Vem de Alack Sinner muito do que se conhece de policiais em banda desenhada. Ei-lo nesta edição da Devir: um detective na escuridão da violência urbana de Nova Iorque. Como figura literária, Sinner veio desafiar os limites da banda desenhada policial – mais do que mistério ou crime, a personagem veicula, a partir do seu ar cansado, a decadência moral da sociedade em que vive. A edição portuguesa Alack Sinner – Bófia ou Detetive, publicada pela Devir no âmbito da colecção Angoulême (colecção de livros que receberam prémios do festival internacional de banda desenhada de Angoulême, os mais prestigiados do mundo da banda desenhada), é uma porta de entrada para este universo: seis histórias escolhidas dos primeiros anos da série, que, ao invés de serem cronológicas, são representativas do universo Sinner. Com mão cirúrgica, a editora resolveu apresentar ao público lusófono os pontos fulcrais de um clássico.

Criado pelos argentinos Carlos Sampayo (argumento) e José Muñoz (desenho), Alack Sinner nasceu em 1975 nas páginas de Métal Hurlant, um dos berços da banda desenhada adulta na Europa. Argentinos de origem, os autores consolidaram a personagem norte-americana no mercado francófono, e Sinner tornou-se uma das vozes mais consistentes da crítica social urbana do século XX, dentro deste registo, sendo ele mesmo um homem deslocado, um estrangeiro em casa. Há, nas suas páginas, um mal-estar bem-articulado entre argumento e desenho – uma espécie de desilusão, de negrume interior, que molda o olhar e a acção, e que dá ao leitor a percepção de um desfasamento permanente, que extravasa as páginas e contamina a leitura.

Ao longo do livro, parece que se assiste à anatomia do desencanto. Sinner abandonou o cargo de polícia, vencido pelo desalento com o que via à volta: a corrupção sistemática, o racismo institucional e a violência infligida pelas próprias forças policiais, sempre auto-justificadas, auto-legitimadas. Não se afasta como um herói, antes como um vencido pela vida, um desolado com o mundo. Portanto, assiste-se aqui a um herói apagado: ao invés de um justiceiro que não se corrompe, Sampayo delineia um vórtex de rendição ética a partir do qual se vê o mundo com clareza. Sinner torna-se detective privado, mas a vida não passa a ser outra: à sua volta, a violência continua, e as sombras, e os perigos. E o detective enfrenta a decadência moral ao mesmo tempo que parece sucumbir à sua: ei-lo a beber demais, a fumar demais, a tratar-se mal. Também isto ajuda a que não se tenha em mãos um herói simples, fácil, básico, banal, de quem é fácil gostar – um herói limpo, vá. Viciado e decadente, por si só parece ambíguo, e o seu esmorecimento físico dá-lhe espessura e densidade psíquica e emocional, ao mostrar-lhe uma dor qualquer.

Título: “Alack Sinner, Bófia ou Detetive”
Autores: Muñoz & Sampayo
Editora: Devir
Tradução: Maria Ramos
Páginas: 168

É esta ambivalência que permite a Sampayo explorar temas amplos, que vão muito além do crime, do mistério. Aliás, estes parecem propulsores do quadro panorâmico das histórias, que implicam as desigualdades estruturais, a pobreza, a marginalidade, ao mesmo tempo que a narrativa pulsa de uma dimensão ética e filosófica, com Sinner em cena a mostrar o papel da integridade num sistema que se alimenta de falcatruas. Não é que isto apareça declarado no livro, mas é pano de fundo de todas as histórias. Aliás, o livro começa com “Conversa com Joe”, que dá o pontapé de partida para a personagem. Sinner conta a história da sua vida a Joe e, com isso, conta-a ao leitor, que vê que, diante de si, estarão os episódios de um homem quase esvaziado de sentido, estático na própria existência – e o acto de ler parece o de escutar um bêbedo num bar escuro às tantas da noite.

De resto, o traço de Muñoz permite também adensar e sublinhar este estado. As linhas são duras, tortas, até inestéticas, e essa falta de estética parece a própria estética, a distorção transforma-se em verdade, em exagero, em rasgo, em aspereza. Nem sempre os ambientes são claros, o que dá ao leitor a visão sobre uma cidade confusa, densa, quase claustrofóbica, tensa, perigosa. Mais do que retratar a acção de forma fiável, o papel do ilustrador passa por lhe dar dimensões em camadas de sentido – ou seja, o seu papel não é meramente técnico, é também narrativo.

Alack Sinner é um falhado, está cansado, é viciado, está nas últimas – e é isso que puxa o leitor, mais não seja pela estranheza que causa, assim como a sua integridade no meio disto tudo, que só lhe dá um peso mais melancólico. E nele nada é neutro, nada aparece ao acaso. O alcoolismo, a violência policial, a pobreza: tudo é parte de um sistema, tudo carrega o contexto. E por isso o detective não existe na narrativa para resolver crimes e mistérios, antes para mostrar as feridas sociais, as falhas. Por isso, muitas das suas histórias vivem às margens da estrutura clássica de investigação. Não se procura resolver um caso, antes ver de que forma se sobrevive numa cidade que tem pendor de selva. Neste sentido, o crime serve para revelar a camada humana, não como puzzle a montar em busca de um sentido.

A autora escreve de acordo com o antigo acordo ortográfico