Um minuto, dois momentos, a história do jogo condensada num livro com um par de segundos – mas que estava tudo menos no bolso de quem ganhou a primeira mão. Depois do triunfo do Barcelona em Madrid na Liga, que perante os sucessivos tropeções do Real na competição estendeu a passadeira para a reconquista do título, a formação de Hansi Flick vacilou onde não podia vacilar e perdeu na Catalunha com os colchoneros nos quartos da Liga dos Campeões: Pau Cubarsí foi expulso com vermelho direto, Julián Álvarez marcou um golo fantástico de livre direto e os comandados de Diego Simeone agarraram-se depois a essa vantagem como se não houvesse amanhã acrescentando ainda o 2-0 numa transição por Sörloth. Contra as previsões, era o Atl. Madrid que tinha a passagem na mão e o Barça que estava obrigado a dar uma resposta possível como aquela que conseguiu nas meias-finais da Taça do Rei na sequência do descalabro no Metropolitano.

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Havia outro “obstáculo” adicional na missão: o conjunto de Madrid jogava somente para a Champions e para a Taça do Rei, com final marcada para o próximo sábado com a Real Sociedad em Sevilha. Havia a esperança redobrada naquela que é a figura entre todas as figuras dos blaugrana: Lamine Yamal. Era no jovem jogador de 18 anos, segundo melhor na Bola de Ouro do ano passado, que recaíam as atenções antes da segunda mão dos quartos. Comparações com Leo Messi? Mais do que muitas. Maior diferença? “Um ocupou um lugar lógico, o outro não”, destacava esta terça-feira o El País. “O argentino foi filho dos seus pais e irmão dos seus irmãos. Em contrapartida, Lamine teve um papel diferente: foi pai dos seus pais e protetor de toda a família. Agora, também, apesar dos 18 anos, é o líder dos seus companheiros”. Era ele e mais dez.

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Para o jogador, para o grupo e para o próprio clube, aquilo que podia ser visto como um problema destacava-se como possível solução. Na antecâmara de uma partida que podia definir em grande parte a época, Lamine Yamal chegou-se à frente e esteve com Hansi Flick na conferência de imprensa. Com as madeixas loiras no cabelo como um miúdo de 18 anos, com os óculos na cara que conferiam a maturidade de alguém que já leva três anos ao mais alto nível nestes palcos. “Desde pequeno que assumi mais responsabilidades do que devia, estou acostumado a isso. Não vejo isso como um problema mas sim como uma virtude. Gosto da confiança que os meus companheiros me passam”, salientou o internacional espanhol, que há muito tivera uma frase numa outra intervenção que o definia como pessoa e jogador: “Deixei o medo nas ruas de Rocafonda”.

“Jogo no Barcelona, que tem vários jogadores de qualidade, que tem jogadores com experiência. Não creio que tudo vá passar por mim, contamos com muitos líderes na equipa. Eu considero-me um mas não o único”, referiu, explicando também o porquê de ter colocado no seu Instagram uma fotografia de LeBron James, um dos grandes astros da NBA, depois de semanas mais discretas nas redes sociais. “É uma das referências que me pode inspirar para este jogo, vou pensar como conseguiu também dar a volta e tentar ser como ele”, disse, a propósito da reviravolta dos Cleveland Cavaliers na final da competição contra os Golden State Warriors em 2016, quando a equipa de Este perdia por 3-1 mas ganhou por 4-3. Lamine tinha apenas oito anos e já gostava de desafiar os outros como agora: “Pode ser que o Cholo [Simeone] me faça um favor e me ponha 1×1 contra algum jogador, espero que sim”. O avançado sabia que isso nunca iria acontecer. O avançado sabia também que, como no basquetebol, ter dois ou três adversários consigo iria libertar outros companheiros.

