Tinha acabado de superar uma depressão, estava prestes como nunca a abrir o coração sobre a única coisa que lhe era capaz de prender as pernas. Ao longo de vários anos entre as décadas de 70 e 80, Fernando Mamede era um dos expoentes máximos do atletismo português e internacional mas tinha um e só um adversário que conseguia evitar que chegasse aos pódios que aquela morfologia tinha destinado. Era um inimigo invisível que, com espaço e pela evolução dos tempos, se foi tornando mais visível. Quase palpável. Assumido. “Se pudesse voltar atrás, mudava? Não mexia nada. Estive no clube que queria, treinei com o treinador que queria, só gostava é que quando comecei houvesse psicólogos que me compreendessem e pudessem dar a volta à minha cabeça”, confidenciou numa entrevista ao Expresso em 2016, por altura do 65.º aniversário. Numa frase, o alentejano que quando conseguia voava nas pistas definiu toda uma carreira.

Porque Mamede, no início, era sobretudo alguém do “contra”. Nascido em Beja, tinha um pai benfiquista ferrenho mas desde miúdo assumiu o seu sportinguismo (que vinha do dono da alfaiataria onde o pai trabalhava, que era seu padrinho) e tinha uma mãe que não o queria no futebol mas que apenas acelerou a que começasse a ligação ao desporto nas quatro linhas (nos pelados e não no relvado, que era coisa rara nessa altura nos pequenos clubes alentejanos por onde passou), primeiro no Despertar e depois no Desportivo. No entanto, após participar num Distrital de Corta-Mato em Beja, tudo mudou. A partir daí, o miúdo alto e esguio do contra tornou-se a favor de realizar os sonhos. Eram dois e só dois, realizou os dois de uma vez.

O impulso foi dado com uma vitória num Corta-Mato escolar em Viseu, ganhando a muitos miúdos que eram federados tendo em conta que o atletismo em Beja era uma raridade. Mais tarde, a 10 de junho, impressionou tudo e todos na prova dos 1.000 metros dos Jogos da Mocidade Portuguesa. Mais uma vez corria contra os federados, mais uma vez acabou na frente. Quando saiu dos balneários após o banho, falou com um atleta do Sporting que lhe deu os parabéns dizendo que um dia também gostava de representar o clube de Alvalade. Demorou, literalmente, um dia: a 11 de junho um seccionista verde e branco foi ter com Mamede com um contrato na mão. Aceitou, sem pensar. A partir daí, corria pelo clube de coração e podia ganhar aos federados… como federado. E não foi apenas essa porta que o momento abriu na vida do alentejano.

Nessa altura, Fernando Mamede ainda regressou a Beja para continuar os seus estudos mas, depois de o pai ter sofrido um AVC que o deixou incapacitado para trabalhar, falou com o clube para encontrar uma forma de continuar no atletismo mas ajudar a família. Foi também por isso que, em abril de 1969, se mudou de armas e bagagens para Lisboa, podendo continuar a correr e tendo outro emprego que lhe permitia ter um subsídio para enviar para Beja (na sede do Sporting, que ficava então na Rua do Passadiço, onde entrou para a contabilidade) ao mesmo tempo que começava a trabalhar de perto com Mário Moniz Pereira, um dos grandes pilares que conhecia dos jornais para uma adaptação facilitada pelo ambiente que tinha.

Nas pistas, o recorde nacional de juniores dos 800 metros, com a marca de 1,57,7 em 1969, deu o mote para um trajeto que rapidamente saltou fronteiras e com novo registo máximo batido no ano seguinte também nos 800 metros, num meeting em Bruxelas. Seguiram-se os Campeonatos da Europa de Helsínquia e os Jogos Olímpicos de 1972, em Munique, com cinco Campeonatos de Portugal ganhos nas estafetas de 400, 800 e 1.500 metros. Os problemas estavam detetados. “Há pessoas que escondem mas a pessoa não tem culpa. Nasceu assim. Isto é genético. A primeira vez que me apercebi disto foi em 1970, nos Europeus de Juniores, em Paris. Foi aí que soube da minha ansiedade. Como ia com o melhor tempo da Europa nos 800m já não andei bem. Era o medo de ganhar, de as coisas correrem mal, vários medos”, contou ao Público.

