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Shawn Levy: pode o trunfo (pouco) secreto de "Stranger Things" dar a volta ao universo "Star Wars"?

Este artigo tem mais de 6 meses

Depois de comédias como "À Noite no Museu", dos pseudo-heróis "Deadpool & Wolverine" e da parceria insuperável com os irmãos Duffer nas desventuras em Hawkins, o que espera a Disney deste canadiano?

Shawn Levy (à direita) com Millie Bobby Brown (à esquerda), na rodagem da última temporada de "Stranger Things"
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▲Shawn Levy (à direita) com Millie Bobby Brown (à esquerda), na rodagem da última temporada de "Stranger Things"

▲Shawn Levy (à direita) com Millie Bobby Brown (à esquerda), na rodagem da última temporada de "Stranger Things"

Em tempos, a estratégia da Disney — tanto para os filmes da Marvel como para os de Star Wars — foi a de encontrar realizadores independentes que tivessem créditos confirmados há pouco tempo, de forma a conseguir uma visão diferente para os filmes. A experiência em televisão também era bem recebida, pensando na possibilidade de trabalharem os filmes num plano maior e de continuidade. A filosofia pegou. Na Marvel, Chloé Zhao realizou Eternals (2021) depois dos bem-sucedidos The Rider (2017) e Nomadland (2020); Scott Derrickson pegou em Doctor Strange (2016) depois de provas dadas no género de terror; até James Gunn chegou lá depois da boa paródia Super (2010), agora está fora da Marvel e controla – e bem — o universo da DC Comics.

Com Star Wars não foi diferente, apesar de aqui falarmos de um nome maior: J.J. Abrams ganhou estatuto na televisão, reanimou Star Trek, e foi responsável pelos episódios VII (2015) e IX (2019) da terceira trilogia da saga. Gareth Edwards pegou em Rogue One: Uma História de Star Wars, de 2016 (provavelmente o melhor filme dessa leva), depois de Monsters (2010), um filme notável sobre uma invasão extraterrestre, que lhe deu créditos para reanimar o franchise de Godzilla (2014). Antes de Knives Out (2019), Rian Johnson realizou o episódio VIII (2017) da Guerra das Estrelas. A razão? Um estranho thriller de ficção científica chamado Looper (2012).

Além do sucesso, há algo de comum entre quase todos estes realizadores: trouxeram uma visão nova a um género de filmes, visão essa que depois se tornou o padrão durante algum tempo. Shawn Levy está mais para Abrams do que para estes realizadores. E, mesmo comparado ao criador de Lost, tem uma visão autoral diferente, como realizador e produtor. Será um novo caminho?

Levy nasceu em Montreal, Canadá, em 1968, e será o responsável por Star Wars: Starfighter, que se estreará em 2027, e cuja história se desenrolará cinco anos depois do último filme da terceira trilogia, Star Wars: Episódio IX — A Ascensão de Skywalker. Em jeito de parêntesis, antes disso estreará dentro do universo Star Wars, já em maio deste ano, The Mandalorian and Grogu, de Jon Favreau, um dos gurus da Disney no ciclo atual. Shawn Levy tem uma carreira já longa e é diferente da postura anterior da Disney porque tem uma característica que os outros não têm: provou que consegue o sucesso em diferentes géneros.

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▲ Shawn Levy tem, a espaços, vontade de se distanciar do que está para trás e tentar criar algo de base. Tem, também, um fator importante na sua já longa carreira enquanto realizador: os seus filmes dão quase sempre lucro

Getty Images

Em parte, há aqui um pouco de J.J. Abrams. A Disney procurava alguém que soubesse como entreter à maneira do século XXI, mas com um olho nas bases. Ou seja, consegue levar os que hoje têm responsabilidades na criatividade ao sentimento que tinham quando eram crianças e se maarvilhavam com o cinema e a televisão da altura. A nostalgia arrasta-se por estes grandes franchises. Não como uma doença, ou necessidade, mas porque entre as décadas de 80 e 90 do século passado juntaram-se diferentes géneros com um sentido único de “entretenimento de aventuras”. Aventura explorável, imaginável, mais além. Não havia necessidade de categorizar de mais. As coisas eram “assim” porque sim, sem amis justificações.

O cinema, por exemplo, andava a experimentar outras coisas, estava a criar mundos que eram de facto novos: fosse numa galáxia muito distante ou aqui, no nosso planeta. No início dos anos 1980s, a banda-desenhada sofre uma revolução e uma série de autores (Frank Miller e Alan Moore à cabeça) reinventam não só o conceito de super-herói mas também aquilo que se pode esperar que uma banda-desenhada diga e, por consequência, seja. E surgiram os videojogos, que dinamitaram a cabeça de quem nasceu no final dos 1960s e 1970s e que agora têm finalmente poder de decisão para levar a sua vontade para o que vemos e consumimos. Shawn Levy é desta leva.

