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Water from Your Eyes na Casa Capitão: se não somos nada, sejamos nada a rir e a dançar uns com os outros

Este artigo tem mais de 6 meses

De riffs estonteantes a batidas rave, tudo cabe no indie rock aventureiro de Nate Amos e Rachel Brown, menos ficar combalido perante as misérias. Na Casa Capitão, mostraram como.

A banda procura um certo hedonismo tingido de melancolia quando Brown, dançando com total entrega, canta “there's no lost future, baby”
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A banda procura um certo hedonismo tingido de melancolia quando Brown, dançando com total entrega, canta “there's no lost future, baby”

Filipe Gonçalves/Casa Capitão

A banda procura um certo hedonismo tingido de melancolia quando Brown, dançando com total entrega, canta “there's no lost future, baby”

Filipe Gonçalves/Casa Capitão

Os Water From Your Eyes são fixes. Seja no sentido superficial do termo — porque Nate Amos, com o combo de boné obrigatório para qualquer indie rocker e t-shirt de Metallica, saca sons inauditos da sua guitarra como se nada fosse enquanto Rachel Brown dança de óculos de sol e canta com o seu tom de voz impassível —, seja na medida em que são uma banda indie em plena ascensão. Mas, como a história da cultura pop nos têm ensinado, todo esse fator cool não passa de pretensão oca se não for acompanhado de humanidade.

“Estou farta de ver o mundo a piorar. Não quero continuar de coração partido, quero acreditar que há um futuro com paz e justiça”, desabafou Brown este domingo à noite na Casa Capitão, em Lisboa. Essa vulnerabilidade, esse ensejo de melhoria, foi o que alimentou It’s A Beautiful Place, o seu triunfal novo disco, lançado em agosto. Nesta véspera de feriado, mostraram porque é que esse álbum já começou a pintalgar as listas de melhores lançamentos do ano que têm saído e porque é que são um dos nomes a não perder no Primavera Sound Porto do próximo ano.

Fazer uma cronologia oficial de lançamentos do duo não é fácil, dada a quantidade de material que lançaram no seu Bandcamp desde 2016 e que, pela sua natureza livre, podem ser encarados como EPs, demos, mixtapes, álbuns, colagens — é à vontade do freguês. Encurtemos então este preâmbulo para afirmar que, ao longo destes quase 10 anos, os Water From Your Eyes foram da pop alternativa inspirada em New Order e LCD Soundsystem ao som caleidoscópico que hoje possuem, onde cabem riffs de guitarra monstruosos, perfume quer country quer jazz, batidas techno e/ou disco e tudo o que quiserem na amálgama de rock, punk, shoegaze, pop e eletrónica a que nos submetem.

Não é por nada que têm uns polímatas dos géneros musicais como os Ween como referência, e Amos descreveu melhor do que qualquer um o que resulta na banda, quando “cada canção é um remix de uma música que não existe”. O facto de ambos terem ainda os seus próprios projetos paralelos — Brown com Thanks for Coming e Amos com This is Lorelei — só atesta à sua verve criativa.

Filipe Gonçalves/Casa Capitão

O álbum Structure, de 2021, criou zunzuns que motivaram o interesse da prestigiada editora indie Matador em contratá-los, sendo que o sucessor Everyone’s Crushed, de 2023, foi o que os levou para outro patamar de popularidade e interesse. Aliás, foi assim que acabaram por integrar uma digressão mundial a abrir para os Interpol nesse mesmo ano em frente a dezenas de milhares de pessoas no México e, talvez menos impressionante, a estrear-se com duas datas em Portugal, em Lisboa e Guimarães. Seguiu-se a estreia no Primavera Sound Porto no ano passado, antes de regressarem agora em estado de graça.

Essa última expressão não é empregue de ânimo leve. Como Amos e Brown têm vindo a admitir em várias entrevistas, apesar de It’s A Beautiful Place vir do mesmo baú de ideias de Everyone’s Crushed — geradas, aliás, em valores recorde pelo guitarrista durante a pandemia —, onde esse álbum estava impregnado de críticas à nossa sociedade de capitalismo tardio e de uma sensação de catástrofe iminente envolta em niilismo, este foi concebido como a alternativa mais luminosa. “Parecia importante lançar algo que fosse menos sobre quem eu sou, mas sobre quem eu quero ser, além de não refletir todos os piores pensamentos que tínhamos sobre o mundo”, afirmou Brown à revista Clash.

Não é que os Water From Your Eyes tenham perdido o pendor ácido que os caracteriza: no cerne do disco está uma espécie de pessimismo cósmico. Mas em vez de nos amarrar, eles querem que a constatação da nossa insignificância nos liberte. “Se olharmos para a raça humana de um ponto de vista friamente objetivo, tudo o que poderíamos alcançar é totalmente insignificante no contexto do universo como um todo. Não chega nem perto de ter qualquer importância para o cosmos. Ao mesmo tempo, as emoções humanas, as conexões entre as pessoas e a maneira como nos tratamos parecem extremamente significativas. É algo bastante alucinante de se pensar”, admitiu Amos à revista Fader. Por outras palavras, se não somos nada, sejamos nada a rir e a dançar uns com os outros.

