A hematopoiese é um dos sistemas mais estudados do corpo humano. Trata-se do processo biológico responsável por gerar o sangue que circula pelas nossas veias e é uma etapa essencial no nosso desenvolvimento. Porém, ainda há muito por descobrir. O foco das investigações, até agora, têm sido as diferentes fases de diferenciação das células estaminais até atingirem o estado de células sanguíneas, desde a medula óssea até às veias e artérias, mas sempre numa fase adulta. A investigadora alemã Nina Schmolka, no entanto, quer compreender este processo numa etapa mais antecipada: no embrião.
“Este é um dos maiores campos de investigação em todo o mundo e existem vários grupos a explorar este tema. Mas eu estou a olhar para o outro lado, para o desenvolvimento do sangue num embrião, entre a segunda e quinta semana de gravidez”, explica a investigadora ao Observador. O projeto, que começou na Suíça em 2022, vai transferir-se para Portugal na segunda metade deste ano. Nina Schmolka vai criar um novo laboratório dentro do Centro de Investigação Biomédica da Universidade Católica, após ter sido uma de dez investigadores europeus a receber uma Bolsa de Instalação da EMBO 2026, atribuída pela European Molecular Biology Organization (EMBO).
Ao longo dos próximos cinco anos, Nina Schmolka vai explorar este processo numa fase ainda pouco explorada pela comunidade científica. Não são “os únicos” a cobrir este tema, mas garante que a equipa de investigação que vai estabelecer em Lisboa utilizará “abordagens de última geração” para “compreender como as células sanguíneas se desenvolvem no embrião e de que forma este conhecimento pode ser utilizado para prevenir a transformação patológica das células do sangue e para desenvolver futuras estratégias terapêuticas”.
Apesar de já ter começado a investigar esta área há alguns anos, admite que o início das operações em Portugal será gradual e, numa primeira fase, se dedicarão à “investigação básica”. “É crucial entendermos qualquer processo biológico a um nível fundamental e, a partir daí, procuramos informação que possa ser traduzida em termos práticos para a clínica e, quem sabe, descobrir algum tipo de tratamento para doenças sanguíneas específicas. É difícil de prever, nesta fase, mas é o nosso objetivo final”, afirma a investigadora em declarações ao Observador.
“A atribuição desta bolsa a Nina Schmolka reconhece a excelência científica do seu trabalho e reforça o posicionamento do Centro de Investigação Biomédica da Católica como um polo de atração de talento internacional na área da investigação biomédica”, reagiu Pedro Simas, diretor executivo do Centro de Investigação Biomédica da Católica (CBR), em comunicado.
“Numa só abordagem podemos averiguar a função de 4.000 genes diferentes e ver o que acontece quando cada um destes genes é removido ou inibido”
“O que acontece no adulto não se aplica ao embrião”, explica a responsável pelo projeto de investigação. Os primeiro glóbulos vermelhos não se formam a parir das células estaminais, como acontece quando o ser humano está mais desenvolvido, pelo que a grande maioria das vias moleculares são diferentes nas duas fases de desenvolvimento. “Há muitas coisas que ainda não compreendemos”, acrescenta, admitindo que se coloca neste meio para “entender os principais players moleculares que são importantes neste processo de formação de sangue” na fase embrionária.
As primeiras células sanguíneas, os glóbulos vermelhos, surgem muito cedo na gravidez. E é precisamente entre a segunda e a quinta semana de gestação que estará o foco da equipa liderada por Nina Schmolka. “Chega a uma determinada altura em que o feto é demasiado grande e já não consegue estar dependente da difusão [vinda da mãe]. É nesta altura que começa a precisar destas células para transportarem oxigénio e outros nutrientes pelo corpo”, esclarece.
A bolsa está prevista para financiar o estudo com 50 mil euros anuais durante os próximos cinco anos e, neste período, a investigadora tem vários objetivos já definidos. “Vamos trabalhar muito molecularmente”, conta ao Observador, explicando que vão adotar diferentes “passos de transição” para decifrar as diferentes partes do processo de desenvolvimento do sangue num embrião. Passa por células mesenquimais — que têm um alto potencial de diferenciação — e por modelos embriónicos in vitro de células estaminais, que conseguem reproduzir as condições dentro do embrião. Vão, eventualmente, utilizar modelos in vivo, mas a prioridade agora é testar “novas tecnologias”, diferentes daquelas que têm sido utilizadas até agora.
“Vamos brincar com o genoma e ver o que acontece se removermos um determinado gene. Será que aumenta o desenvolvimento do sangue, se o interrompe ou se não faz nada. E vamos seguir estas mudanças pelas diferentes fases de transição”, diz Nina Schmolka. “Numa só abordagem podemos averiguar a função de 4.000 genes diferentes e ver o que acontece quando cada um destes genes é removido ou inibido”, continua.
“Espero, no final deste projeto, ter conseguido identificar vias que são importantes para gerar sangue e que não eram conhecidas até agora”, admite a investigadora, referindo que nunca foi feito um estudo “em larga escala” sobre este tema. O foco principal serão as vias associadas a diferentes patologias, como leucemias, por exemplo, mas, com estas “novas tecnologias”, espera conseguir ampliar o projeto e avançar com um estudo genético compreensivo inédito.