Durante anos, foi jornalista. Em 2025, Ana Margarida de Carvalho é uma das mais pujantes romancistas portuguesas. A Chuva Que Lança A Areia Do Saara não surpreende pelo apurado trabalho de linguagem, porque, nesta fase do campeonato, já é isso que se espera das mãos da autora. Surpreendidos ficaram os leitores de 2013 no momento em que apanharam Que Importa A Fúria Do Mar, que recebeu o Grande Prémio de Romance e Novela da APE. A surpresa já terá sido menor com Não Se Pode Morar Nos Olhos de um Gato, que recebeu o mesmo prémio, porque já se sabia ao que se ia. Com O Gesto Que Fazemos Para Proteger A Cabeça (2019) e Pequenos Delírios Domésticos e Lugares Mal Situados (contos, 2021), já a autora tinha marcado o seu estilo, a sua voz e a sua linguagem sempre profundamente literária, algo entre o delicado e o violento, que parece usar a própria prosa como enredo, espécie de fluxo de consciência inconsciente.

As mãos de Ana Margarida de Carvalho têm músculo. E com músculo a autora vai delineando a vida de Firmino, cuja cabeça parece ziguezaguear num alcoolismo permanente: em estado terminal, Firmino tem até já órgãos a falhar, e a autora trata bem a degradação e a exaustão. A prosa, sempre elegante, veicula a violência, a destruição, de uma vida a dar as últimas. “A vida é uma violência muito comprida” (p. 30), lê-se a certa altura, o que resume a condição do alcoólico: “Uma vez, disseram-me, o homem bebe álcool, depois o álcool bebe o homem, por fim o álcool bebe o álcool. Em que fase vais? (…) Estou na fase de ser capaz de ingerir a minha própria urina para não perder o álcool expelido…” (p. 22).

Nesta fase inicial da narrativa, Firmino é transportado numa carroça, sem perceber bem se está a ser raptado. Para o leitor, ainda não é sabido que o homem fará trabalhos forçados numa pedreira. Isto passa-se em Portugal, depois da primeira guerra mundial, mas, em pontos fulcrais da narrativa, as poeiras do Saara, que migram milhares de quilómetros, toldam a visão e mudam o curso da acção, que vai dependendo de uma panóplia de personagens em que se incluem um violador, um apicultor, duas gémeas siamesas e uma mulher cuja ausência de nariz não faz com que deixe de ser alvo de desejo. A autora vai além do que poderia estereotipar e afunilar as personagens e não só Firmino não fica estanque na sua categoria de viciado ou de degradado como Ésfira, a tal mulher sem nariz, não é reduzida à ideia de incompletude ou de repulsa, antes seduzindo e agradando aos olhos masculinos.

Título: “A Chuva Que Lança A Areia Do Saara”
Autora: Ana Margarida de Carvalho
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 288

Ao trabalhar com personagens complexas num enredo também complexo, que não se entrega ao leitor a um primeiro olhar ou a um olhar preguiçoso, Carvalho faz uma narrativa densa e bem articulada: as questões estilísticas nunca cedem, e as personagens nunca têm a textura de folhas de papel. Firmino carrega o vício, e com isso o texto exubera de força e de fraqueza em simultâneo, e Ésfira é de difícil catalogação, perfeitamente ambígua: tanto distribui comida pelos outros como lhes contamina a água. São personagens vistas por dentro e por fora ao mesmo tempo, e isto até acontece nos dois sentidos – por dentro e por fora do ponto de vista corporal, e depois do ponto de vista social também. Vulneráveis muitas vezes, mas sem caírem na dimensão unilateral de vítima, funcionam como gente intacta e dorida a aguentar a vida.

Após os tais muitos anos no jornalismo, a autora começou a publicar ficção já relativamente tarde, mas parece que a sua mão literária já nasceu madura – e mais madura foi ficando de livro para livro. Em A Chuva Que Lança A Areia do Saara, não passa ao lado o esforço necessário para se conseguir o livro: há um olhar que escrutina a vulnerabilidade humana, uma arquitectura narrativa complexa e audaz, um equilíbrio entre elementos macro e micro, e uma crueza permanente – o trabalho de linguagem, que pode ser considerado poético, não serve para tornar o texto cor-de-rosa. Antes pelo contrário. Se a autora é uma força brutas nas Letras, também é bruta a sua mão, que nunca perde a capacidade de calibre.

Tal como em romances anteriores, salta à vista a capacidade sensorial da autora. Isto fica evidente logo nas primeiras páginas, com o desconforto de Firmino e a sua sensação de fim de vida, e ainda com a descrição do álcool como líquido que vai matando e roendo e degradando. É sempre tudo muito físico, quase grotesco, e a própria ideia que dá nome ao romance mantém esta linha – a areia não vem como metáfora, embora também possa funcionar assim, mas como matéria que contamina a acção e interfere nas vidas das personagens.

Esta capacidade sensorial já estava presente desde o primeiro romance de Carvalho, e é verdade que parece haver agora menos exuberância estrutural e formal – a mão, a tal que parece já ter nascido madura, amadureceu ainda mais e dominou a contenção e o silêncio. Ora, temperada a exuberância, o virtuosismo da prosa permanece íntegro, numa musicalidade que parece obrigar o texto a escorrer em frente aos olhos do leitor.

De resto, convém ainda acrescentar que Ana Margarida de Carvalho parece apostada em fugir aos círculos temáticos da literatura portuguesa – ou até europeia – contemporânea, deslocando o olhar, o espaço, o tempo, pensando um país a partir de uma espécie de nota de rodapé, e fazendo dessa nota o tema, o espaço, o romance inteiro. Ora, findo o trabalho, entende-se que a sua concepção de narrativa extrapola a ideia de um enredo que atravessa as páginas – em vez disso, parece que é o leitor quem atravessa um território, seja físico ou emocional, e que a escrita literária funciona como lupa.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.