Há uma década que Capitão Fausto Têm Os Dias Contados, como enunciam no título do álbum de 2016. Mas parece que ainda não é desta. Depois de em 2020 se terem estreado na emblemática sala lisboeta do Campo Pequeno a 7 de março, quando já havia casos de Covid-19 em Portugal e o país estava prestes a fechar-se em copas; após terem anunciado o concerto na MEO Arena na manhã em que Portugal sofreu um nunca antes visto apagão; eis que o “dia claro” chegou para os Capitão Fausto. A estreia em nome próprio na maior sala portuguesa, mais uma vez com um potencial cataclismo à porta: o alerta emitido pela Proteção Civil graças aos efeitos da depressão Ingrid.
Apesar da noite gelada e chuvosa, a MEO Arena revelou-se uma casa acolhedora para todos os que procuraram aconchegar-se em torno da música calorosa dos Capitão Fausto. Passados 15 anos do lançamento do primeiro disco, Gazela — e precisamente no dia do 12.º aniversário do segundo álbum, Pesar o Sol, mais uma coincidência a juntar à lista — tiveram aquela que descreveram como “a melhor noite na história desta banda”.
Talvez seja verdade do ponto de vista mais racional e objetivo. Fizeram o maior concerto em nome próprio de sempre, numa fase de maturação artística e de aposta na internacionalização — além de estarem a estabelecer cada vez mais pontes com o Brasil, no próximo mês de março apresentam-se em diversas cidades europeias. Porém, já os vimos mais livres e indomáveis noutras ocasiões e palcos, o que também se explica facilmente tendo em conta a dimensão da responsabilidade, a vontade de não falhar e de entregar o espetáculo grandioso que pretendiam (e conseguiram) oferecer.
▲ "Uma banda faz música porque tem de fazer música, mas toca porque as pessoas a querem ouvir. Se não fossem vocês, nada disto existia”
VASCO COELHO/OBSERVADOR
Num palco luminoso e elegante, com um som apurado e sob uma série de ecrãs de espírito retro que se provaram eficazes, os Capitão Fausto propuseram-se a erguer uma noite de celebração da sua já considerável e prolífica carreira. Eles que emergiram primeiro num cenário indie rock e progressivamente foram ganhando os contornos pop que lhes permite estarem hoje numa sala bem composta como esta.
Ao longo dos anos, e com a maturidade pessoal e artística que o tempo trouxe, foram juntando ao repertório baladas introspetivas e emotivas, alargando o espetro musical de um grupo que sempre se distinguiu — e continua a distinguir-se — pela música, o entusiasmo, a vontade de fazer dançar, os refrões contagiantes, os riffs melódicos de guitarra e uma estética nostálgica e acessível por vezes envolta num óbvio psicadelismo. Foram precisamente essas canções que reuniram tantos milhares de pessoas em comunhão — jovens e menos jovens, mulheres e homens, pais e filhos graúdos, pais e filhos miúdos — na noite deste sábado, 24 de janeiro.
Alternando entre temas dos seus diferentes discos, aqueceram a plateia ao som de Morro na Praia, Faço as Vontades, Sempre Bem ou Corazón. “Nada nos prepara para esta quantidade de volume”, disseram em direção ao público. “Mas o amor nesta noite é para vocês. Uma banda faz música porque tem de fazer música, mas toca porque as pessoas a querem ouvir. Se não fossem vocês, nada disto existia”, declararam, entre outras mensagens de gratidão que se foram repetindo ao longo da noite.
▲ O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, esteve na primeira fila da plateia
VASCO COELHO/OBSERVADOR
Certeza foi dedicada à sua editora e coletivo artístico Cuca Monga e ao próprio bairro lisboeta de Alvalade, que serviu de casa e inspiração a muitos dos anos de vida dos Capitão Fausto. Depois veio a pulsão elétrica de Maneiras Más, com a sua aura psicadélica e o carisma que já há mais de uma década provava que esta banda possuía de facto um calibre pop digno de outras ambições.
Mostrando como tinham explorado diferentes possibilidades de concerto na MEO Arena, passaram subitamente para um segundo palco no meio do público, na parte de trás da sala. Pendurada do teto, uma estrutura quadrangular repleta de projetores de luzes iluminou os Capitão Fausto num registo mais próximo do público, aquele que também sempre os caracterizou nos inúmeros palcos por onde passaram ao longo destes anos.
Seria aquela a plataforma para Amor, a Nossa Vida (com uma arena aclarada por luzes de telemóvel), Dias Contados, Nada de Mal e Nuvem Negra. Interpretaram ainda Cantiga Infinita — do mais recente álbum, Subida Infinita, editado há um par de anos — com a voz de um ausente Tim Bernardes a ecoar pelo Parque das Nações. E apresentaram Escolhas, um novo tema desvendado há dias, que fará parte de um próximo projeto, embora já tenha sido anunciado não se tratar de um “álbum convencional”.
▲ Mostrando como tinham explorado diferentes possibilidades de concerto na MEO Arena, passaram subitamente para um segundo palco no meio do público, na parte de trás da sala
VASCO COELHO/OBSERVADOR
Pelo meio, fizeram questão de pedir “o maior aplauso da noite” para Francisco “Ferrari” Ferreira, músico fundador da banda e co-autor de todos os discos, que decidiu deixar o grupo na última digressão. Aliás, foi uma das perdas — ou ausências — que acabaram por moldar o próprio tom de Subida Infinita. “Estás sempre no nosso coração, sabemos que ele anda aí algures”, atirou Domingos Coimbra perante a multidão, descrevendo o antigo colega de banda como o “primeiro amigo” que fez na escola.
De volta ao palco principal para o último terço do serão, e de novo acompanhados pelos músicos de tour Miguel Marôco (nas teclas) e Fernão Biu (guitarras e sopros), chegou uma enxurrada de êxitos para alavancar a noite de glória. Na Na Nada pôs toda a gente a cantar, em Teresa saltaram copos de cerveja pelo ar, a inevitável festa de Santa Ana teve direito a uma versão extensa de grande virtuosismo e foi o momento oportuno para que o vocalista Tomás Wallenstein se atirasse para cima da multidão num crowdsurf com uma correnteza de vários metros. “Foram meses a antecipar esta noite, a imaginar como seria, a pensar em todas as imperfeições e imprevistos, mas é sempre, sempre melhor”, rematou o cantor.
No derradeiro momento, sentado ao piano, entoou a balada Nunca Nada Muda. “Porque é que a pica não voltou?/Anda muito mais difícil/Do que quando isto arrancou/Longa é a subida e não vai dar/Com cada um p’ra seu lado”, canta Wallenstein. Com tantos milhares de fiéis reunidos, com a infalível pica de fazer a mais importante sala do país, a Subida Infinita dos Capitão Fausto não ficou certamente por aqui.