Era um Clássico que também era uma eliminatória e uma eliminatória que também era um Clássico. No Dragão, a meio de janeiro e três meses depois do jogo preso e vazio a contar para o Campeonato, FC Porto e Benfica reencontravam-se nos quartos de final da Taça de Portugal para um encontro que tinha mesmo de ter um vencedor. Uma particularidade que vincava ainda mais os momentos distintos das duas equipas.

No FC Porto, de forma clara, reinava a tranquilidade. Os dragões estão na liderança do Campeonato com mais sete pontos do que o Sporting e mais dez do que o Benfica e aproveitaram a final four da Taça da Liga, onde não estiveram por demérito próprio, para descansar, preparar e ponderar ao longo de uma semana de estágio no Algarve. Pelo meio, dias antes do Clássico, Francesco Farioli renovou contrato em plena Livraria Lello e engordou a ideia de um verdadeiro projeto a ser criado por André Villas-Boas.

Ficha de jogo

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FC Porto-Benfica, 1-0

Quartos de final da Taça de Portugal

Estádio do Dragão, no Porto

Árbitro: Fábio Veríssimo (AF Leiria)

FC Porto: Diogo Costa, Martim Fernandes (Alberto Costa, 76′), Bednarek (Alan Varela, 76′), Thiago Silva, Kiwior, Pablo Rosario, Victor Froholdt, Gabri Veiga (Rodrigo Mora, 62′), Pepê (Stephen Eustáquio, 88′), Borja Sainz (William Gomes, 62′), Samu

Suplentes não utilizados: Cláudio Ramos, Dominik Prpic, Oskar Pietuszewski, Deniz Gül

Treinador: Francesco Farioli

Benfica: Trubin, Amar Dedic, António Silva, Tomás Araújo, Samuel Dahl, Richard Ríos (Sudakov, 44′), Leandro Barreiro, Sidny Lopes Cabral (Ivanovic, 83′), Fredrik Aursnes, Prestianni (Schjelderup, 74′), Pavlidis

Suplentes não utilizados: Diogo Ferreira, Gonçalo Oliveira, João Fonseca, Enzo Barrenechea, Manu Silva, João Rego

Treinador: José Mourinho

Golos: Bednarek (15′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Richard Ríos (39′), a Amar Dedic (45+3′), a Pavlidis (45+3′), a Samu (45+4′), a Bednarek (45+7′), a Pepê (68′), a Tomás Araújo (68′), a Gabri Veiga (83′), a Rodrigo Mora (84′), a Prestianni (90+6′), a Leandro Barreiro

No Benfica, de forma clara, reinava a incerteza. Os encarnados estão a dez pontos da liderança do Campeonato, para além de ainda terem o Sporting pela frente, e a derrota com o Sp. Braga na meia-final da Taça da Liga e consequente falhanço da final da competição trouxe críticas alargadas e transversais de José Mourinho aos jogadores. Críticas que, já na antevisão do Clássico, o treinador português reiterou e defendeu para garantir que vai continuar sem “aceitar mediocridade”.

Assim, esta quarta-feira no Estádio do Dragão, Francesco Farioli não contava com o lesionado Francisco Moura e estreava Thiago Silva ao lado de Bednarek, com Kiwior a encostar à esquerda da defesa. No meio-campo, Gabri Veiga era titular em detrimento de Rodrigo Mora. Já José Mourinho, que não tinha Otamendi por castigo, deixava Sudakov no banco e apostava em Lopes Cabral e Prestianni no apoio a Pavlidis, com Fredrik Aursnes a fazer companhia a Richard Ríos no setor intermédio. Enzo Barrenechea, que chegou a ser dado como indisponível por lesão, era suplente.

Não foi preciso esperar muito depois do apito inicial para perceber que o Clássico seria quente, imprevisível e com os nervos à flor da pele. Ainda antes de qualquer uma das equipas se aproximar às balizas, Prestianni já se tinha desentendido com Kiwior e Amar Dedic já tinha parado Borja Sainz de forma pouco ortodoxa. No que toca ao futebol propriamente dito, a primeira situação de perigo do jogo pertenceu a Prestianni, que rematou por cima já dentro da grande área (11′).

