Falámos recentemente com Hasan Hadi, numa video-chamada entre Lisboa e Bagdade, sobre O Bolo do Presidente, filme feliz em ambiente hostil, já que se passa no Iraque de 1991, estava então aquele país sob o jugo do ditador Saddam Hussein. Na ficção, esta é a história de Lamia, uma menina de 9 anos sorteada na sua escola primária para fazer um bolo de aniversário para a figura máxima do regime. Pior é encontrar os ingredientes — os ovos, a manteiga, a farinha — numa altura em que o país, vergado a sanções internacionais, está privado de bens de primeira necessidade, negociados no mercado negro.
Acompanhada por um colega de turma e pelo seu fiel galo de estimação, Lamia, apesar de ser de família pobre, não desiste, tornando-se em simultâneo no rosto de uma cinematografia iraquiana com vontade de renascer após longos anos de estagnação. Premiado em Cannes 2025 com a Caméra d’Or que distingue a Melhor Primeira Obra de todas as secções do festival, O Bolo do Presidente está na “shortlist” dos candidatos a Melhor Filme Internacional nos Óscares — cujas nomeações são conhecidas dia 22.
Cresceu no Iraque, durante a Guerra do Golfo. Como passou a infância, sob o regime de Saddam?
Foi uma infância cheia de dificuldades, para colocar a questão diplomaticamente. Imagine o que é crescer entre quatro ou cinco guerras, com o Irão e o Kuwait, depois com os EUA. Cada guerra impôs os seus próprios danos, o seu grau de destruição, em cima de um regime bárbaro que esmagava toda e qualquer oposição interna. Não havia liberdade. E contudo, as famílias e os amigos defendiam-se, havia um espírito de entreajuda que, para nós, era sempre a luz ao fundo do túnel.
A história do filme foi inventada, escrita de raiz como ficção?
Não, aquilo que aconteceu a Lamia é baseado na experiência de um colega meu da escola primária. Pediram-lhe para fazer o bolo. Ele não conseguiu e foi expulso da escola, recrutado à força para o exército dos “filhos de Saddam.” A mim tocou-me apenas levar as flores, eram rosas, nunca mais me esquecerei. Mas a história do meu amigo tem-me acompanhado ao longo da vida. O que me teria acontecido se tivesse sido eu?
Quando o filme foi exibido em Cannes, muita gente se espantou pela reconstituição histórica e pela qualidade dos seus elementos cénicos. Não se imaginava um Iraque dos anos 90 tão colorido e cheio de vida. Este aspecto está relacionado com o facto de escolher o ponto de vista de uma criança?
Este filme é uma comédia negra sobre a inocência. E sobre a sua perda dela, também. O país que vemos ainda é, de facto, um Iraque com os seus momentos alegres e coloridos, apesar das circunstâncias. Reconhecemos a inocência no trajecto daquelas crianças. Lembro-me que nós costumávamos ridicularizar as nossas tragédias, enquanto povo iraquiano. Acho que era uma forma de sobrevivermos. Quando escrevi o guião, tentei não acentuar este tom mas ele acabou por chegar ao filme naturalmente, pelos actores, pela memória que eles ainda guardam daquele tempo — e o lado satírico foi ganhando peso. Isto é: este filme leva-nos para um país e um modo de viver submetidos à ditadura, toda a gente percebe isso, mas o filme em si não tem agenda política, não quer propaganda. É antes uma interpretação da forma como costumávamos viver.
O Iraque continua a ser um país estigmatizado pelo Ocidente depois das guerras. Sente esse peso nos ombros, como cineasta?
Saddam esteve 35 anos no poder e mergulhou o país na guerra e na trevas. Mas, para mim, é impossível não criticar apenas um dos lados da mentira. Este filme é tão crítico de Saddam como do exterior. Há uma relação entre o silêncio das pessoas que Lamia observa e o silêncio da comunidade internacional sobre nós, e que continua agora noutros contextos e latitudes, no Sudão, na Somália ou na Palestina.
