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"Rabo de Peixe", segunda temporada: saudades do Arruda, mas venha de lá a terceira

Este artigo tem mais de 6 meses

No final dos novos 6 episódios, Susana Verde sentiu falta do ponto-rebuçado da história de há dois anos e de personagens que não voltaram. Mas garante: o sucesso novamente mais do que justificado.

Os dados estão lançados para um novo jogo de gato e rato, carregadinho de nuvens de coca, violência, perseguição, sexo puro e duro (como dizia Rute Remédios)
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▲Os dados estão lançados para um novo jogo de gato e rato, carregadinho de nuvens de coca, violência, perseguição, sexo puro e duro (como dizia Rute Remédios)

LENA WAN/NETFLIX

▲Os dados estão lançados para um novo jogo de gato e rato, carregadinho de nuvens de coca, violência, perseguição, sexo puro e duro (como dizia Rute Remédios)

LENA WAN/NETFLIX

[Aviso: este texto pode ter spoilers sobre a segunda temporada da série “Rabo de Peixe”]

31,5 milhões de horas de visualização num semestre, top 10 global de séries em língua não-inglesa da Netflix e uma das séries mais vistas em 15 países. Arruda (Albano Jerónimo) roubou a quarta-feira a Rita Pereira, o Eduardo (José Condessa) mostrou que ir ao mar em calças de ganga e tronco nu pode ser uma cena, and last but not the least, Sílvia (Helena Caldeira) expôs a fraca performance dos micaelenses ao nível do sexo oral e um coro continental assegurou que o fenómeno nem é ficção, nem é exclusivamente insular.

Goste-se ou não, Rabo de Peixe foi um sucesso. Eu sou das que gostei e antes de ver já queria gostar. Um belo de um elenco com novatos, consagrados e assim-assim. Uma história baseada, de forma muito livre, num evento fascinantemente real. Um guião assinado pelo criador e realizador Augusto Fraga em conjunto com João Tordo e Hugo Gonçalves — este último, o meu escritor-fetiche na última década e pouco. Entusiasmei-me com o galgar da série no ranking da Netflix, como se da Seleção Nacional se tratasse. Fui testemunha das diversas ondas, desde “já viste? ‘tá incrível” a “para português ‘tá bom”. Assinalei ainda as vagas de “onde é que está o sotaque?”, “os Açores não são isto” e o “demasiado comercial, demasiados palavrões, demasiado…” Sucesso? Há quem não tenha gostado de ser confrontado com a possibilidade do sucesso acontecer com as condições miserabilistas da produção de ficção em Portugal. Eu cá fiquei feliz. E agora? Como é que se avança depois disto?

Como foi feita a segunda temporada de “Rabo de Peixe” (e o que esperar): “Pusemos a pressão às costas, como uma mochila, não a evitámos”

Vou fazer agora um pequeno previously, por isso quem não quer spoilers da primeira season, aproveite para ir beber uma bica (não há estrangeirismo para isto) e volte no parágrafo seguinte.

A temporada acabou com Eduardo e Carlinhos (André Leitão) rumo à almejada América, sendo que Sílvia (Helena Caldeira) cortou-se à última da hora, porque descobriu que estava grávida, informação que não partilhou com o progenitor, o supra citado Eduardo. O quarto elemento, Rafael (Rodrigo Tomás), se bem se lembram, foi de vela a meio da temporada às mãos do Arruda. Arruda que, por sua vez, levou uma arpoada fatal do pai do neto, qual atum-rabilho. Já o Uncle Joe (Pepê Rapazote) ficou incumbido de ser o fiel guardador dos fardos de palha com recheio especial de cocaína, o que valeu um plano de drone daqueles de encher o olho. Caso fechado, mas a chata da Inspetora Paula (Maria João Bastos) não ficou convencida, para mal dos pecados do colega Francisco (Salvador Martinha) que queria ficar sossegadinho a multar vacas por excesso de velocidade ou algo assim do género. Estamos todos? Avancemos, então.

[o trailer da segunda temporada de “Rabo de Peixe”:]

A ação é retomada no dia 11 de setembro o que, na verdade, não interessa grande coisa para a história, mas o público acha sempre graça a estes cruzamentos entre a realidade e a ficção. Um sacana de um canito no seu passeio matinal encontra uma mão do Arruda num terreno do Uncle Joe, o que vai levar à reabertura do caso da droga, para gáudio da Inspetora. Nesse entretanto, Eduardo e Carlinhos vão de viajantes clandestinos num barco em direção aos Estados Unidos, a presos num centro de detenção e consequentes deportados dos Estados Unidos. É relevante dizer que o Carlinhos traz de souvenir da América um vício em opióides, um coração partido e um rancor a Eduardo. O Eduardo, por sua vez, deixou os caracóis na América, para grande tristeza de boa parte do fan club do Condessa, mas nada temam que há manga à cava e torso bem iluminado com fartura.

Sílvia está a tentar abraçar uma vida normal para receber a criança que tem na barriga, mas a vida atravessa-se no caminho através de Orlando (José Raposo), seu tio. Um ofegante mafioso contabilista que não se cansa de repetir que “Não há nada mais importante que a família” e empurra o negócio do falecido irmão para as mãos da sobrinha, ao mesmo tempo que está obcecado por descobrir quem lhe matou o mano. Vou só fazer aqui uma pequena pausa para uma vénia, daquelas que quase que se bate com a testa no chão, a José Raposo que é extraordinário a fazer absolutamente tudo e aqui não é exceção.

Para ajudar à festa, entram em campo “os verdadeiros donos da droga” que voltam a colocar a bota no pescoço dos protagonistas. Ofélia (Paola Olveira) é uma brasileira neta de açorianos, e é acompanhada pelo seu capanga-mor Fagner (Caio Blat), uma psicopata amoroso que faz jus ao estereótipo de que os brasileiros adoram fazer churrasco, sendo que ele substitui a picanha por gente — mesmo. Os dados estão lançados para um novo jogo de gato e rato, carregadinho de nuvens de coca, violência, perseguição, sexo puro e duro (como dizia Rute Remédios), dilemas morais, uma tonelada de vernáculo, referências das boas (Coração Selvagem, Goodfellas, Raúl Seixas, Bowie…) com a bucólica paisagem do arquipélago açoriano como pano de fundo. Ou como diz Fagner: “A partir de agora, é dedo no cu e putaria”.

▲ Augusto Fraga divide a realização com João Maia (Variações, O Arquiteto) e o guião com o repetente Hugo Gonçalves e o estreante Tiago R. Santos — estreante apenas em "Rabo de Peixe"

PAULO GOULART/NETFLIX

Desta feita, Augusto Fraga divide a realização com João Maia (Variações, O Arquiteto) e o guião com o repetente Hugo Gonçalves e o estreante Tiago R. Santos — estreante apenas em Rabo de Peixe, já que tem um currículo extenso e valoroso, incluindo parcerias felizes com Gonçalves (País Irmão, Até que a vida nos separe). A realização, a fotografia e a montagem continuam a encher-me as medidas, a cor néon de Rabo de Peixe é de cinema e do bom e a banda sonora é, uma vez mais, irrepreensível. O Carlinhos a cantar Where Did You Sleep Last Night e a introdução de Karma Police foram direitinhos ao meu meu coração de adolescente grunge, é quase golpe baixo.

Os diálogos continuam a ter pérolas que dão vontade de tatuar ou, no mínimo, hão-de ser citações em posts do Comunidade, Cultura e Arte: “Sensíveis são as gengivas nos anúncios da pasta de dentes”; “Filho é foda. É como você viver como um mendigo”; “Só há duas coisas inevitáveis na vida: a morte e os impostos”. As interpretações são na mouche quase de forma transversal. No quarteto de protagonistas, José Condessa continua a ser, para mim, o elo mais fraco. Pode ser porque eu acho a personagem do Eduardo muito irritante, uma espécie de Jon Snow que acha que está sempre a fazer o melhor para os outros, mas na verdade está a atolar-se no esterco e não vai sozinho. E depois, é aquela cara de sacrifício humano e a monolágrima a meio da pálpebra inferior. Até porque já vi Condessa, inclusivamente no teatro, a fazer muito bem.

Menção extremamente honrosa a Afonso Pimentel e ao seu Ian, um dependente de drogas e sexo ex-aequo, que passa a língua em tudo o que se lhe atravessa à frente, ao mesmo tempo que já está de olho na fila de trás, e aspira coca de maneira mais eficiente que um Dyson.

Admito: queria muito gostar tanto desta temporada como da anterior, mas infelizmente não aconteceu. E o que me falha aqui é a história. É uma maravilha ter personagens tão fortes e ter a oportunidade de revisitá-las? É. Mas a sensação que me dá é que a história serve apenas para isso e não vale por si só. Há momentos que parecem quase sketches ou videoclips inseridos na narrativa, um parque de diversões para a realização. O que eu percebo e empatizo, mas desliga-me da narrativa.

▲ A história ficou penduradíssima. Voltem sempre, rapexinhos! Porque foi um gosto, foi mesmo

LENA WAN/NETFLIX

A cena do casamento com quilos de slow motion e a sequência à Ocean’s 11 do Mike, um Ricardo Pereira a fazer um guru à la Tom Cruise no Magnolia, são exemplos disso. E sei que é uma dor de alma que o Rafael e o Arruda tenham morrido na primeira temporada, os meus personagens favoritos, sem dúvida nenhuma. Mas foram vocês que os mataram, porra. E se a ressurreição da eterna promessa futebolística ainda passa, com Rodrigo Tomás a dar novamente um banho de interpretação, o Arruda em formato espectro do além é só despropositado. Usá-lo como narrador, substituindo o Uncle Joe? Excelente ideia, era terem ficado por aqui. Eu sei que é difícil abrir mão do Albano Jerónimo (não sei, mas imagino), mas metê-lo a martelo, para nos relembrar que incrível que era na primeira temporada, não funciona para mim.

Evidentemente, vou ver a próxima temporada, até porque a história ficou penduradíssima, não é, seus espertalhões? A dada altura, a personagem de José Raposo diz à Sílvia criança: “Somos feitos de números. Nós somos números”. Espero muito que esta temporada tenha números tão bons ou melhores que a anterior mas, infelizmente, na minha escala, ficou uns valores abaixo. Mas voltem sempre, rapexinhos! Porque foi um gosto, foi mesmo.

[A 14 de janeiro de 1986 um acontecimento muda o rumo da campanha das presidenciais: a inesperada agressão a Soares na Marinha Grande. Nas urnas, o socialista e Zenha lutam por um lugar na segunda volta frente a Freitas. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui, o segundo aqui e o terceiro aqui.]

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