Ao folhear o coffee table book de cores vibrantes e detalhes dourados, os projetos de decoração servem de cenário para um verdadeiro editorial de moda, de looks Carolina Herrera a Ralph Lauren. “Cada evento de lançamento uso um look do livro”, confidencia Suzana Schermann ao Observador, revelando o motivo para ter escolhido o coordenado de blazer xadrez e saia de pele Ralph Lauren para lançar o seu segundo livro em Lisboa. “A moda e a decoração andam juntas, sempre andaram. Sempre tiveram essa pegada do moderno, da mulher moderna”, completa a designer de interiores responsável pelas casas de diretores de banco, empresárias e herdeiras de impérios multimilionários, em zonas nobres do litoral de São Paulo e do Rio de Janeiro.
O passado de Suzana tem mais de espetáculo do que design. Por 27 anos, trabalhou como publicitária e em rádio e televisão, chegando a ser diretora de uma importante rádio brasileira, a Antena 1. Nesta profissão, Suzana cruzou-se com nomes importantes da televisão brasileira, como o apresentador Gugu Liberato, rosto de programas do prime-time durante as décadas de 1980 e 1990. E ajudou a criar uma das maiores febres musicais brasileiras dos anos 1980 — Os Dominó. “Foi como se eu fosse lançar um sabonete no mercado. A embalagem, tudo fui eu que cuidei. Disse: ‘vamos fazer cara de menino rico'”, recorda Suzana, sobre a primeira boy band brasileira, um grupo inspirado nos Menudo que lançaram Ricky Martin, e criado pela promotora de eventos do apresentador de televisão. “Eu estive com eles aqui em Lisboa fazendo shows, porque o Gugu Liberato me contratou como marqueteira”, diz a agora designer de interiores. E para o trabalho com decoração, foi buscar a experiência da comunicação e marketing.
▲ Alguns dos projetos retratados no livro de Suzana Schermann
Marta Vieira
“A minha vida foi um sortido, mas eu sempre gostei de decoração. Só que quando eu tinha 17 anos, se eu falasse para o meu pai que eu ia fazer decoração, o meu pai me colocava para fora de casa. Então eu fui virar decoradora com 50 anos de idade“, conta. A forma que encontrou para entrar no meio, foi com uma “permuta” — cedeu tempo de publicidade na rádio em que trabalhava em troca de um espaço numa importante mostra de design de interiores na cidade de Ilhabela, um tradicional refúgio de praia de luxo para a alta sociedade de São Paulo desde os anos 1960. “Era num dos hotéis mais chiques de praia do Brasil, mas um dos donos tinha morrido de SIDA. Então queriam recuperar o hotel e fizeram este evento. Deram-me uma cabaninha afastada, que era uma suíte. A ilustre desconhecida Suzana Schermann”, recorda. “Gosto de escrever, então eu montei uma história. Fiz uma cabana de uma prostituta que era chique, sem nunca ter saído do Cais do Porto. Mas ela fez amor com tantas pessoas, com o comandante de um navio francês, a mãe dela fugiu com um marinheiro grego. Tinha lustres de cristal, tinha uma tenda de lenha. Bem, nunca tinha feito, e eu ganhei o primeiro lugar. Esta cabana me trouxe muitos clientes, peguei muitos clientes na Ilhabela”, conta a designer de interiores.
Um dos seus primeiros projetos particulares foi a casa da empresária Traudi Guida, fundadora da marca brasileira de roupas de luxo Le Lis Blanc, e atualmente dona da Souq, marca de roupas e artigos para casa, que “está comigo até hoje”, destaca Suzana, que é também a decoradora de jovens influencers, como Francesca Civita, filha de Giancarlo Civita, herdeiro do Grupo Abril e na lista de multimilionários brasileiros da Forbes. Em 2024 a influencer conhecida por Cesca casou-se com o empresário Victor Iglesias na Catedral de Sevilha, com um vestido de alta costura feito por medida pela designer britânica Vivienne Westwood. “Fiz o apartamento dela inteiro. Sei que ela é colorida, alegre, vibrante. E vou fazer o segundo apartamento dela, que ela está grávida agora. Comprou um novo. Quer dizer, você interpretar o cliente é fundamental”, assinala a designer, que partilha imagens dos ambientes criados para a influencer nas redes sociais. “Tenho clientes que eu não posso postar absolutamente nada. Esse é o caso do Setúbal. Eu não posso postar nada”, menciona, sobre Roberto Setúbal, presidente do Banco Itaú, a quem envia referências por mensagem e recebe a aprovação para por em prática o projeto.
“Ler o cliente é fundamental”, diz logo Suzana, que compara a primeira reunião com uma sessão de terapia. “Você tem que perguntar uma série de coisas, porque às vezes o cliente sabe o que ele quer, mas não sabe transmitir o que ele quer, não é? Então, geralmente eu peço referências. Aqueles 500 Pinterest, sabe? Mas assim, gosto de conversar com o cliente, perguntar como é o modus vivendi dele, se gosta de receber, se tem filhos… Daí você vai captando o sonho do cliente, e precisar passar isso com harmonia e com beleza.”
Para a decoradora, um dos segredos do sucesso dos seus projetos está na combinação de elementos de design contemporâneos e objetos com valor históricos e sentimental. “Hoje a arte impera muito nos projetos. Acho que o contemporâneo tem um lugar especial, mas eu dou sempre uma ideia diferente. Isso porque a minha decoração é muito europeia. Por exemplo: herdei um apartamento em Paris cheio de rococó no teto, o piso antigo de lareira, cheio de informações, mas eu herdei uma pintura a óleo da minha mãe que retrata ela. Eu tenho ao mesmo tempo um tapete oriental antigo que foi da minha bisavó que eu não quero me desfazer, é a história da minha vida. Mas ao mesmo tempo eu vou numa exposição de um fotógrafo moderno e compro uma foto preto e branca bem moderna”, explica. “Casa é o lugar onde você põe a sua história passada e presente, e também onde você começa uma nova história. Então você tem que saber reunir tudo isso num ambiente e fazer com que ele tenha conforto e aconchego. Você tem que dar alma e história para a casa. É a mistura que faz a casa ficar com cara de casa. Você tem que fazer casa não para os outros verem, mas para você viver.”
O livro homónimo da decoradora brasileira chega a Portugal em exclusivo pela mão da QuartoSala, que passa a abrir as portas da loja da Poliform nas Amoreiras para eventos de design, arte e cultura. “As cozinhas da loja estão operacionais, este espaço foi feito para receber. Nós gostaríamos que isto pudesse ser um espaço onde aconteçam várias coisas, que são à tangente com o design ou totalmente dentro do design, mas não termos esse limite tão formal. E a Susana é um caso disso, de uma pessoa que não fica aqui fechada. Isto também é o mundo dela, mas ela tem um mundo muito mais aberto”, diz Pedro D’Orey, um dos sócios da QuartoSala. A obra reúne 14 projetos de decoração e narrativas visuais desenvolvidas ao longo de mais de duas décadas, fotografados por Rômulo Fialdini e pela set designer Tissy Brauen, e está disponível para venda por 75 euros.