Houve dois verões neste Primavera Sound: o Brat Summer de Charli xcx, no primeiro dia de festival, e o Turnstile Summer (como a própria Charli cunhou em Coachella) a encerrar a edição de 2025. Esta estação pode mesmo ficar marcada pelos rapazes de Baltimore, pelo menos para quem tiver a sorte de se cruzar com um concerto deles. A receita em palco dos Turnstile é minimalista e certeira, cheia de carne, suor e tensão entre banda e público. O bê-á-bá do que é um espetáculo ao vivo, sem necessidade de trazer uma catrefada de material cénico às costas, assente num reportório direto, mas nem por isso simplista.
O mote da digressão que os trouxe ao Porto foi o último registo de estúdio, Never Enough (2025), mas o concerto foi até lá atrás, até Step to Rhythm (2013), Time & Space (2018) e Glow On (2021). Nas malhas mais antigas, hardcore puro e duro que faz salivar fãs de uns Machine Head do tempo de Burn My Eyes (1993) ou aqueles que descobriram que podiam mandar tudo à merda ao som de Rage Against the Machine, houve circle pit imediato. Com licença, que aqui vai disto: copos para o ar, mosh animalesco e Keep It Moving.
T.L.C., logo a segunda do alinhamento, foi cuspida como se de um hino se tratasse – e tão bem que o público soube cuspir. Antes, a abrir, já tinha havido Never Enough e umas toadas psicadélicas a fazer lembrar uma noite de 2022 em que os Tame Impala, naquele preciso palco, enchiam o Primavera Sound de feixes de luz. A tríade de abertura ficaria completa com o punk skate de Endless, provando, em três atos galopantes, que na música dos Turnstile cabem várias nuances do rock.
Pouco tempo houve para respirar entre faixas, com o vocalista Brendan Yates, de carótida latejante, a erguer o pé do microfone, a saltar, a girar sobre si mesmo, alimentando um público insaciável por mais de uma hora. Blackout, quase no canto do cisne, deitou a casa abaixo e até longe das primeiras filas se viam pequenas ilhas de mosh. Quem os viu em Paredes de Coura, em 2022, já sabia para o que vinha e não tinha dúvidas de que este ia ser um dos grandes concertos do Primavera Sound 2025. Quem foi apanhado na curva, provavelmente ainda deve estar à procura das coordenadas GPS para voltar à estrada. A música, às vezes, só precisa que lhe metam prego a fundo. Obrigada Turnstile por nos lembrarem disso.
Marisa Cardoso
“Se a cultura é música, é pela liberdade”
O último dia do Primavera Sound Porto 2025 foi um regressar às origens do festival. Não teve um Kendrick Lamar, uma SZA, uma Lana Del Rey, nenhum nome estratosférico que justificasse pirotecnia no grande finale, mas teve uma prosa cheia de narrativas que se tocaram, cada qual com os seus protagonistas. Foi um dia de passeio no parque para descobrir novas flores por entre aquelas que já conhecemos (olá Horsegirl) e um revisitar da matriz indie rock do festival.
Não teve lotação esgotada, tal como nos dois primeiros dias (34, 36 e 31 mil espetadores, respetivamente), nem chuva, nem temporais, nem palcos cancelados ou outra espécie de cataclismos. “As pessoas desfrutaram de tudo o que fizemos. Finalmente tivemos sorte”, regozijava-se o diretor José Barreiro ao final da tarde, em conversa com os meios de comunicação social. Finalmente, pudemo-nos sentar na relva e gozar um Primavera tranquilo (tirando umas certas agressões lamentáveis na zona VIP, entre um diretor de campanha e um candidato à Câmara Municipal do Porto). Organização, público, todos precisávamos dessa tranquilidade, oferecida com um beijo de sol.
O último dia foi também um dia em que a música de dança esteve em primeiro plano. A eletrónica de Jamie XX, guiada pelo álbum In Waves (2024,) encerrou o palco principal com um set a roçar a perfeição. Sem espalhafato, escondido nos seus caracóis à Carmy Berzatto, o DJ, produtor e membro da banda The XX nadou por diferentes géneros com graciosidade, deixando leve e solta uma plateia que se queria mexer e sorrir. Techno, transe psicadélico, funk, drum and bass, disco, melodias orientais, a panóplia de cores é vasta e Jamie usou-as a todas em temas como Loud Places, Breather ou no remix do clássico Somebody’s Watching Me. Foi bom revê-lo por aqui, como foi bom ver Floating Points num bacanal com as criaturas da noite, já a madrugada ia longa.
Marisa Cardoso
Ao início da tarde, o electro-pop dos Parcels perfumou um público que, de tão devoto, ruidoso e esvoaçante que estava, deixou os australianos corados e sem jeito. “Está a ser o melhor concerto da digressão”, desabafaram. Aquilo que nos serviram no palco Vodafone foi uma mimosa fresca, com rodela de laranja e temas do próximo álbum LOVED (sai a 5 de julho). E até a portuguesa Maro apareceu para interpretar Leaveyourlove e para tornar o pôr-do-sol ainda mais bonito.
Dança também é resistência, que o diga Saya, DJ e ativista com raízes palestinianas que usa a música para que as expressões culturais da Palestina continuem a respirar. Podem-nos matar, podem-nos tirar as terras, pareceu ela dizer no set mesclado de Ocidente e de Oriente, que apresentou no Cupra (a abarrotar até ao início de Jamie XX), mas haverá sempre um novo beat que pulsa, uma melodia que se escreve e um corpo que se inquieta. No corolário da dor, há uma chuva de jasmim que cai, como no poema de Shahd Wadi. Enquanto dançarmos, haverá jasmim.
