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O lado oculto da Alta-Costura, gémeos em competição e miúdos abandonados pelo sistema: cinco espetáculos para ver em janeiro

Este artigo tem mais de 6 meses

Cinco espetáculos e formas de pensar o mundo: da alta-costura ao tribunal, da escola ao corpo em movimento. Peças que cruzam política, intimidade e resistência marcam os palcos nacionais este mês.

Fotografia do espetáculo "Bright Horses", um dos destaques da 14.ª edição da mostra de dança contemporânea New Age, New Time, que decorre este mês em Viseu
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▲Fotografia do espetáculo "Bright Horses", um dos destaques da 14.ª edição da mostra de dança contemporânea New Age, New Time, que decorre este mês em Viseu

▲Fotografia do espetáculo "Bright Horses", um dos destaques da 14.ª edição da mostra de dança contemporânea New Age, New Time, que decorre este mês em Viseu

“Lacrima”, de Caroline Guiela Nguyen

Centro Cultural de Belém — Grande Auditório, Lisboa (9 e 10 de janeiro)

A dramaturga e encenadora francesa Caroline Guiela Nguyen coloca no centro da cena um objeto: um vestido de noiva destinado a uma princesa britânica. A partir dessa peça de alta-costura, criada ao longo de 4.688 horas de trabalho, o espetáculo revela o lado oculto da indústria do luxo, cruzando histórias de costureiras em Paris, rendeiras em Alençon e bordadores em Mumbai. Inspirada pelo segredo que envolveu o vestido de noiva da princesa Diana (a encomenda real decorreu sob rigorosas cláusulas de confidencialidade), a encenadora constrói uma narrativa em contagem decrescente, onde a urgência e a pressão permanente expõem uma violência estrutural feita de exploração, hierarquias invisíveis e sacrifícios.

▲ Caroline Guiela Nguyen ambienta "Lacrima" num atelier para mostrar o lado oculto da indústria da moda e do luxo, revelando os seus segredos e a sua violência

Jean-Louis Fernandez

Num palco tornado atelier de costura, a encenadora que se estreou em Portugal com Saigão entrelaça histórias de vida com exigências profissionais, revelando como a beleza extrema é muitas vezes sustentada por dor, exaustão e silêncio. Criada para o Festival de Avignon em 2024 chega a Lisboa em duas récitas únicas no Centro Cultural de Belém.

“Class Enemy”, de Nigel Williams, encenação de Manuel Tur

Teatro Carlos Alberto, Porto (22 a 31 de janeiro)

Class Enemy, do britânico Nigel Williams, foi escrita no final dos anos 70, mas continua tão atual como no dia em que se estreou. Decorre ao longo de um dia, numa escola. Depois de terem aterrorizado uma professora, seis rapazes aguardam a chegada da vítima (vulgo, professor) seguinte. Nesse interregno revelam-se as realidades familiares destes jovens com vidas marcadas pela pobreza e violência. Terão sido eles a escolher afastar-se da escola ou será o próprio sistema educativo que os empurra para fora?

▲ "Class Enemy", do britânico Nigel Williams, é levada à cena no Teatro Carlos Alberto, no Porto. A encenação é de Manuel Tur

No rescaldo de uma polémica nacional em torno de uma intervenção do ministro da Educação sobre alunos mais desfavorecidos, a encenação de Manuel Tur propõe uma “reflexão sobre o papel da educação na origem das assimetrias sociais, comuns a diferentes tempos e lugares”, colocando-nos diante de miúdos abandonados (esquecidos?) pelo sistema de ensino.

“Bright Horses”, de Carminda Soares e Maria R. Soares

Teatro Viriato, Viseu (24 de janeiro)

André e Gonçalo Cabral, Carminda e Maria R. Soares e Alena e Alina Krutskikh: seis intérpretes, três duplas de gémeos. No espetáculo Bright Horses, as experiências reais e as dinâmicas familiares destes irmãos tornam-se matéria coreográfica para interrogar a forma como a identidade se constrói na constante comparação com o outro — sobretudo quando esse outro é quase um espelho.

▲ André e Gonçalo Cabral são dois dos intérpretes de “Bright Horses", de Carminda Soares e Maria R. Soares, em cena no Teatro Viriato, em Viseu

Numa reflexão que extravasa o campo da intimidade, o espetáculo de Carminda Soares e Maria R. Soares (que se estreou no último ano em Guimarães) expõe a tensão entre individualidade e semelhança, questionando a lógica do perfeccionismo, da uniformização e do favoritismo (real ou percebido), que atravessa não só as relações familiares, mas a cultura contemporânea. É um dos destaques da 14.ª edição da mostra de dança New Age, New Time (NANT), promovida pelo Teatro Viriato, de 13 a 31 de janeiro de 2026, em Viseu.

“Justiça Cega”, de Sara de Castro

São Luiz Teatro Municipal — Sala Mário Viegas, Lisboa (27 janeiro a 7 fevereiro)

Apesar dos avanços registados em Portugal na prevenção e no combate à violência contra as mulheres, persistem falhas estruturais. De acordo com o mais recente relatório do grupo de peritos do Conselho da Europa (Grevio), o sistema judicial mantém-se como o principal ponto frágil, marcado por atrasos, decisões pouco protetoras e por atitudes ainda enraizadas numa cultura patriarcal.

▲ "Justiça Cega", de Sara de Castro, propõe-se a fazer uma reflexão sobre a ideia de justiça a partir de uma "perspetiva feminina e feminista"

É neste contexto que surge Justiça Cega, espetáculo de Sara de Castro, com textos de Gaya de Medeiros, Nuno Pinheiro e Teresa Coutinho, que cruza referências como Medeia, o mito de La Llorona e da ficção que convoca a figura de um filicídio (ato de matar o próprio filho ou filha) para interrogar a ideia de justiça a partir de uma “perspetiva feminina e feminista”. A peça questiona os mecanismos de silenciamento nos tribunais (quem escolhe o silêncio?) e a encenação da audiência judicial, onde a voz de quem se defende é frequentemente anulada ou descredibilizada. O elenco é composto por Ana Brandão, Ana Ribeiro, Gaya de Medeiros, Teresa Coutinho e Ema de Castro Silva.

“Canine Jaunâtre 3”, de Marlene Monteiro Freitas e Ballet de l’Opéra de Lyon

Culturgest — Auditório Emílio Rui Vilar, Lisboa (29 e 30 de janeiro)

Em 2018, no ano em que venceu o Leão de Prata da Bienal de Veneza e foi considerada “um dos melhores talentos da sua geração”, a coreógrafa Marlene Monteiro Freitas criou Canine Jaunâtre 3, a primeira peça até então em que aceitou ficar de fora, sem dançar. Criado a pedido de Ohad Naharin para a israelita Batsheva Dance Company, o espetáculo está agora no repertório do Ballet da Ópera de Lyon, e é com ele que chega ao grande auditório da Culturgest, em Lisboa, para duas récitas únicas.

▲ "Canine Jaunâtre 3" é o segundo espetáculo de Marlene Monteiro Freitas nesta temporada da Culturgest, em Lisboa, por onde passou em setembro com "NÔT"

Reivindicando a herança dos carnavais da sua infância em Cabo Verde, Marlene Monteiro Freitas faz o mais carnavalesco dos encontros desportivos, com uma rede de ténis, um painel de avaliação e apitos, mas sem vencedores nem vencidos. 17 intérpretes, todos com o mesmo número 3 nas costas, habitam um território de regras contraditórias. O resultado é uma manifestação desportiva delirante, marcada pela transgressão e pela tensão entre o grotesco e o belo.

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