A Liga dos Campeões e a final four da Taça da Liga empurraram para fevereiro o último jogo dos quartos de final da Taça de Portugal. Algo que em teoria seria natural e pouco problemático, mas que acaba por criar alguma ansiedade no universo do Sporting — afinal, com o FC Porto já nas meias-finais da competição e o Benfica já eliminado, os leões ainda nem sequer sabiam se continuavam dentro de um dos principais objetivos da temporada. A ansiedade, porém, terminava esta quinta-feira.

Contra o AVS, a surpresa da Taça de Portugal que ainda não tem vitórias no Campeonato mas eliminou o V. Guimarães na ronda anterior, o Sporting voltava aos relvados depois de uma jornada particularmente feliz: o Benfica empatou, os leões venceram com um golo dramático nos descontos e o FC Porto perdeu. Ou seja, a equipa de Rui Borges ficou a sete pontos da liderança a poucos dias do Clássico no Dragão. Algo que, segundo o próprio treinador, ainda não estava na cabeça de ninguém na antecâmara do encontro desta quinta-feira.

Ficha de jogo

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Sporting-AVS, 3-2 (após prolongamento)

Quartos de final da Taça de Portugal

Estádio José Alvalade, em Lisboa

Árbitro: André Narciso (AF Setúbal)

Sporting: João Virgínia, Vagiannidis (Geny Catamo, 105′), Eduardo Quaresma, Gonçalo Inácio, Ricardo Mangas (Maxi Araújo, 90′), Hjulmand, Kochorashvili (João Simões, 68′), Trincão (Nuno Santos, 77′), Daniel Bragança (Pedro Gonçalves, 68′), Luis Guilherme (Souleymane Faye, 87′), Luis Suárez

Suplentes não utilizados: Rui Silva, Diomande, Morita

Treinador: Rui Borges

AVS: Simão Bertelli, Ángel Algobia (Nenê, 82′), Cristian Devenish, Paulo Vitor, Leonardo Rivas, Gustavo Mendonça, Roni (Tiago Galletto, 79′), Guilherme Neiva (Óscar Perea, 57′), Pedro Lima, Diego Duarte (Babatunde Akinsola, 57′), Tomané (Antoine Baroan, 57′, Jaume Grau, 90′)

Suplentes não utilizados: Pedro Trigueira, Kiki Afonso, Aderllan Santos

Treinador: João Henriques

Golos: Luis Guilherme (29′), Paulo Vitor (ag, 49′), Pedro Lima (gp, 63′), Nenê (gp, 90+2′), Geny Catamo (117′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Roni (17′), a Luis Guilherme (39′), a Eduardo Quaresma (66′), a Paulo Vitor (83′), a Pedro Lima (88′), a Simão Bertelli (98′)

“Não há jogo que vá ditar nada. Estivemos a oito pontos, perdemos nove e depois fomos campeões. No futebol muda tudo muito rápido. Poderá acontecer uma outra mudança no onze, é possível, faz parte. Sabem que todos são capazes de dar resposta, todos estão ligados, estou tranquilo. Poderá haver não a pensar no FC Porto, mas porque há jogadores mais sobrecarregados e temos de ter cuidado. Todos eles já deram resposta, aqui quem está acima de tudo é o Sporting, mais nada. Já ganhámos com todos e sem todos, entre aspas. Aqui ninguém está acima da equipa e eles percebem isso. Estou super confiante em relação ao meu plantel”, disse Rui Borges na antevisão da partida.

Ora, neste contexto e em Alvalade, o treinador leonino confirmava o que tinha dito há poucos dias, quando Hjulmand falhou a receção ao Nacional na sequência de uma proposta do Atl. Madrid na reta final do mercado de inverno, e lançava mesmo o dinamarquês no onze inicial. João Virgínia, Ricardo Mangas, Kochorashvili e Daniel Bragança eram todos titulares, em detrimento de Rui Silva, Maxi Araújo, João Simões e Geny Catamo, sendo que Pedro Gonçalves e Nuno Santos estavam no banco — este último mais de um ano depois da última aparição pela equipa principal leonina. Do outro lado, João Henriques tinha Tomané como a natural referência ofensiva e deixava Nenê como suplente.

O jogo começou equilibrado e sem verdadeiras aproximações perigosas à baliza, ainda que cedo se tenha percebido que seriam Trincão e Luis Guilherme, um na esquerda e outro na direita, a agitar o ataque do Sporting. O AVS mostrava-se mais organizado do que na visita mais recente a Alvalade, em dezembro e onde acabou goleado, e ia conseguindo estagnar as tentativas leoninas de chegar perto da baliza de Simão Bertelli.

Mais do que isso, a equipa de João Henriques acabou mesmo por ter os dois primeiros remates enquadrados do jogo: Guilherme Neiva atirou rasteiro para João Virgínia encaixar (15′) e Leonardo Rivas, pouco depois, rematou de fora de área para o guarda-redes português segurar a dois tempos (19′). Ao mesmo tempo, os leões tinham alguma dificuldade para criar lances de ataque completos, com início, meio e fim, e raramente alcançavam a finalização — apesar de terem o controlo algo teórico da partida, com mais bola e presença maioritária no meio-campo contrário.

À medida que o tempo foi passando, porém, o Sporting foi crescendo. O AVS baixou as linhas, também a sentir o maior ascendente contrário, e a equipa de Rui Borges criou as melhores oportunidades até então, com Trincão a rematar ao lado após cruzamento de Ricardo Mangas na esquerda (20′) e Luis Suárez a permitir a defesa de Simão Bertelli depois de deixar um adversário para trás (27′). Já em cima da meia-hora, o golo apareceu mesmo. 

Daniel Bragança recuperou a bola na zona do meio-campo, Hjulmand abriu na direita e Luis Guilherme puxou para dentro para atirar em jeito e estrear-se a marcar pelos leões (29′), coroando o facto de estar claramente a ser o elemento mais inspirado da equipa de Rui Borges. Suárez ainda ficou perto de aumentar a vantagem à beira dos descontos, com Kochorashvili a acertar na trave na recarga (45′), mas já nada mudou até ao fim da primeira parte. Ao intervalo, em Alvalade, o Sporting estava a vencer o AVS e colocava-se a 45 minutos das meias-finais da Taça de Portugal.

Nenhum dos treinadores fez alterações ao intervalo, mas Rui Borges aproveitou para trocar os extremos de corredor, com Luis Guilherme a aparecer à esquerda e Trincão à direita. O Sporting entrou na segunda parte praticamente a marcar: Luis Guilherme e Ricardo Mangas combinaram na esquerda e o lateral apareceu quase na linha de fundo a cruzar rasteiro para a área, onde Luis Suárez voltou a tentar desviar de calcanhar, mas acabou por ser Paulo Vitor a tocar para trair o próprio guarda-redes e aumentar a vantagem leonina (49′).

João Henriques mexeu pouco depois, lançando Óscar Perea, Antoine Baroan e Tunde de uma vez, e o AVS acabou por conseguir reduzir a desvantagem sem que nada o fizesse prever: Hjulmand intercetou um remate com o braço dentro da grande área, André Narciso foi chamado ao VAR e assinalou grande penalidade, com Pedro Lima a bater João Virgínia na conversão (63′). Instantes depois, numa fase em que os leões pareciam algo desconcentrados, Rui Borges foi ao banco e colocou João Simões e Pedro Gonçalves, para além de fazer Luis Guilherme regressar à direita e Trincão à esquerda.

Já dentro do último quarto de hora, surgiu o momento por que Alvalade esperava: Trincão saiu e entrou Nuno Santos, que regressou à equipa principal leonina mais de um ano depois de se ter lesionado gravemente no joelho, merecendo uma ovação das bancadas. O ala português ainda ficou perto de carimbar uma assistência no regresso, num lance em que Pedro Gonçalves atirou ao lado na cara do guarda-redes (82′), mas a eliminatória ficou em suspenso já dentro do período de descontos.

André Narciso voltou a ser chamado ao ecrã do VAR, desta feita devido a um lance entre Vagiannidis e Óscar Perea na área dos leões, e voltou a assinalar grande penalidade, com Nenê a converter para empatar e atirar tudo para prolongamento (90+2′) — e com os avenses a cumprirem os descontos em inferioridade numérica, já que Antoine Baroan sofreu uma lesão muito grave num duelo com Suárez e João Henriques já tinha esgotado as substituições, lançando depois Jaume Grau no arranque da meia-hora extra.

Rui Borges arrancou para o tempo suplementar com uma substituição, trocando Ricardo Mangas por Maxi Araújo, e Luis Suárez não demorou a ter um golo anulado por fora de jogo (96′). Geny Catamo também entrou já na segunda parte do prolongamento e acabou por decidir a eliminatória numa fase em que o desgaste físico dos avenses já era dramático: recebeu na direita, puxou para dentro, passou por um adversário e atirou forte e sem hipótese para o guarda-redes (117′).

No fim, com muito esforço à mistura, o Sporting venceu mesmo o AVS após prolongamento e está nas meias-finais da Taça de Portugal, onde vai defrontar o FC Porto. Numa partida que se tornou muito mais complicada do que o que seria de esperar, chegaram a passar fantasmas por Alvalade — fantasmas daquela final do Jamor perdida em 2018, quando o AVS ainda era Desp. Aves e Alcochete tornou-se sinónimo da página mais negra da história leonina. Felizmente para Rui Borges e companhia, Geny Catamo não é desse tempo.

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