Abrams é um deslumbrado pelo cinema de Steven Spielberg e George Lucas, ambicionou replicá-lo, seguindo à risca ideias e fórmulas. Shawn Levy maravilha-se com eles também, mas olha para o novo, para a fundação. Tem, a espaços, esta vontade de se distanciar do que está para trás e tentar criar algo de base. Tem, também, um fator importante na sua já longa carreira enquanto realizador: os seus filmes dão quase sempre lucro. Ou seja, é alguém que arrisca, mas que tira sempre proveito. Aliás, dá proveito a quem acredita nele.

Lucro é coisa que não deve ser preocupação para a Disney com Star Wars, mas com certeza que se importa com o que virá a seguir. Sobretudo quando a terceira trilogia mastigou o que já existia antes, sem realmente elevar o jogo. Starfighter talvez ainda não seja o que se desejaria, mas será certamente um passo em frente.

Shawn Levy começou a dar nas vistas na comédia. No início dos anos 2000, filmes O Grande Mentiroso (2002), Casados de Fresco e À Dúzia é Mais Barato (ambos de 2003) levaram-no para outras ligas, como A Pantera Cor-De-Rosa e À Noite, no Museu (ambos de 2006), franchise que iniciou, realizando os dois outros títulos que se seguiram. Há muita comédia na carreira de Levy, mas também há Puro Aço (2011), com Hugh Jackman, um daqueles filmes que soube misturar bem a ficção científica, o desporto e a mentalidade de videojogos de criar modalidades improváveis.

▲ Levy não largou os Duffer. Esteve sempre em cima, a trabalhar com eles no desenvolvimento da série, a trocar ideias, realizou episódios (dois em cada temporada, para ser preciso), e esteve muito envolvido na temporada final

Nos seus últimos três filmes trabalhou com Ryan Reynolds, numa comédia com laivos de ficção científica, Free Guy: Herói Improvável (2021), pô-lo a salvar o futuro em O Projeto Adam (2022) e, obviamente, trabalhou a personagem mais icónica de Reynolds, Deadpool, em Deadpool & Wolverine (2024), onde reencontrou Hugh Jackman.

Em paralelo, em 1999 criou a sua própria produtora, a 21 Laps Entertainment (e aqui também há semelhanças com Abrams). Está envolvida em praticamente todos os seus filmes e esteve sempre em linha com a carreira de Levy: produziu muitas comédias nos primeiros 10 anos de trabalho, mas em meados da década passada começou a interessar-se pela ficção científica. Talvez o filme mais notável dessa mudança seja O Primeiro Encontro (2016), de Denis Villeneuve, mas há também Kin (2018) ou, já no terror, Boogeyman (2023). E, claro, Stranger Things. Shawn Levy viu qualquer coisa de especial na ideia dos irmãos Duffer quando apresentaram a ideia à Netflix e resolveu fazer parte disso.

Contudo, ao contrário de outros produtores, Levy não largou os Duffer. Esteve sempre em cima, a trabalhar com eles no desenvolvimento da série, a trocar ideias, realizou episódios (dois em cada temporada, para ser preciso), e esteve muito mais envolvido nesta temporada final de Stranger Things para ajudar os manos a concretizar, da melhor forma possível, aquela ideia de mundo criado de raiz – mesmo que inspirado numa série de outras coisas – que soube criar e desenvolver as suas próprias regras e devolver, nos episódios finais, aquele toque de fantasia que existia nas primeiras temporadas — e que muitos se queixaram que já não existia na quarta temporada.

Será Levy o tipo certo para devolver a Star Wars o ímpeto de aventura que lhe tem faltado nos filmes principais (porque existiu em Rogue One e em algumas das séries de televisão de Star Wars)? Para ter a certeza, ainda temos de esperar cerca de ano e meio. Por enquanto, resta-nos acreditar que está em boas mãos. Até porque o argumentista Jonathan Troope, criador e showrunner de séries como Banshee, Warrior e Your Friends and Neighbors, também vai lá estar a trabalhar. Já agora: o elenco de Star Wars: Starfigher é composto por Ryan Gosling, Flynn Gray, Matt Smith, Mia Goth, Aaron Pierre, Simon Bird, Jamael Westman, Daniel Ings, e Amy Adams.

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