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"Rabo de Peixe" e a difícil arte de dizer adeus

Este artigo tem mais de 6 meses

À terceira temporada, acabou a história. Mas Susana Verde garante que foi precisamente a história que não conseguiu manter-se sempre no mesmo nível neste merecido sucesso português na Netflix.

A série tem uma estética claramente definida — que se manteve — e a câmara de Augusto Fraga é muito mais do que uma observadora passiva, marcando o ritmo com que a história se conta
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▲A série tem uma estética claramente definida — que se manteve — e a câmara de Augusto Fraga é muito mais do que uma observadora passiva, marcando o ritmo com que a história se conta

LENA WAN/NETFLIX

▲A série tem uma estética claramente definida — que se manteve — e a câmara de Augusto Fraga é muito mais do que uma observadora passiva, marcando o ritmo com que a história se conta

LENA WAN/NETFLIX

Estou a olhar para este cursor a piscar há uma boa meia hora. Já escrevi e apaguei a primeira frase uma mão cheia de vezes. Não vou dizer que fiquei sem palavras, porque isso é uma impossibilidade categórica, como pode ser verificado pela extensão dos lençóis que compõem o meu portfólio nesta casa. Às vezes, olho para o contador de caracteres e penso “Susana, tu não sabes parar”. Talvez por isso esteja empática com Augusto Fraga e restante equipa, sobrepopulada de gente talentosa que admiro. Ainda assim, depois de ver a derradeira temporada de Rabo de Peixe, fica-me a sensação que faltaram travões e é pena. Tinham estacionado num lugar à sombra tão jeitoso e foram parar em sentido contrário, com uma roda em cima do passeio, em frente à sede da EMEL.

Onde é que ficámos em outubro passado? A última temporada acabou com uma promessa do protagonista: vingança. Eduardo (José Condessa), saído de fresco da prisão, traz um novo semblante e uma atitude a condizer: cara de mau, mandou para a reforma a lágrima que lhe escorreu face abaixo durante a maior parte da segunda temporada e exibe o sobrolho contraído de quem tem uma missão e não se vai desviar um milímetro até alcançar o seu objetivo. Quer dizer, primeiro vai juntar-se aos amigos, beber umas jolas, relembrar peripécias e dar abraços sentidos, enquanto toca o Stand By Me.

E com que estado de alma se encontram os “compagnon de route” de Eduardo? O Carlinhos (André Leitão) está agarrado à sobriedade com unhas e dentes, aceitou uma posição como músico num cruzeiro, mas está cheio de vontade de embalar a trouxa e zarpar, porque já percebeu que a sua função está reduzida a encher os silêncios entre o som das ondas, o tilintar do gelo dos cocktails de passageiros alcoolizados e um “Toca aquela!”. A Sílvia vestiu-se de mãe guerreira, porque, como é sabido, assim que cuspimos a placenta vamos de meninas a mulheres mais rápido que um Lamborghini dos 0 aos 100, o que permite aos meninos-homens fazer o desmame da teta da irresponsabilidade juvenil no seu tempo, porque, como também se sabe, a natureza sabe o que faz.

[o trailer da terceira temporada de “Rabo de Peixe”:]

O Rafa (Rodrigo Tomás) tornou-se o de pai de família, mas as calças da adultez estão-lhe compridas e passa o tempo a tropeçar nas bainhas, contrariado: “Eu sei que os gatos de casa vivem mais tempo. Mas o que é que tu preferias? Preferias ser um gato de casa, cortavam-te os colhões e comias ração o dia todo ou um gato de rua?”. Está visto que o Rafa não é apreciador de comida seca, pelo que foi o que mais se entusiasmou com a ideia de uma reunion para descobrir quem é que entalou este narco-bando dos 4, que causou a avalanche de esterco que levou o Eduardo para a prisão.

Sílvia (Helena Caldeira), como anteriormente referido, agora é mãe por isso não está para aí virada, porque tem mais que fazer do que andar a brincar à apanhada com indivíduos que potencialmente deixariam o seu filho órfão. No entanto, a maternidade trouxe-lhe um fleumático sentido de solidariedade que será impossível de ignorar, porque ela passa a temporada a repetir o mantra “Porque é que não ajudas as pessoas?”, “Temos que ajudar as pessoas”, “E se ajudássemos as pessoas?”.

E é desta forma que Eduardo, Carlinhos, Rafa e Sílvia ressuscitam a “Justiça da Noite”, uma espécie de milícia popular que, de facto, existiu nos Açores entre o séc. XVIII e o séc. XX, e tinha por missão defender os pobres e oprimidos dos poderosos e corruptos. Uma espécie de Avengers insulares, Power Rangers ilhéus, munidos de passa-montanhas coloridos, o que aparentemente é o bastante para proteger a identidade deste quarteto amplamente conhecido na ilha, que deixou um rasto de desastre e crime nas outras duas temporadas, está constantemente sobre vigilância não só por parte da polícia local, como dalguns reforços continentais, como é o caso da Inspetora Paula (Maria João Bastos). Que, a propósito, está há 3 anos à procura da filha que foi raptada na noite em que ela quase apanhou o colega corrupto Banha. Paula está naturalmente obcecada, o que a leva a tomar medidas menos ortodoxas que conduzem ao seu afastamento da polícia. Uma mulher quebrada, desesperada, obcecada pelo desaparecimento da filha Mariana…

