Lászlo Krasznahorkai, da Hungria, e Olga Tokarczuk, da Polónia, distinguidos com o Nobel da Literatura, em 2025 e 2018, respetivamente, são dois dos nomes com presença confirmada na edição inaugural do Babell. Juntam-se a outros escritores de renome global, como o britânico Julian Barnes (que acaba de lançar Partida, anunciado como o seu último livro), o indiano-britânico Salman Rushdie, a canadiana Margaret Atwood, o espanhol Javier Cercas, a brasileira Conceição Evaristo, o colombiano Héctor Abad Faciolince ou o filósofo germano-coreano Byung-Chul Han. A programação integral foi revelada esta terça-feira, ao fim do dia, no Teatro Rivoli.
O único momento do festival que extravasa as fronteiras do Porto é a abertura, agendada para 24 de junho, dia de São João e feriado municipal no concelho: acontece no Mosteiro de Leça do Balio, em Matosinhos, sede da Fundação Livraria Lello. Para essa ocasião está programada uma conferência a cargo de Byung-Chul Han, que vai falar sobre abrandamento e reaproximação à natureza e ainda apadrinhar o Jardim do Pensamento. Esse espaço verde com quatro hectares, na margem do rio Leça, resulta de um projeto assinado pelo arquiteto Siza Vieira e pelo arquiteto paisagista Sidónio Pardal.
De resto, ao longo dos dias, em ruas, praças, jardins e equipamentos do centro histórico do Porto, há atividades destinadas a todo o tipo de públicos, incluindo o infanto-juvenil, numa iniciativa que se pretende democrática. A começar pela forma de aceder às sessões: para garantir lugar sentado, basta comprar um livro numa das mais de 50 livrarias portuenses aderentes. Pode ser uma obra no valor de um euro, adquirida num alfarrabista, ou uma novidade; do livreiro recebe-se um vale com um código para inserir no site do festival e proceder, então, à reserva. As “bilheteiras” abrem já no próximo dia 7. E, para assistir comodamente à sessão escolhida, no dia, é necessário levar na mão um qualquer volume.
A única sessão realizada fora do espaço público tem como protagonista Salman Rushdie. Está marcada para o dia 28, às 21h30 horas, no Coliseu do Porto, e tem moderação a cargo do escritor, editor e bibliotecário Alberto Manguel.
Um orçamento que supera os dois milhões de euros
A festa envolve ainda música, cinema e arte contemporânea. GNR e Pedro Abrunhosa a pisarem juntos o palco, no dia 25 de junho, a partir das 21h30 horas, na Avenida dos Aliados. Ao desfile de clássicos que se espera de cada uma das partes, há um tema em comum, composto de propósito para o Babell, com base em textos de poetas portuenses. Já o Batalha – Centro de Cinema exibe filmes ligados à programação literária, em três ocasiões distintas. E o artista chinês Cai Guo-Qiang prepara um espetáculo visível da Ribeira do Porto e do Cais de Gaia, a unir as duas margens do Douro. Trata-se do criativo responsável por projetos como “Sky Ladder” (que motivou um documentário disponível na Netflix) ou o espetáculo que assinalou, há pouco tempo, o fecho temporário do Centro Pompidou, em Paris.
A programação, comissariada pelo escritor e editor Rui Couceiro, abrange ainda sessões literárias, intervenções poéticas, performances, exposições, conferências, colóquios, aulas de História sobre o Porto e a apresentação de um único livro. O novo romance de Valter Hugo Mãe é dado a conhecer no último dia do evento, às 19 horas, na Praça de Gomes Teixeira (vulgo Praça dos Leões). Lídia Jorge, Gonçalo M. Tavares, Dulce Maria Cardoso, Djaimilia Pereira de Almeida e Bruno Vieira Amaral são outros autores nacionais que marcam presença em diferentes momentos do festival.
O Babell, descrito como um evento literário e cultural de projeção internacional, que funciona também como ativo turístico, é promovido pela Fundação Livraria Lello, em coprodução com a Câmara do Porto. “O orçamento é difícil de mensurar, porque também advém da Câmara Municipal do Porto, que contribui com muitos serviços e profissionais. Da parte da Fundação Livraria Lello, suplanta, largamente, os dois milhões de euros”, disse Rui Couceiro aos jornalistas, já à margem da sessão. Não duvida: “O Porto é, por natureza, uma cidade literária, uma cidade romanesca, poética. Aqui nasceram e viveram muitos dos maiores escritores portugueses. É uma cidade que tem uma relação muito próxima com a literatura”.
O festival caminha de mão dada com uma série de efemérides: além de surgir no âmbito das comemorações dos 120 anos da Livraria Lello, Monumento Nacional, o Babell coincide com os 30 anos da classificação do centro histórico do Porto como Património Mundial e os 25 anos da Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura. A propósito, um dos ícones da cidade, a Torre dos Clérigos, é cenário do monólogo Aparição, de Luís Osório, sobre episódios curiosos envolvendo escritores nacionais e internacionais. Tem lugar na noite de encerramento do festival, pelas 21h30 horas.
Na sessão em que foi anunciada a programação completa do evento, usaram da palavra, entre outras personalidades, o vereador da Cultura, Jorge Sobrado; o presidente da Autarquia, Pedro Duarte; e o administrador da Fundação Livraria Lello, Pedro Pinto. O foco esteve na vontade de transformar o Porto numa autêntica “Cidade-Livro”, fomentando o acesso à leitura — “a pedra de toque da democracia”, como afirmou Sobrado. Falou-se d’As cidades invisíveis, de Calvino, citou-se Manuel António Pina, apresentou-se o festival como “uma arma cultural capaz de provocar impacto no território e na vida das pessoas”, nas palavras de Pedro Pinto. “Fomos fuzilados por um programa único, brutal, no sentido mais positivo do termo”, concluiu, por seu lado, Pedro Duarte.