Filipe Gonçalves/Casa Capitão

Com essa postura veio também o abraçar do excesso, quase enquanto provocação, presente na forma maximalista como as guitarras e os pedais de efeitos despontam em It’s A Beautiful Place. “Fui muito anti-guitarra durante imenso tempo, mas depois percebi que, na verdade, a guitarra é muito divertida. Não há nada mais divertido do que um solo de guitarra”, contou Amos à NME. Ainda bem, porque é um verdadeiro deleite vê-lo a ser um “feiticeiro” — como Brown o descreveu — das seis cordas.

Quando subiram ao palco, Born 2 arrancou com um tsunami de distorção sacado do playbook dos My Bloody Valentine, com Amos a somar loops de riffs e leads em cascata, como se a guitarra tivesse a derreter, e Brown num lamúrio ambivalente entre adorar e odiar este mundo. A acompanhá-los estavam Al Nardo no baixo e Bailey Wollowitz na bateria — ambos parte do duo Fantasy of a Broken Heart — e que desde 2023 tornaram-se mais ou menos membros não-oficiais da banda.

Os quatro têm tocado muito juntos, em digressões umas atrás das outras, e nota-se, não só pelo quão coesos soam, mas também pelo facto dessa tarimba toda tê-los tornado uma banda mais rock — mais não seja porque teclas e outros instrumentos utilizados em estúdio aqui são transfigurados em guitarra. Isso é especialmente patente nas canções mais antigas. Barley, de Everyone’s Crushed, cresce como as montanhas que Brown canta, passando de dance-punk nervosinho em disco para um ataque de pânico em corropio ao vivo. Já “Quotations” leva uma operação ainda mais radical. O seu cariz mais sintético e etéreo de origem transforma-se aqui num monstro jazzístico de percussão e virtuosismo, espécie de Mr. Hyde para o Senhor Jekyll que é uma canção do Al di Meola.

Filipe Gonçalves/Casa Capitão

Ao ler estas palavras, talvez se fique com a impressão de que os Water From Your Eyes são uma banda “pesada”, o que não é o caso — são sim, a interseção (muito) barulhenta entre sensibilidades pop e qualquer outro género que lhes surja. Em Life Signs, abraçam os anos 90 com uma malha grunge que faria os cabeludos de Seattle sorrir e aprovar, ao passo que Blood on the Dollar dolentemente recorda o slacker rock dos Pavement com candura sorumbática. Já Nights in Armour, uma das melhores canções de It’s A Beautiful Place, é um manifesto sonoro da exultação que procuraram neste disco, combinando perfeitamente dissonância e esperança na forma como o refrão explode.

É uma pena que a sala não tenha enchido para vê-los — estava meia casa — mas Brown não se importou, naquela que foi a última data da banda em três meses de digressão. “Só quero ir dormir”, desabafou, servindo-se de um tipo de humor tão blasé quanto confrangedor que nos deixa na tensa dúvida entre a sinceridade e o sarcasmo, como quando recordou a primeira passagem da banda em Lisboa e chorou de emoção por terem-lhe oferecido uma baguete. Foi nessa zona cinzenta que a frase citada no início do texto se destacou como cintilante — e, em abono da verdade, diga-se que também foi igualmente clara quando lamentou a morte de pessoas inocentes em cada local onde “imperialismo mostra os dentes”, como no Sudão, na Palestina e no Congo, como quando mandou “foder todos os fascistas deste planeta”.

No final, e depois de considerar digno terminar a tour de um álbum chamado It’s A Beautiful Place em Lisboa — “mais bonita” que Filadélfia, onde começaram —, os Water From Your Eyes lançaram-se num dos temas do disco (e do ano) que praticamente valia o preço do bilhete. Prova da plasticidade do seu som, Playing Classics (inspirada em Charlie XCX) é um banger que miraculosamente junta techno, jangle e indie rock numa batida irresistível, daqueles temas que dá força ao ideal platónico de que há coisas que já existem num plano metafísico e é preciso alguém louco e talentoso o suficiente para materializá-las para bem da humanidade. É também outra corporização total do que a banda procura, um certo hedonismo tingido de melancolia quando quando Brown, dançando com total entrega, canta “there’s no lost future, baby”. Teria sido o final perfeito, não houvesse ainda um curto mas saboroso encore onde Track Five trouxe a mesma vontade de ocupar a pista de dança com uma lágrima no canto do olho.

Antes dos Water From Your Eyes atuarem, tivemos direito a um concerto de abertura de que Rachel Brown gostou muito mas, como admitiu por não saber português, não entendeu nada. Trata-se de Catarina Branco, que revelou como o convite surgiu de forma totalmente aleatória — não espanta, sendo a banda que é. “Espero que não tenha sido uma seca”, disse no final. Não poderia ter sido quando traz temas como Solitário Sudoku ou Cintalho ou até duas novas canções que partilhou na Casa Capitão. Diz tem álbum novo em 2026 — venha daí.

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