▲ Eduardo e Sílvia, ou José Condessa e Helena Caldeira, os protagonistas de "Rabo de Peixe" desde o primeiro episódio

LENA WAN/NETFLIX

Mas era preciso introduzir a personagem de um jornalista íntegro e com propósito (Ângelo Rodrigues), que empatizasse com a “Justiça da Noite” a apertasse os calcanhares a magnatas mal intencionados e políticos populistas. Por isso, no meio deste meltdown, a inspetora solitária e workaholic que vivia para as suas missões e tem nas mãos o caso mais importante da sua carreira, salvar a vida da filha, arranjou um namorado. Já se sabe que as mulheres gostam de fazer muitas coisas ao mesmo tempo.

Ao longo dos episódios, acompanhamos esta cruzada pela vingança de Eduardo & Friends, que seguem um rasto de migalhas, que mais parecem pães de quilo deixadas pelos cúmplices e assalariados do Comendador Canto Moniz (Joaquim Almeida), o arauto da desgraça de Eduardo. Este DDT lá da ilha financia a candidatura de Cristina Brum (Vitória Guerra) que fala da “bandalheira” e garante que vai “limpar os Açores”, já que a vitória candidata abre uma auto-estrada para os seus interesses económicos. Rings a bell?

Não satisfeito, o quarteto da “Justiça da Noite” aproveita para fazer também alguma justiça do dia-a-dia, assumindo o papel de juízes de pequenas causas e iniciam uma caça a trapaceiros, bandidos e salafrários de diversa índole, porque como a Sílvia lembra “temos de ajudar as pessoas”. A certa altura, alguém afirma que “justiça popular não é justiça. É satisfação pessoal. É punheta”. E, de facto, tornar-se herói do povo é um fermento do ego muito poderoso, portanto, tem tudo para correr bem, não é verdade?

Para juntar à festa, que isto não estava suficientemente confuso, aparece um par de marginais (Inês Castel-Branco e Cristovão Campos) que querem porque querem fazer a folha ao Eduardo, sabe Deus porquê. Ah, e mais: é certo que o nosso Conde de Monte Cristo micaelense voltou com a ideia firme e inabalável de apanhar os culpados e puni-los à medida, enquanto foge à polícia, a cartéis de várias nacionalidades, a um casal de toxicodependentes a soldo e a mais uma outra personagem que não vou referir para não dar spoiler. Mas porque o mundo não é só isto, o mundo é bué cenas, ainda arranja tempo para fazer a corte à gata da Bruna (Kelly Bailey), mesmo considerando que ela é filha de um polícia que está enterrado até aos olhos no esquema que o lixou à grande. E então? O amor é mágico.

▲ Rafa, papel desempenhado por Rodrigo Tomás, e Carlinhos, interpretado por André Leitão

LENA WAN/NETFLIX

A realização será talvez o que se manteve num nível mais próximo daquilo que vimos nas anteriores temporadas. A série tem uma estética claramente definida — que se manteve — e a câmara de Augusto Fraga é muito mais do que uma observadora passiva, marcando o ritmo com que a história se conta. O problema é que a storyline foi ladeira abaixo e não há enquadramento dramático ou paleta néon que a safe. E embora o elenco tenha entregue o que lhe foi dado para as mãos e é um senhor elenco, a verdade é que, no passado, Rabo de Peixe marcou pontos com personagens icónicas, interessantes, divertidas e bem construídas. Já as novas personagens da derradeira temporada, algumas houve que nem o nome retive, servindo apenas de alavanca para o nível seguinte do jogo de gato e rato. Rabo de Peixe começou com uma história extraordinária, mas verídica, e coloriu-a com personagens de ficção fluorescentes, com traços de humanidade que reconhecemos desde que o cinema é a preto e branco. No fim, sobrou uma versão desbotada no essencial e berrante no acessório.

Conheço bem a sensação de paixão por uma ideia, uma personagem, uma história e a resistência em desligar as máquinas, quando toda a gente à volta já a velou, rezou missa, cremou e espalhou as cinzas. Se me dessem a oportunidade de continuar a contar uma história que me é tão próxima, num universo tão particular, com um histórico de sucesso evidente e ainda ganhar dinheiro com isso, eu dizia que não? Não sei se dizia. Por isso, qualquer pedra que atire, pode perfeitamente fazer efeito bumerangue e estilhaçar-me a marquise. Infelizmente, foi ao que me soou esta temporada final: uma marquise que não estava na planta original, não respeita a traça do resto do edifício e nem usa os mesmos materiais, porque houve rutura de stock. Estava ali aquele espaço tão jeitoso para aproveitar que não houve como evitar. E é claro que até tem a sua utilidade e ganhou-se arrumação, apesar do espaço para coisas que, na verdade, não eram necessárias. Mas continua uma bonita construção e um merecido sucesso.

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