Foi aí que, pela primeira de muitas vezes, teve um episódio de sabotagem própria. Sabia que tinha mais do que pernas e capacidade para avançar na competição, ficou com receio de fazer a corrida do dia seguinte. A cabeça desligou a meio, as pernas desligaram nos metros finais. Quer isso dizer que não fazia marcas? Não, fazia. Em quatro anos até 1974 bateu por cinco ocasiões o recorde nacional dos 800 metros, em cinco anos até 1976 bateu por seis vezes o registo português dos 1.500 metros. Mais: uma dessas ocasiões foi mesmo nos Jogos Olímpicos, neste caso os de Montreal em 1976, quando o companheiro de equipa Carlos Lopes ganhou a medalha de prata nos 10.000 metros. O problema é que nem sempre a cabeça estava sem travão para que todo o combustível genético que tinha nas pernas pudesse carburar contra os melhores.

Até 1978, Mamede viu um pouco de tudo. Casou com uma outra funcionária do Sporting que conhecera na altura, Alzira (não evitando a situação insólita de ser tão rápido mas chegar atrasado cerca de uma hora à igreja…), fez a tropa em Leiria, foi pai de Patrícia, só não seguiu para Moçambique porque um outro recruta rumou na sua vez, teve um imbróglio com os leões que quase levou à saída. Mais uma vez, Mário Moniz Pereira foi a peça chave para resolver tudo, com o Plano de Alta Competição a ser entregue à Direção Geral dos Desportos que se tornou o primeiro passo para a profissionalização “possível” que, nessa altura, passava somente pela dispensa do trabalho na parte da manhã para os atletas terem dois treinos por dia. Essa vertente da preparação estava lá, o resto nem por isso como se viu nos Europeus de Praga, onde chegou à final dos 5.000 metros mas acabou por soçobrar por não aguentar os nervos – algo que o treinador, a quem nunca tinha falado nessa barreira que de quando em vez aparecia, percebeu de forma fácil pela “quebra”.

“Eles percebiam o que se estava a passar mas não fizeram nada. Psicólogos desportivos só havia um, que era o que estava na Faculdade de Motricidade Humana. Nessa altura não trabalhei com ninguém. Não foi uma coisa que aconteceu e que o professor tivesse a perceção de que efetivamente precisava de ajuda psicológica para vencer os problemas que tinha. O professor, para dizer a verdade, não gostava muito que alguém se intrometesse no método dele. Não gostava. E um psicólogo podia querer alterar alguma coisa do treino e ele não lidava bem com isso. Se sugeri isso? Não, pensei sempre que ia passar…”, contou ao Expresso.

Aproveitando o impulso da vitória de Lopes no Mundial de Corta-Mato de 1977, Fernando Mamede fez parte de várias equipas verde e brancas que foram ganhando a Taça dos Campeões Europeus e continuou a somar títulos nos Nacionais. Os resultados internacionais também foram aparecendo, catapultados por um momento importante no trajeto quando bateu o recorde nacional dos 10.000 metros em 1980 que pertencia há quatro anos a Carlos Lopes. Em 1981 consegue fulminar pela primeira vez o recorde europeu da distância, nesse mesmo ano ganha a medalha de bronze nos Mundiais de Corta-Mato, em 1982 volta a recuperar esse recorde europeu em Paris que entretanto perdera para Lopes, em 1984 bate o recorde mundial dos 10.000 metros – sendo que pelo meio tem pela primeira vez contacto com alguém capaz de dar apoio psicológico, neste caso Joseph Wilson que estava no Centro de Medicina do Estádio Universitário de Lisboa.

Estava a chegar aquele que seria o momento de coroação de toda uma carreira: os Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984. Havia uma conjugação perfeita para que Mamede subisse ao posto mais alto do pódio. E, à distância de mais de quatro décadas, os portugueses de horas trocadas pela esperança de verem o momento pelo qual ansiavam tinham tantas ou mais esperanças no alentejano do que em Carlos Lopes, que iria correr a maratona. Mais: sendo recordista mundial e “alvo” a abater, tinha superado com distinção a sua meia-final com um triunfo sólido. Estava tudo preparado para um dia de glória a 6 de agosto (madrugada em Portugal), foi aí que tudo ruiu até à queda com estrondo. O italiano Alberto Cova ganhou, Mike McLeod e Michael Musyoki foram ao pódio após ficarem atrás do português nas eliminatórias, Mamede desistiu.

