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Da Berlinale, um retrato dilacerante da vida a chegar ao fim

Este artigo tem mais de 6 meses

“Queen at Sea”, de Lance Hammer, com Anna Calder-Marshall, Tom Courtenay e Juliette Binoche, veio mudar o curso deste festival.

Tom Courtenay e Anna Calder-Marshall em “Queen at Sea”
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▲Tom Courtenay e Anna Calder-Marshall em “Queen at Sea”

▲Tom Courtenay e Anna Calder-Marshall em “Queen at Sea”

A demência de um parente não é apenas uma das situações mais extremas que qualquer família, em qualquer canto do mundo, independentemente da sua raça ou credo, pode enfrentar. É também uma das temáticas mais raras de encontrar no cinema e, quando abordada, fica por hábito e cautela em pano de fundo. Foram excepções recentes Amour, de Michael Haneke, em 2012, e Vortex, de Gaspar Noé, em 2021 (em ambos os casos, obras singularíssimas na filmografia dos seus autores). A estes se junta agora, com lucidez comovedora, Queen at Sea, que veio mudar o curso desta Berlinale.

O norte-americano Lance Hammer (n. 1967), residente em Los Angeles e formado em arquitectura, não filmava há 18 anos, desde o saudoso Ballast (2008), que já era um filme de gente quebrada e em depressão, rodado com actores amadores, no caso, a história de uma família negra do delta do Mississippi — ficou na memória o seu testemunho de sinceridade e partilha. Hammer não quis dar seguimento a essa carreira. Fez outras coisas na vida sem perder a ligação com o cinema, preferindo a docência.

Uma experiência pessoal por ele revelada em conversa, esta quarta-feira, levou-o a esta história passada no norte de Londres sobre uma idosa com Alzheimer, “mas há tantas armadilhas para clichés e sentimentalismo sobre este assunto que o filme não poderia ser apenas a doença. O guião evoluiu para outros aspectos da vida humana. Nomeadamente, para o que observamos e como reagimos uma vez confrontados com o fim dela.”

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▲ Lance Hammer e Juliette Binoche na conferência de imprensa de “Queen at Sea”, em Berlim

AFP via Getty Images

A conversa com Lance Hammer também permitiu apurar a que ponto se documentou o cineasta sobre a dita observação. Lance escreveu e pensou filmar tudo isto nos Estados Unidos, procurou actores americanos e só sabia, à partida, que queria Juliette Binoche no papel de Amanda. Só depois optou por filmar no Reino Unido, procurando intérpretes britânicos. A história adaptou-se então ao norte de Londres e aos procedimentos da sociedade inglesa.

Na história do filme, Leslie, a mãe de Amanda (Anna Calder-Marshall), está demente, mas continua a viver em casa e a ser tratada com diligência pelo marido da mesma idade, Martin (Tom Courtenay), padrasto da personagem de Binoche. Certa manhã, esta visita-os sem avisar e surpreende os idosos a ter relações sexuais. Não é a primeira vez que isso acontece. Amanda resolve então chamar a policia, acusando implicitamente o padrasto de abuso.

Compreende-se em seguida que a reacção instintiva dela não tem origem em qualquer moralismo ou malquerença contra o padrasto, antes por desconhecer se aquele envolvimento físico, dado o estado de inconsciência da mãe, pode prejudicar-lhe a saúde — já para não dizer que fica em causa a dificuldade em averiguar se aquela é, de facto, uma relação consentida.

A polícia, adjuvada pela disciplina e pelo rigor conhecidos aos serviços sociais britânicos, faz o que lhe compete, lança uma investigação, concluindo ser melhor que o casal de longa data se separe, com a senhora a ser internada em lar apropriado. Esta decisão, no desenvolvimento do drama, acabará por dar origem a consequências terríveis para as personagens.

Lance Hammer colheu da realidade a complexidade deste caso tão bicudo (não vem imediatamente à memória outro assim em tempos recentes), explicando que a manifestação daqueles instintos primordiais (como a vontade de sexo) no quadro clínico apresentado é especialmente frequente, mesmo naquela idade avançada. No ecrã, é óbvio que ter dois actores do nível extraordinário de Anna Calder-Marshall (79 anos) e “Sir” Tom Courtenay (88 anos) ajuda a tornar tudo isto lancinante.

A complexidade do filme não fica por aqui porque, no olhar de Amanda, está o ponto de vista do cineasta num ciclo de vida entre gerações (paralelamente, segue-se o percurso da filha adolescente de Amanda, Sara/Florence Hunt). Ora, o que mais nos impressiona, o que torna este filme tão diferente de todos os outros, é que Amanda, face ao dilema que tem em mãos, é uma personagem que não sabe o que fazer (só uma grande actriz como Binoche “sai viva” deste embate), expondo as incertezas que, entretanto, também se alastraram à plateia — afinal, neste embate com o fim da vida, o que faríamos se estivéssemos naquele lugar?

▲ Juliette Binoche e Tom Courtenay no filme de Lance Hammer

Para Amanda, não saber o que fazer não é “falha” de guião “bem arrumado” em que todos sabem ir do ponto A ao B. Nada disso. É antes exposição crua de uma dúvida sem puritanismos nem hipocrisias (já que este caso também é permeável a um preconceito social sobre a velhice). O filme sabe muito bem o que fazer com ela. Ela é que não sabe que decisão tomar. Como Queen at Sea depois sugere, o sexo e a intimidade natural de Leslie e Martin talvez seja o que, da forma mais generosa e pura, continua a mantê-los ligados à vida.

Queen at Sea é um filme estranho e sem paralelo, um trabalho superior de dramaturgia em tudo alheio ao “filme de festival” e a qualquer ideia de cinema pré-concebido. Ultrapassa-nos a todos na audiência e há-de ter desenvolvimentos e discussões em múltiplos ramos do saber, da neurociência e da psicologia à acção social, até aos campos filosóficos que discutem a ética, a dignidade humana e a forma como encaramos a morte. E que actores tem, notabilíssimos!

O autor escreve segundo a antiga ortografia. 

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