Logo a seguir, porém, o FC Porto inaugurou o marcador. No terceiro de três cantos consecutivos de que beneficiaram, os dragões cobraram na direita e viram Bednarek fugir a Leandro Barreiro para cabecear e bater Trubin (15′). A equipa de Francesco Farioli poderia ter aumentado a vantagem logo a seguir, num lance em que o guarda-redes ucraniano negou o golo a Gabri Veiga e Victor Froholdt com defesas consecutivas (19′), mas a verdade é que o Benfica teve a capacidade de assentar e reagir à desvantagem.

Os encarnados subiram as linhas e passaram a atuar principalmente no meio-campo adversário, enquanto que o FC Porto juntou setores e atuava essencialmente na expectativa e com recurso à transição rápida. Amar Dedic rematou por cima (24′), Lopes Cabral atirou ao lado na sequência de uma arrancada (26′) e também Aursnes falhou o alvo ainda de muito longe (28′). Do outro lado, apesar de as ocasiões de perigo serem mais escassas, os dragões pareciam sempre estar um bocadinho mais perto do golo — tal como aconteceu com Gabri Veiga, que rematou rasteiro na área e viu a bola passar a centímetros do poste de Trubin (39′).

Ainda antes do fim da primeira parte, José Mourinho foi forçado a realizar a primeira substituição, já que Richard Ríos saiu de maca e com gritos de dor no ombro na sequência de uma queda, e lançou Sudakov para fazer Leandro Barreiro recuar para o meio-campo. A melhor oportunidade dos encarnados apareceu já nos descontos, com o mesmo Barreiro a rematar rasteiro na área para Diogo Costa defender com o pé (45+8′), mas o FC Porto chegou mesmo ao intervalo a vencer o Benfica no Dragão.

Nenhum dos treinadores fez alterações ao intervalo e a lógica parecia ter regressado inalterada, com o Benfica mais elevado no terreno e o FC Porto mais cauteloso. Pavlidis protagonizou a primeira situação de perigo da segunda parte, com um remate cruzado que Diogo Costa segurou (50′), e Tomás Araújo também ficou perto de empatar com um pontapé em jeito que passou ligeiramente ao lado da baliza (59′).

Francesco Farioli reagiu à clara superioridade dos encarnados no quarto de hora inicial da segunda parte e fez as primeiras substituições, lançando William Gomes e Rodrigo Mora. Ainda assim, as circunstâncias do jogo mantinham-se: o Benfica estava completamente inserido no meio-campo contrário e o FC Porto parecia abdicar de atacar, com os encarnados a causarem perigo essencialmente de fora da grande área e os dragões a mostrarem-se sempre muito organizados defensivamente.

José Mourinho mexeu já dentro dos últimos 20 minutos, trocando Prestianni por Schjelderup, e Farioli lançou Alan Varela e Alberto Costa para as saídas de Bednarek e Martim Fernandes, motivando a ida de Pablo Rosario para o lado de Thiago Silva no eixo defensivo. O jogo entrou numa toada mais anacrónica no último quarto de hora, sem verdadeiras oportunidades de golo e com os encarnados a perderem algum do controlo que tinham tido durante toda a segunda parte, e a verdade é que entre duelos, paragens e muita luta já nada mudou até ao fim — apesar de Pavlidis ter tido a bola nos pés com a baliza aberta já nos descontos, sem conseguir sequer rematar.

O FC Porto venceu o Benfica no Dragão e está nas meias-finais da Taça de Portugal, mantendo-se em competição nas duas principais provas nacionais e eliminando os encarnados, que ficam agora reduzidos ao Campeonato e aos dez pontos de distância para a liderança. Como quase sempre nestas ocasiões, ouviu-se Porto Sentido de Rui Veloso no estádio depois do apito final — num dia em que Bednarek bem mostrou que é o sentido de um Porto que foi da Livraria Lello à canção de sempre para mostrar que se reergueu.