Seguiram-se vitórias importantes em provas internacionais, como os triunfos nos 5.000 metros dos meetings de Zurique e Rieti ou nos 10.000 metros do meeting de Paris mas o tempo era algo que não mais voltaria para trás. Apesar de ter corrido até 1990, numa fase final mais a olhar para as provas nacionais que fazia pelo Sporting, mas aquela oportunidade pela qual sempre lutara esfumou-se de forma inglória naquela pista do Los Angeles Memorial Coliseum. Aí, falou-se de desilusão, de “Nikefobia”, até de “complexo Mamede”. Ali começou-se a perceber que nem sempre o treino era suficiente para trazer louros aos melhores.

“Ninguém falava de psicologia do desporto. Quando se falava em psicólogos era porque o gajo era maluquinho, era estúpido. Os que procuravam ajuda eram diminuídos pelos colegas. Agora tinha muito mais armas para combater isto. Deixa-me amargurado porque, infelizmente, Portugal não tinha estes tratamentos. No estrangeiro já existiam. Para seres atleta de alta competição tens de limpar a mente. Apesar de, nos desportos coletivos, este tipo de problemas ser menor. Não é o jogador sozinho que decide o título, é a equipa. No atletismo somos uma modalidade individual e, por nós próprios, temos de fazer as coisas”, comentou ao Público em 2019. Mamede, que morreu esta terça-feira aos 74 anos, foi aquele pássaro que voou como mais nenhum quando bateu recordes  europeus e mundiais mas que podia ter voado acima de todos os outros se todos os argumentos físicos e técnicos se expressassem em pista como nem sempre aconteceu.

“Fomos colegas, fizemos coisas extraordinárias, que ficam para a história do desporto português, cada um à sua maneira. Portanto, esta perda é realmente dolorosa, mais para a família, mas também para as pessoas que gostam muito de desporto. É uma perda irreparável, [Fernando Mamede] é um ícone do desporto, às vezes mal compreendido. Uma vez ganhava eu, outra vez ganhava ele, enfim, é a lógica da vida e do desporto. Quero-lhe agradecer, também, o muito que aprendi com ele, porque sem ele, eu se calhar não era tão bom”, resumiu Carlos Lopes, antigo campeão olímpico e companheiro no Sporting, à agência Lusa.

“Mamede, uma figura marcante e incontornável do atletismo e do desporto nacional”

As reações não demoraram a cair, a começar por Marcelo Rebelo de Sousa. “Foi com pesar que o Presidente da República tomou conhecimento da morte do atleta olímpico Fernando Mamede, figura marcante e incontornável do atletismo e do desporto nacional e que, entre múltiplos feitos e vitórias memoráveis, foi o recordista mundial dos 10.000 metros, durante largos anos. O fundista alentejano foi agraciado, em 1989, num reconhecimento pela sua carreira, com o grau de Comendador da Ordem do Mérito. À sua família, amigos, ao Sporting Clube de Portugal e à Federação Portuguesa de Atletismo, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa apresenta as sentidas condolências”, salientou uma nota da Presidência.

“É com profundo pesar que o Governo de Portugal se despede de Fernando Mamede, recordista mundial dos 10.000 metros e um dos ídolos do atletismo nacional. Fernando Mamede será sempre um exemplo maior para o desporto português. Aos familiares e amigos as mais sentidas condolências”, salientou Margarida Balseiro Lopes, ministra da Cultura, Juventude e Desporto, em nome do Governo na rede X. “O Instituto Português do Desporto e Juventude manifesta o seu profundo pesar pelo falecimento de Fernando Mamede, uma das figuras maiores do atletismo português. O IPDJ apresenta à família, amigos, comunidade desportiva as mais sentidas condolências”, escreveu na mesma rede social o IPDJ.