Marisa Cardoso
E o Primavera Sound quer tanto dançar que até acrescentou um dia extra à programação desta edição: domingo, dia 15 de junho, debaixo de uns quase 30 graus veranis, o palco Revolut terá música eletrónica das 15h às 23h. A aposta é para continuar nos próximos anos – como também o é o “DJ-set non-stop” do Cupra – garante José Barreiro, vincando igualmente a “liberdade política, religiosa e de género” que quer continuar a promover na “pequena aldeia global” com mais de 100 nacionalidades que é o Primavera Sound. “Se a cultura é música, é-lo pela liberdade de poderes dizeres quem és”.
Em 2026, o festival está de regresso ao Parque da Cidade, no Porto, nos dias 11, 12 e 13 de junho. Como vem sendo habitual, os portadores de passe-geral desta edição terão um desconto na compra do passe-geral para a edição seguinte. Na quinta-feira, dia 19, às 00h, haverá uma pré-venda exclusiva durante 24h, com os preços dos passes a €140 ou €130, para quem ainda tiver a pulseira de 2025 no braço (ou suficientemente perto de si para ativar o código no momento da compra).
O rock descomplexdao das Wet Leg, o aborrecimento das Haim e a enchente dos Capitão Fausto
Entre muitas primeiras vezes desta edição do Primavera Sound, houve uma especialmente simbólica: foi o primeiro cartaz em que não se viu o nome “Shellac”. A morte de Steve Albini (1962-2024), a quem no ano passado foi prestada homenagem através de uma escuta-tributo do álbum To All Trains (2024), ditou o fim de uma tradição que tinha tanto de explosão como de cerimónia de louvor à santíssima matéria do rock.
Mas há coisas que nem a morte tira e Albini, que deixou sementes em vários canteiros do indie rock, falou através de Kim Deal neste último dia de festival. Nobody Loves You More (2024), primeiro álbum a solo de Deal, foi produzido por ele mesmo, lenda que também meteu o dedo na discografia dos Pixies e das Breeders, puxadas por Deal para a sua atuação – ela que deixou rolar The End of Radio enquanto subia para palco.
Marisa Cardoso
Passado, presente e futuro olharam-se nos olhos, contaram-se uns aos outros como velhos amigos que já não se veem há muito tempo e se reencontram para falar do que a vida lhes fez. Do amor, das mazelas, da morte, do que é envelhecer, do que é continuar a ter vontade de criar e de se experimentar. Não foi um concerto épico, mas foi um concerto necessário e uma justa homenagem a Kim Deal e ao imenso legado que traz nas cordas e nos seus 64 anos.
Antes dela, Maria Reis, com uma bandeira da Palestina em palco (mais uma entre as muitas que se viram ao longo destes dias) deambulou livremente pela discografia, para gáudio da sua entourage. Eu.Clides foi ave canora a inaugurar o palco principal; Nunca Mates o Mandarim tocaram para aqueles que têm saudades d’Os Azeitonas e David Bruno, abrindo com As Baleias de Roberto Carlos e chamando Rui Reininho e Presto dos Mind da Gap a palco, para interpretar Tema de Sequeira e 10 em 10, apresentou-se tal e qual ele é: um eterno potencial candidato a presidente de Junta de Freguesia, distribuindo gentileza pelo povo.
Umas horas mais tarde, aconteceu um dos momentos mais aguardados deste último dia: o concerto da dupla Wet Leg. Motivos não faltavam para tanta expetativa: quatro BRIT Awards e um Grammy conquistados graças ao álbum homónimo de estreia e um segundo trabalho já à espreita (Moisturizer chega ao mercado no dia 11 de julho). O que teriam então Rhian Teasdale e Hester Chambers para nos oferecer?
Abrindo a atuação com o single Catch These Fists e fechando com CPR, as Wet Leg fizeram desfilar grande parte das suas novas canções. Pelo meio, temas como Wet Dream ou Chaise Longue, que renderam elogios de nomes como Iggy Pop ou Dave Grohl, e um grito de garganta aberta em Ur Mum, foram celebrados efusivamente pelo público, principalmente pelo muito público britânico que ali se reuniu. Não foi uma atuação tão memorável quanto aquela que as The Last Dinner Party, suas conterrâneas, deram em 2024, naquele mesmo palco, mas foi um bom final de tarde de rock descomplexado.
Marisa Cardoso
E por falar em descomplexado, as Haim quiseram dizer presente neste Primavera Sound (mesmo chegando 10 minutos atrasadas e desautorizando qualquer registo fotográfico) para mostrar o seu próximo álbum, I Quit, e para lembrar o público português que foi neste festival, há 11 anos, que as três irmãs fizeram a sua estreia nacional. The Wire, do primeiro disco Days are Gone (2013), abriu uma atuação que até direito a lágrimas teve. “Estou incrédula. Vocês são a maior e a melhor plateia que tivemos. É uma honra tocar para vocês”, choramingou Este e nem uma mão de canções tinha passado.
Talvez pela carga sentimentalista demasiado açucarada, pelos frequentes apartes ou por não conseguirmos ouvir as Haim sem deixar de pensar na Mariah Carey e na Avril Lavigne a andarem juntas de patins, tivemos de abandonar o palco Vodafone para procurar qualquer coisa menos maquilhada. Conseguimos encontrá-la em Squid, um concerto desfraldado e despenteado, antes que a noite nos fizesse desaguar em Turnstile. O resto é história – e, honra lhes seja feita, também é Capitão Fausto. Atuaram às 01h30 e proporcionaram a maior enchente que o palco Revolut testemunhou nestes três dias. Quem toca e canta assim, não é tolo nem é gago.