality Slap e Devil in Me.

Os Turnstile, porém, não têm medo de alienar fãs. “Sempre que se lança algo novo, perde-se uma data de gente. Tens de aceitá-lo”, afirmou o vocalista ao NYT. À Pitchfork, no entanto, Yates explicou melhor porque é que não subscreve o purismo musical daqueles que acusam a banda de ter diluído o seu som ou de ter crescido para lá da música punk. “Cada um tem uma ideia diferente do que quer, de como define uma determinada cultura ou género. Mas, para mim, que cresci a ir a espectáculos de hardcore, é difícil aderir a esse diálogo, apenas porque penso que é algo que não é definido pela sonoridade. Está mais assente na comunidade”, afirma.

Nesse sentido, basta ver qualquer concerto dos Turnstile para perceber que, por mais alterações que vão operando de álbum para álbum, a ética e a entrega continuam a ser as mesmas de uma banda hardcore. Veja-se, por exemplo, o concerto gratuito que deram em Baltimore para 10 mil pessoas em antecipação a Never Enough, exemplo do caos que são ao vivo. Os Turnstile não são um caso único na história do punk por desabarem fronteiras estilísticas — veja-se o que os Fugazi ou os Refused fizeram décadas antes — ou por mudarem o seu som — os Ceremony, por exemplo, passaram de uma das mais violentas bandas do seu tempo para um pastiche de Joy Division e New Order. Mas são-no talvez por terem feito esta metamorfose sem nunca terem deixado de soar sempre iguais a si mesmos, não obstante já terem perdido dois dos seus membros originais. Talvez seja por isso que escolheram o seu nome, torniquete: por mais voltas que deem, continuam no mesmo sítio.