Era nesse contexto que o jogo era lançado, depois da polémica da véspera em que os responsáveis catalães, a começar pelo técnico Hansi Flick, se queixaram do tamanho da relva do Metropolitano no habitual treino de adaptação ao recinto. Todos os pormenores contavam dentro de uma partida onde o Atl. Madrid não estaria especialmente preocupado em ver o Barcelona com mais bola desde que isso não ameaçasse a sua estrutura defensiva que não contava com Giménez, Hancko e Pubill (sobravam Lenglet e Le Normand). “Na primeira mão, jogámos muito melhor no campo deles do que o Barcelona esperava. Portanto, temos fé e confiança naquilo que queremos, que é avançar para as meias-finais. Como já competimos tantas vezes contra eles esta temporada, sabemos que são um adversário muito bom e difícil mas estamos convictos do que precisamos de fazer e jogaremos para que isso aconteça”, destacara o técnico argentino dos colchoneros.

Havia algo fulcral para os visitados andarem confortáveis na partida: estabilidade defensiva. Havia algo que era em simultâneo fulcral para os visitantes reentrarem na eliminatória: caos ofensivo. E bastaram somente cinco minutos para se perceber quem ganhava esse primeiro capítulo, com Lamine Yamal a obrigar Juan Musso (que ganhou o lugar ao suplente Jan Oblak) a uma defesa apertada para canto com 35 segundos de jogo antes de aproveitar um erro de palmatória de Lenglet para receber uma assistência de Ferran Torres e marcar isolado o 1-0 no quarto minuto. A assumir o risco sem bola, os catalães iam com tudo para baralhar as marcações dos colchoneros e ficaram perto de igualar a eliminatória pouco depois, com Musso a tirar o golo com a palma da mão a Dani Olmo (9′). O Barça mostrava argumentos para discutir a passagem.

Griezmann ainda teve um desvio com perigo na pequena área após jogada de Lookman mas a maneira como o Barcelona conseguia condicionar a construção do Atl. Madrid era a chave para inclinar o encontro para a baliza dos colchoneros. Mais: depois de ter começado mais por dentro, Lamine Yamal foi dando uma maior largura ao ataque colocando-se mais à direita para fixar Ruggeri e atrair um dos médios. Não foi por acaso que isso aconteceu, não foi por acaso que chegou o 2-0: Dani Olmo recebeu sozinho no meio com tempo para se virar para o jogo, assistiu Ferran Torres na diagonal e o avançado rematou cruzado na área sem hipóteses (24′). Tudo empatado no Metropolitano, num cenário que só não se tornou mais dantesco a seguir porque Musso tirou o golo a Fermín López após assistência de Lamine antes de atingir o jogador que ficou a sangrar de forma abundante do nariz. Essa paragem acabou por ser o pior possível para os catalães, que no primeiro erro defensivo sofreram logo com Lookman a concluir a assistência de Marcos Llorente (31′). Com Musso a brilhar de novo na baliza e Dani Olmo a ficar a pedir um penálti, o Atl. Madrid estava na frente.

O segundo tempo começava sem alterações, com os colchoneros a tentarem ter outra consistência sem bola e os blaugrana em busca de um terceiro golo que voltasse a deixar tudo empatado na eliminatória. Lookman teve um aviso (51′), Ferran Torres não perdoou em mais uma grande jogada coletiva do Barça que acabaria por ser anulado por fora de jogo do avançado (55′) e os minutos iam passando com a equipa da casa, sempre com Diego Simeone a puxar pelos jogadores e pelo público, a segurar as investidas dos catalães, que tinham em campo Lewandowski e Rashford. O Barça perdia força, o fantasma da defesa que joga muitas vezes pouco atrás do meio-campo voltou a aparecer, neste caso com Eric García a carregar Sörloth quando o norueguês seguida para a baliza e a ser expulso (80′). Ronald Araújo ainda teve um cabeceamento na pequena área por cima (90+6′) mas o 2-1 não seria desfeito com o Atl. Madrid em festa apesar da derrota.