Maria da Conceição, a mulher mais velha de Portugal, completa esta segunda-feira 113 anos. Nascida a 22 de dezembro de 1912, em São Brás de Alportel, no Algarve, dois anos antes da criação do concelho, vai assinalar o aniversário no Lar da Santa Casa da Misericórdia, onde vive e é tratada como “rainha” por funcionários e residentes.
Num vídeo divulgado pela Câmara Municipal, a supercentenária foi desafiada a deixar um conselho às gerações mais novas. A resposta, dada com humor, resume uma vida longa e pragmática: não trabalhar em excesso. “Trabalhar muito dá cabo do corpo”, afirmou, defendendo também que “não desfrutar [da vida] é mau”.
A autarquia descreve Maria da Conceição como “um testemunho vivo de mais de um século de história”, sublinhando que atravessou profundas transformações sociais, culturais e económicas em Portugal e no mundo. No lar onde reside, destaca-se pela lucidez e pela memória de um país que mudou radicalmente ao longo de mais de 11 décadas.
A infância, como conta a própria, foi marcada pelas brincadeiras ao redor da igreja e pela convivência com as amigas, num tempo em que “toda a gente brincava” e os recreios eram passados em grupo. Depois da escola, começou a trabalhar em casa, entre tarefas domésticas, “rendas e bordados”.
Conhecida desde jovem como “a menina” — uma designação que manteve ao longo da vida, incluindo no casamento —, Maria da Conceição casou apenas uma vez, ainda na década de 1920, num enlace que descreve como “amor à primeira vista“. As celebrações foram feitas em casas separadas, segundo os costumes da época, e do casamento nasceu um filho, de quem fala com orgulho: “Era um mocinho todo bonito”.
Para a família e para quem com ela conviveu, fica a imagem de uma mulher ativa e resiliente. A sobrinha, Maria de Fátima, sublinhou uma tia capaz de fazer “um pouco de tudo”, da cozedura do pão aos trabalhos no campo, enquanto uma vizinha, que a conhece há mais de 50 anos, relatou a proximidade e a amizade que mantinha com todos.
No lar, essas características mantêm-se intactas. O provedor da Santa Casa da Misericórdia, Júlio Pereira, descreve-a ao Observador como “muito bem disposta e muito afável“. Maria da Conceição é alguém que encara os contratempos de forma positiva e sem dramatismos.
“Não é daquelas pessoas que é exigente e que muitas vezes entra exigente, com algumas vontades. Não, é sempre muito afável, muito querida connosco. Tem um espírito muito positivo. Qualquer coisa que lhe acontece, ela não vê como negativo. É ultrapassável. Vamos para a frente”, contou, acrescentando que “as pessoas que convivem com ela diariamente também têm essa opinião. É uma pessoa que sempre tem um bom ambiente no lar. Deu-se sempre bem com todas. Toda a gente simpatizou com ela“.
Já a diretora do lar, Anabela Conceição, destacou o cuidado com a autonomia e com a rotina diária. “Eu penso que ela gosta de fazer tudo, principalmente arrumar a roupa dela. Gosta de mexer, gosta de ver o que é que tem, o que é que não tem. Passa muito tempo a fazer a higiene, a pentear-se, a lavar as mãos, a lavar a cara, a lavar os dentes. É muito cuidadosa“, disse.
As comemorações do aniversário vão juntar também Joaquim Varela, de 110 anos, outro supercentenário do concelho. Ambos já foram homenageados na Festa dos Centenários, uma iniciativa do município e da Santa Casa da Misericórdia que pretende valorizar a longevidade e preservar a memória viva das gerações mais antigas de São Brás de Alportel.