Nos últimos anos, o ciclismo tornou-se na modalidade de eleição para muitos atletas que começaram noutros desportos. O caso mais célebre é o de Remco Evenepoel, futuro ciclista da Red Bull-Bora-hansgrohe e vencedor da Volta a Espanha de 2022 que, com apenas cinco anos, entrou na academia de futebol do Anderlecht, passando pelo PSV antes de voltar à Bélgica, com 14 anos. O ciclista de 25 anos passou inclusivamente pelos Sub-15 e Sub-16 da seleção belga, mas acabou por trocar as chuteiras pela bicicleta. Também Tadej Pogacar, atual bicampeão do mundo e da Volta a França, começou por praticar futebol em criança, embora não tenha passado do nível local. Ao longo deste ano saltou ainda à vista o exemplo de Aleix Espargaró que, depois de se reformar do MotoGP, assinou com a Lidl-Trek e competiu, ao longo de três meses, na equipa de desenvolvimento da formação norte-americana, depois de ter começado a temporada no gravel.

Ciclista Remco Evenepoel troca equipa de sempre pela Red Bull-BORA-hansgrohe

Os exemplos são vastos e podiam incluir ainda nomes como Pepe e Eden Hazard que, depois de terem acabado a sua carreira no futebol, decidiram investir no ciclismo como hobby. Voltando à vertente profissional, como é apanágio na modalidade, a segunda metade do ano é, tendencialmente, dominada pelas transferências, com os ciclistas a escolherem a equipa pela qual vão competir a partir do início do ano seguinte. Por entre a mudança de Evenepoel e a passagem de Juan Ayuso da UAE Team Emirates-XRG para a Lidl-Trek, a grande novidade deste defeso ficou reservada para a vertente feminina do ciclismo, que terá, no próximo ano, Sophie Alisch, uma recordista do… boxe.

Aos 24 anos, a alemã é a grande novidade da Canyon-Sram para 2025, perfilando-se como colega da portuguesa Maria Martins e de Kasia Niewiadoma, vencedora do Tour feminino de 2024 por apenas quatro segundos. Inicialmente, Alisch deverá competir na equipa de desenvolvimento daquela formação, a Canyon-Sram Generation, que se encontra no terceiro escalão do ciclismo mundial. Esta será a primeira vez que a atleta nascida em Berlim vai competir no ciclismo profissional, deixando para trás uma carreira de grande sucesso no boxe, com dez vitórias nos dez combates em que esteve envolvida como profissional, uma delas por nocaute. Ao longo da caminhada de uma década, Sophie sagrou-se campeã alemã de Sub-19 com apenas 14 anos e tornou-se na pugilista mais jovem a ser convocada para a principal seleção olímpica da Alemanha, conquistando ainda o bronze no Campeonato da Europa de juniores, em 2017. Como amadora registou 38 vitórias e apenas quatro derrotas.

“Sei que muitas pessoas estão surpreendidas com esta mudança. Compreendo-as, mas é uma decisão que ponderei durante muito tempo. A minha cabeça fez o clique durante a preparação para o meu último combate, em novembro de 2024. Passei mais de um ano e meio sem lutar até chegar a este momento. Apenas treinava e preparava-me na sombra. Para uma pessoa como eu, que vive para competir, que quer demonstrar constantemente o que trabalha e o que aprende no dia a dia, lidar com essa falta de atividade foi muito difícil. Deixei de me sentir realizada no que fazia. A chama interna que o boxe tinha acendido em mim apagou-se. Já não sentia aquela faísca, aquela felicidade. Precisava de algo novo, de um desafio que me deixasse novamente animada. O capítulo do boxe tinha acabado para sempre”, explicou a alemã, que reside em Maiorca há três anos, ao jornal El País.

“Já praticava ciclismo há alguns anos para trabalhar a minha resistência, um aspeto fundamental para ter sucesso nos meus combates”, acrescentou a desportista, revelando ainda que, numa primeira fase, foi instada a fazer um teste de esforço para avaliar as suas verdadeiras hipóteses no ciclismo. “Quando terminei disseram-me que, para quem se dedica ao boxe, tinha registado números incríveis. Disseram-me que, se trabalhasse, podia construir algo ainda melhor, mas que a minha base genética convidava ao otimismo. Acho que não me enganei. Quando subia na bicicleta, ainda como pugilista, sentia uma felicidade difícil de alcançar em qualquer outro aspeto da minha vida. Custava-me admiti-lo. Ainda resisto um pouco a fazê-lo, mas tenho de ser honesta: pedalar fazia-me mais feliz do que colocar as luvas. Por isso sei que esta mudança é definitiva. Vou ser ciclista até ao dia em que deixar o desporto profissional”, partilhou a ciclista.

Curiosamente, antes de chegar ao boxe, Alisch teve o primeiro contacto com o mundo do desporto através do ténis, com apenas dez anos, numa altura em que vivia na Áustria com a sua família. No desporto da raquete, a alemã representou a sua seleção em diversos torneios jovens, mas, aos 13 anos, já em Berlim, passou seis meses a treinar boxe e decidiu dar outro rumo à sua carreira. “O boxe é um desporto muito exigente, mas metabolicamente baseia-se na atividade anaeróbica. O ciclismo, por outro lado, é essencialmente aeróbico. O nosso primeiro grande desafio é melhorar a oxidação de gordura e desenvolver o motor físico da Sophie, ou seja, o seu VO2max [quantidade máxima de oxigénio que o corpo pode usar num minuto de alta intensidade], para que ela possa suportar a carga de treino necessária para o físico de uma ciclista profissional”, sublinhou à mesma fonte Sebastian Rösler, preparador físico que se encontra a trabalhar com a atleta.

Na sua declaração, Rösler explicou que Sophie Alisch costumava pesar cerca de 57 quilos antes dos seus combates, devendo agora estabilizar nos 55 quilos. “Ainda é cedo para saber que tipo de ciclista a Sophie vai ser, mas a sua experiência no ringue faz-me vê-la como uma grande roladora dentro do pelotão. Depois, quando adquirir um pouco mais de experiência, acho que poderá tornar-se numa grande sprinter“, completou. Por outro lado, a ciclista não tem receio de assumir o seu grande objetivo: “Quero estar nos Jogos Olímpicos de Los Angeles em 2028. De momento estou a dar os passos certos. Além disso, tenho a mente muito aberta para o que o futuro me reservar. Quero vestir o maillot e experimentar tudo até descobrir onde sou realmente boa. Até agora, a minha principal virtude sempre foi a capacidade de sofrimento, sem perder um pingo de concentração… Algo me diz que essa habilidade não me vai fazer mal daqui para a frente”.