“A Federação Portuguesa de Atletismo, na pessoa do seu presidente Domingos Castro, manifesta o seu profundo pesar pelo falecimento de Fernando Mamede, figura ímpar e um dos maiores nomes da história do atletismo português. O atletismo português chora a perda de uma das suas figuras mais emblemáticas: Fernando Mamede, um ídolo eterno que nos deixou esta terça-feira, aos 74 anos. Natural de Beja – onde nasceu a 1 de novembro de 1951 –, Mamede foi recordista mundial dos 10.000 metros, expoente máximo do desporto nacional e internacional, e inspiração para gerações de atletas e adeptos. A sua carreira, marcada por uma excelência desportiva inigualável e uma luta interior constante, transformou-o numa referência imarcescível da história do atletismo português, deixando saudades eternas pela velocidade, garra e legado que perdura nas pistas do mundo”, destacou a FPA, entre as sentidas condolências à família.

“Fernando Mamede foi um dos maiores nomes do atletismo nacional. Nascido a 1 de novembro de 1951, acumulou várias presenças em grandes competições internacionais, destacando-se a medalha de bronze no Campeonato do Mundo de Corta-Mato em 1981. Deteve o título de recordista mundial nos 10 000 metros, entre 1984 e 1989, e foi ainda dono de três recordes europeus e 27 nacionais, em distâncias que variaram dos 1000 metros até à milha. Atleta do Sporting, treinado por Mário Moniz Pereira com quem tinha uma grande relação de proximidade, somou três participações em Jogos Olímpicos, de Munique 1972 a Los Angeles 1984, em provas de 800 metros, 1.500 metros, 10.000 metros e estafeta. À família e amigos enlutados, à Federação Portuguesa de Atletismo, ao Sporting e à Associação dos Atletas Olímpicos de Portugal, o Comité Olímpico de Portugal apresenta sentidas condolências”, apontou o COP.

“O Sporting Clube de Portugal manifesta o seu profundo pesar pela morte de Fernando Mamede, antigo atleta dos leões que faleceu esta terça-feira aos 74 anos. Um dos maiores nomes da história do desporto português e do emblema de Alvalade, especializou-se nas provas de fundo. Para além das inúmeras medalhas, entre elas a de bronze nos Campeonatos do Mundo de Corta-Mato em 1981, foi recordista europeu e mundial. Participou ainda em três edições dos Jogos Olímpicos (1972, 1976 e 1984) e contribuiu para várias conquistas coletivas do Sporting, sendo até hoje lembrado como uma lenda da modalidade. Aos familiares e amigos, o Sporting endereça as mais sentidas condolências, não deixando de enaltecer e agradecer os anos de esforço e dedicação ao clube”, apontou o seu clube de sempre.

“A morte de Fernando Mamede representa uma enorme perda para todo o Desporto português. Atleta de eleição, foi uma das maiores figuras de sempre do atletismo mundial e uma referência para todos os adeptos da modalidade. Em nome da Federação Portuguesa de Futebol, endereçamos as mais sentidas condolências à família e amigos de Fernando Mamede, assim como à Federação Portuguesa de Atletismo e ao Sporting, o seu clube de sempre”, frisou também Pedro Proença, líder da FPF, num nota no site oficial.

“Fernando Mamede foi muito mais do que um atleta extraordinário. Foi uma figura marcante do Desporto nacional, cujo talento, dedicação e percurso continuam a inspirar gerações. O seu nome ficará para sempre ligado a um dos capítulos mais brilhantes do atletismo português”, salientou Daniel Monteiro, presidente da Confederação do Desporto de Portugal, que fala num “atleta notável e de exceção, tantas vezes incompreendido, que deixa um legado único na história do atletismo e do Desporto português.

“A notícia da morte de Fernando Mamede é motivo de grande tristeza para gerações de portugueses que acompanharam a sua carreira de grande atleta de nível mundial. Recordista mundial dos 10 mil metros, Mamede foi e continuará a perdurar como um ícone do Desporto português. O atletismo nacional perdeu uma das suas referências eternas. Aos seus familiares e aos seus amigos apresento, em meu nome pessoal e do Partido Socialista, as mais sentidas condolências neste momento de grande perda”, escreveu José Luís Carneiro, secretário-geral do PS, num texto publicado na conta oficial na rede X.