▲ Hasan Hadi discursa em Cannes, em 2025, após receber o prémio Camera d’Or para Melhor Primeiro Filme por "O Bolo do Presidente". À esquerda do iraquiano, a presidente do júri, a realizadora Alice Rohrwacher
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O Bolo do Presidente é um filme improvável, a começar pelo facto de ser o primeiro em muitos anos a ser inteiramente rodado no Iraque, país que ficou sem cinema, que já não tem salas no activo. Que comentário pode fazer a isso?
Não tenho qualquer problema em falar da produção; aliás, tenho mesmo o dever de fazê-lo e de confrontar as pessoas que têm dito que este filme não é sufcientemente iraquiano. Acho a afirmação injusta. Em primeiro lugar, nasci no Iraque e passei toda a minha vida em Bagdade, excepto quando fui estudar cinema no estrangeiro, em Nova Iorque. É óbvio que tive de procurar financiamento lá fora porque, no meu país, não há qualquer apoio. Ser cineasta no Iraque não é sequer profissão. Este filme só existe porque, a certa altura, participei num programa de orientação do Festival de Sundance em que tive por mentores Eric Roth [argumentista] e Marielle Heller [argumentista e cineasta]. Gostaram do meu argumento e ajudaram-me no financiamento sem interferirem no que eu tinha escrito. Já os financiadores quiseram impôr uma condição: o filme deveria ser rodado fora do Iraque, num país qualquer do Médio Oriente. E aqui, chocámos de frente. Disse-lhes que nem pensar, porque as histórias também têm o seu ADN, as suas raizes. Ao longo dos últimos anos, todos os filmes sobre o Iraque foram feitos a partir da mesma perspectiva: Hollywood. Dei-me então conta de que tinha nas mãos a oportunidade rara de fazer um filme com dinheiro americano mas perspectiva iraquiana, com actores e técnicos iraquianos, como eu. Este filme é iraquiano por todos os lados, excepto no dinheiro.
O casting é um triunfo. Misturou actores profissionais com amadores?
Os intérpretes são todos amadores. Duas actrizes secundárias tinham tido uma breve experiência de televisão. Os miúdos foram todos selecionados em castings de rua. Eu já sabia que era assim, não temos escolas de interpretação no Iraque, fomos para a rua procurar as crianças, como em Ladrões de Bicicletas, do Vittorio de Sica — um dos filmes que mais me influenciou. Não ensaiámos com as crianças, fizemos um workshop, com exercícios, jogos, puzzles, etc. Eles foram-se conhecendo uns aos outros. A espontaneidade das emoções foi gerada assim, permitindo-lhes existir nas cenas sem desculpas nem compromissos, tal e qual como eles são.
O Bolo do Presidente oscila entre momentos mundanos do quotidiano e outros mais poéticos, que convidam a fábula. Influências da língua árabe?
Não posso negá-lo, o mundo árabe ama a poesia. Mas o tema é vasto. Os poemas de Muhammad Mahdi al-Jawahiri, um dos maiores escritores do século XX, estão seguramente comigo. Quanto a cinema, além de Ladrões de Bicicletas, destaco o cinema do grego Theo Angelopoulos, em especial Landscape in the Mist. São filmes que me comoveram e acompanharam, como a literatura de Tolstoi e Dostoievski.
Poderá este filme lançar uma nova vaga de cinema no Iraque?
Não sei, tudo ainda é muito frágil para nós. A guerra continua ao nosso lado. Nos ataques entre Israel e o Irão, tínhamos os aeroportos fechados enquanto os mísseis e os drones passavam sobre as nossas cabeças. Hoje, o Iraque tem paz. Mas tudo à nossa volta está ainda por reconstruir. Temos liberdade de expressão, mas ainda não aquela que desejamos. O prémio de Cannes ajudou-nos muito, é certo. Abriu-nos muitas portas. Nunca o Iraque tinha tido sequer algo parecido, foi um voto de esperança para a minha geração. Graças ao meu filme, o Centro Nacional do Cinema em França assinou um acordo de financiamento com o Ministério da Cultura no Iraque. É incrível. E depois veio a chamada aos Óscares, esta entrada na shortlist da Academia, coisa inédita no meu país. Para nós, está tudo a ser uma primeira vez.
O autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico