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O regresso dos Primitive Reason: 30 anos numa noite

Este artigo tem mais de 6 meses

O álbum "Alternative Prison", de 1996, foi banda sonora de uma adolescência desalinhada. Na sexta-feira, no LAV, o reencontro viu-se e ouviu-se mais como gratidão no presente que nostalgia do passado.

Três décadas depois, o mesmo grupo serve sobretudo para nos lembrarmos que, em tempos de guerra, baixar as defesas também é viver, sobretudo se o fizermos com a banda sonora certa
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▲Três décadas depois, o mesmo grupo serve sobretudo para nos lembrarmos que, em tempos de guerra, baixar as defesas também é viver, sobretudo se o fizermos com a banda sonora certa

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▲Três décadas depois, o mesmo grupo serve sobretudo para nos lembrarmos que, em tempos de guerra, baixar as defesas também é viver, sobretudo se o fizermos com a banda sonora certa

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Trinta anos passam a correr, menos para quem já sente a idade nas articulações e em músculos cuja existência desconhecia — sobretudo no famoso “dia seguinte”, neste caso aquele que se seguiu a uma viagem no tempo, até ao longínquo ano de 1996, como o que se viu no LAV na sexta-feira à noite.

Foi o ano dos Jogos Olímpicos de Atlanta e de ver a seleção portuguesa voltar ao Europeu de Futebol, tanto tempo depois. Ximenes Belo e Ramos-Horta receberam o Nobel da Paz, num momento tão celebrado como o golo de Figo, em Nottingham. No mundo da música, morreram os Mamonas Assassinas e Bradley Nowell, dos Sublime; os Take That acabaram; Phil Collins abandonou os Genesis e Slash deixou os Guns N’ Roses. Saiu o primeiro single das Spice Girls e os Korn lançaram o segundo álbum, abrindo caminho a uma sonoridade que marcaria os anos seguintes.

No mesmo 1996, em maio, foi lançado o álbum Alternative Prison, estreia dos Primitive Reason. Marcaram uma época, talvez uma subcultura, sobretudo porque traziam para Portugal uma identidade que não cabia nas prateleiras envelhecidas da Discoteca Roma. Não era fado, rock ou popular, era algo diferente e naqueles tempos faltava diversidade na cena musical portuguesa. Nas rádios ouviam-se Delfins, Rio Grande, Pedro Abrunhosa e os Clã, enquanto Saúl brilhava nos bailes da terrinha. Mas ali mostrava-se outra cor, outro ritmo e a língua inglesa ficava-lhes bem, sobretudo nas pracetas suburbanas.

Nós, jovens, imagine-se, tínhamos sonhos — tão pueris como achar que podíamos mudar o mundo, talvez porque tínhamos também uma vontade imensa de conhecer o diferente. Entre copos e desabafos emocionados nas caves de um Bairro Alto que já não existe, nos “bolos”, a caminho da Feira da Ladra ou no comboio de regresso das 6h07, descobríamos que todos falávamos a mesma língua. E cedo percebemos que todas as gerações precisam de um hino, mesmo quando não o procuram em consciência, mesmo quando os autores não querem essa responsabilidade.

▲ Pés em riste, pernas dobradas, braços no ar, o corpo a reagir aos acordes e ao ritmo, numa aparente desconexão. O entusiasmo foi o de 1996 em cima dos joelhos de 2026: 30 anos de um orgulho pouco ortopédico

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Seven Fingered Friend foi o nosso hino durante aqueles anos. Houve outros, claro, mas havia algo de especial naquele single. Era alegria e raiva, era realidade e utopia, era a metáfora perfeita de tudo o que vivíamos e sentíamos tão intensamente. E aquela “little lady” abria-nos caminho a outras melodias e letras, como The X in X, onde se dava voz aos perigos do racismo omnipresente, que matara Alcindo no ano anterior, ou Devil in June, onde mergulhávamos numa longa piscina de riffs psicóticos. E Hipócrita, claro, espelho de consciência para adolescentes ensimesmados que rapidamente percebiam que o tal nunca seria o que sonhámos.

Também foi com os Primitive Reason que aprendemos que as pessoas desaparecem, mas tudo pode continuar (aparentemente igual). Sai um vocalista, ouve-se outra voz. E mudamos com eles. Sem medo da mudança — ou, pelo menos, decididos a arriscar compreendê-la e aceitá-la.

Na sexta-feira à noite, já perto do fim, quando ouvimos os acordes iniciais do nosso hino, voltámos ao pátio do liceu, às arcadas do prédio, ao som ranhoso de um walkman comprado em segunda mão. Tudo era o momento ideal para ouvir música, aquela música. E, juntos, cantámos a plenos pulmões, como nas discotecas e saltámos como nos concertos. Pés em riste, pernas dobradas, braços no ar, o corpo a reagir aos acordes e ao ritmo, numa aparente desconexão. O entusiasmo foi o de 1996 em cima dos joelhos de 2026: 30 anos de um orgulho pouco ortopédico.

Ao longo da noite, reencontrámos amigos e conhecidos, contámos histórias que nem estávamos certos que ainda sabíamos e desvendámos memórias que não teriam ficado mal no baú. Desabafámos e entregámo-nos. E lembrámo-nos que a música é o combustível para o necessário dramatismo do teenager a caminho de ser jovem adulto. Três décadas depois, o mesmo grupo serve sobretudo para nos lembrarmos que, em tempos de guerra, baixar as defesas também é viver, sobretudo se o fizermos com a banda sonora certa.

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